Ensinar as crianças a ‘estar presente ao momento’ pode mudar o seu futuro

Por Poorna Bell
in The Huffington Post UK | 17 de fevereiro de 2016  ver artigo original
“A maior parte de nós foi educada a acreditar que não somos suficientemente bons e que o sofrimento que sentimos é culpa nossa, mas… se trabalharmos arduamente, seremos capazes de ultrapassar a situação.
“É extraordinário há quanto tempo esta ideia existe e persiste.”

Estas palavras pertencem ao dr. Mark Williams, nome incontornável do mindfulness. Quando ele as proferiu, durante uma conferência em Londres do Mindfulness in Schools Project, centenas de pessoas – desde estudantes a professores – quedaram-se pensativas como se reconhecessem o destinatário dessas palavras no seu caso pessoal.
Esta conferência reuniu aqueles que defendem a introdução do mindfulness na escolas:  os professores que o praticam e os estudantes que já o experimentaram.
Para os que não sabem, mindfulness é a prática de estar presente ao momento. Se, ainda assim, isto lhe parecer demasiado vago, significa dar a si mesmo espaço para fazer uma pausa do que estiver a fazer no momento e respirar, ou como diria Mark Williams “para examinar o ‘clima’ na sua cabeça.”
Ao fazê-lo, está a criar uma bolsa de tranquilidade, permitindo pôr de parte os problemas que possam ter havido no passado e as preocupações que possa vir a enfrentar no futuro.
Nas escolas, locais já de si bastante agitados, os defensores do mindfulness acreditam que este possa ter um efeito significativo nas crianças em termos de concentração, generosidade, empatia e autoconhecimento. Imagine-se, defendem eles, o impacto que isso possa ter em questões como as do bullying ou na capacidade de autocontrolo a partir de uma idade mais precoce.
No seu estudo, Developing Mindfulness in Children and Young People (Desenvolver ‘mindfulness’ em crianças e jovens), Katharine Weare, professora nas universidades de Exeter e de Southampton, escreve: “Eles acabam por se dar conta que os pensamentos são, antes de tudo, manifestações mentais e não factos.
“Isto altera progressivamente os habituais padrões psíquicos e comportamentais que, de outra forma, criam e mantêm estados mentais negativos, como os da ruminação, stress, ansiedade e depressão, melhorando assim estados mais estáveis e calmos, de aceitação e valorização do que é real em vez de se ficar preso a uma não realidade, aumentando consequentemente os níveis de felicidade e bem-estar”, disse.
Uma das mudanças mais significativas no mundo do mindfulness foi o quão rápido este se tornou numa mais-valia junto das escolas que colocam o bem-estar psicológico dos alunos na sua lista de prioridades.
Em Janeiro último, Nicky Morgan, ministra da Educação do Reino Unido, num discurso durante o Sunday Times Festival of Education desafiou os professores a interrogarem-se sobre o que eles têm feito para promover o bem-estar e a saúde psíquica entre os estudantes.
Para Amy Footman, diretora da Stanley Grove Primary School, o sistema de ensino está finalmente a pôr-se em dia em relação ao assunto.
“No âmbito do novo Ofsted (n.d.t. Office for Standards in Education, departamento não-ministerial do governo britânico encarregue de definir os padrões de qualidade de ensino no Reino Unido) discute-se muito sobre saúde mental e emocional. Cada escola possui uma ‘frota’ de socorristas e aquilo que eu espero fazer na minha escola é preparar o pessoal para lidar com primeiros socorros a nível psíquico.
“Se houver mindfulness a fluir pela cultura da escola, vamos conseguir ler melhor as situações, interpretando-as mais profundamente do que se nos limitarmos a escutar as palavras”, disse.
Até há um par de anos, o mindfulness nas escolas era visto como um mero complemento simpático ou, pior ainda, uma moda. Existem, atualmente, cada vez mais evidências da sua utilidade quando usado conjuntamente com outras formas de tratamento de saúde mental, como os que estão relacionados com a depressão e a ansiedade. Noutras palavras, passou a ser menos um “extra” e mais uma “necessidade”.
Uma vez que a maior parte das questões relacionadas com a saúde mental começam a manifestar-se na infância, a questão que se coloca é se o mindfulness pode ser usado – entre outras ferramentas – para ajudar as crianças a reforçar os seus mecanismos de adaptabilidade, a forma como elas se relacionam entre si e consigo mesmas?
Enquanto professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford e diretor do Oxford Mindfulness Centre, instituição pioneira na área, até à sua reforma em 2013, o dr. Mark Williams tem estado na linha da frente da investigação sobre o potencial do mindfulness.
Mark Williams está a levar a cabo um estudo, de nome Myriad, envolvendo 76 escolas e cerca de cinco mil estudantes. Trata-se de um dos maiores estudos nesta área.
A investigação está direcionada a alunos da faixa etária dos 11 anos, porque, como explica Mark Williams, “os problemas de saúde psíquica têm início na adolescência, numa altura em que as crianças subitamente percebem já não conseguirem lidar com eventuais problemas com que se estejam a debater.” E acrescenta: “Elas têm uma espécie de problema de adulto, uma espécie de ansiedade de adulto ou uma espécie de depressão de adulto. Mesmo antes desses problemas de atenção começarem, uma das características das crianças é elas não perceberem que têm um problema, e por isso não procuram ajuda.”
A saúde psíquica das crianças – e referimo-nos não apenas a doenças mas também ao bem-estar mental – encontra-se num ponto crítico, pelo que descobrir como abordar esta questão pode ser crucial para a prevenção do problema na idade adulta.
“Uma das coisas boas do mindfulness é não se tratar propriamente de um tratamento mas de um treino mental de habilidade da mente, o qual sabemos ter um efeito direto no bem-estar e na redução da depressão, embora tratando-se de um ‘subproduto’”, disse Mark Williams ao The Huffington Post UK.
“Trata-se de um subproduto para aprender com algum equilíbrio como se focar, não só perante um grande distrator externo – que todos nós temos, mesmo enquanto adultos -, mas também interno, como assumir que se é estúpido, não prestar, não ser capaz de fazer amizades…”, disse.
Até o “pessoal dos números” devia ficar impressionado com os montantes que poderiam ser poupados através do investimento em serviços de apoio e de prevenção nas crianças, em comparação com as fortunas que são posteriormente gastas no combate às doenças psíquicas em adultos.
Tim Loughton, deputado por Shoreham and East Worthing e co-presidente do Grupo Multipartidário de Mindfulness do Parlamento Britânico, disse haver “razões imperativas a nível financeiro para o governo atuar”, principalmente desde que o número de diagnósticos de depressão na faixa etária dos 16 anos duplicaram.
A vontade do deputado é que práticas como as do mindfulness se tornem mainstream e não um extra.
É claro que o mindfulness não pode “consertar” as coisas. Professores e praticantes não se cansam de realçar que a sua prática deve ser entendida como um complemento e não como um substituto a outros tipos de terapia ou de medicina.
Richard Burnett, co-fundador do Mindfulness in Schools Project (MISP), esteve envolvido na criação do “.B”, um programa de mindfulness de grande sucesso dirigido ao ensino secundário.
Seguiu-se o “Paws B”, dirigido à faixa etária dos 7 aos 11 anos, quando se constatou haver pouco apoio às crianças do ensino primário.
Ao nível do secundário, a prática pode envolver ficar deitado durante uma curta sessão de meditação. No que se refere às crianças do primário, pode ser utilizado um pequeno “sempre em pé” que elas usam para demonstrar os seus estados de humor.
Embora defensor apaixonado do mindfulness, Richard Burnett chama a atenção para a necessidade dos seus “orientadores nas escolas terem presente os seus limites. Se se estiver perante uma criança doente, com tendências psicóticas ou suicidas – o que por vezes acontece – há uma necessidade efetiva de medicação e de cuidados hospitalares, assim como de uma apertada vigilância clínica.
“O mindfulness pode ajudar, mas tem que ser em grupos muito reduzidos orientados por profissionais com formação clínica. Onde eu penso que ele pode fazer uma enorme diferença é na alteração da curva de bem-estar tendo em vista uma melhor saúde”, disse.
Lauren, de nove anos, que discursou na conferência de Londres e que fez o “Paws B”, disse que o miundfulness “ajuda as crianças da minha turma a ficarem mais calmas, principalmente depois dos intervalos.”
Do lado de fora do auditório as paredes estão cobertas com desenhos e frases de crianças que fizeram mindfulness. Uma delas diz: “eu uso o mindfulness para me acalmar ou quando estou em vias de bater na minha irmã, mas aí eu para e penso nas consequências. Vou começar a gritar mas paro e penso.”
Uma outra criança fala sobre como o mindfulness a ajudou a se acalmar antes de um recital de dança e como depois de mostrar a uma amiga como fazer a respiração corretamente isso também a ajudou. Outra, ainda, escreveu: “Não lutes contra o medo, treina a mente para ela se adaptar.” É fantástico que aquilo que os adultos demoram, por vezes, anos a aprender, uma criança de dez anos consiga apreender.
No entanto, os peritos não deixam de realçar que o mindfulness não é uma panaceia e que ele pode não resultar com todas as crianças.
A professora de geografia e orientadora de mindfulness, Paula Kearney, disse: “já tive alunos que acharam que o mindfulness não os ajudava, mas nunca tive nenhum que fosse radicalmente contra… e eles conseguem ser bastante enérgicos contra aquilo que não gostam.”
Una Sookun, vice-diretora numa escola secundária de Londres, diz existir uma mudança na forma como os alunos percepcionam a sua estabilidade emocional. “Apesar de haver um número terrível de crianças expostas a problemas psíquicos, elas preocupam-se realmente com a sua saúde”, disse.
Amy Footman diz que o maior impacto do mindfulness se dá ao nível da autoconsciência. Uma criança que após uma explosão de ira tenha sido colocada fora da sala, é capaz de se auto controlar muito melhor.
E acrescenta: “Sabemos que o mindfulness não vai evitar todas as explosões violentas – e quanto a isso eu sou muito clara com as crianças – ‘isto não vai evitar que vocês se sintam zangados ou tristes’. Mas pode ajudar a que elas notem quando isso acontece, dando-lhes o espaço para poderem dizer: ‘professora, preciso de cinco minutos. Não consigo falar agora, mas daqui a pouco já vou conseguir’”.
Quanto a convencer os pais sobre os benefícios do mindfulness, Paula Kearney diz que os melhores relações públicas sobre o tema são as crianças. “Muitas vezes são aqueles considerados mais irrequietos e barulhentos os melhores advogados do mindfulness, por serem muito mais abertos a falarem de como o usam e como isso os ajuda”, disse.
Com os tempos a puxarem inexoravelmente a saúde psíquica e o bem-estar físico como prioridade das escolas, conjugado com os problemas da crise da saúde psíquica nos adultos, faz todo o sentido refletir sobre o porquê do mindfulness e da auto consciencialização só poderem ser fatores positivos a longo prazo.
“A investigação tem constatado que as crianças com dificuldades de autocontrolo acabam muitas vezes por se tornarem adultos com problemas”, refere Mark Williams. “O mindfulness não é o controlo dos que estão ‘por baixo’ – mais um conjunto de instruções para crianças -, trata-se, sim, de dar um sentido de voltar ao comando do próprio barco.
“O sentido de se ser capaz de fazer uma pausa, de verificar e de notar. E, depois, ter em atenção o próprio estado de humor antes de dar o próximo passo. Uma ação que seja positiva”, concluiu.
Tradução Raul C. Gonçalves

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