Investigação sobre mindfulness vai estudar o efeito da meditação em sete mil adolescentes

Psicólogos e neurocientistas da Universidade de Oxford e da University College London preparam investigação sem paralelo sobre o efeito do “mindfulness” na saúde mental

por Robert Booth
in The Guardian | 15 de julho de 2015
Psicólogos e neurocientistas da Universidade de Oxford e da University College London anunciaram, na passada quarta-feira, estarem a preparar a seleção de crianças entre os 11 e os 16 anos entre 76 escolas secundárias, como parte de uma investigação que irá durar sete anos. Segundo os responsáveis, tratar-se-á da maior experiência neste campo jamais realizada, a qual porá em teste algumas das afirmações mais ambiciosas e cada vez mais frequentes sobre o poder da meditação mindfulness no tratamento de doenças, tais como a depressão e a ansiedade.
Esta prática surgiu nos anos 1970’s, baseando-se na ancestral meditação budista e envolve, essencialmente, a observação dos pensamentos à medida que eles ocorrem na mente e, ativamente, escolher entre ficar ou não preso a eles. Esta prática conheceu um enorme aumento de interesse entre adultos no Reino Unido e nos Estados Unidos da América.
No Reino Unido, cerca de 2.200 pessoas receberam treinamento como professores de mindfulness, um número suficiente para ensinar 200 mil pessoas por ano, e existem mais de 700 mil subscritores de uma app para smartphone, a Headspace,  que ajuda as pessoas a meditar.
O fundo britânico Wellcome está a financiar a pesquisa, no valor de 6,4 milhões de libras, sobre o efeito em adolescentes, no sentido de verificar se o entusiasmo pelo mindfulness não terá ultrapassado a ciência.
Os resultados do estudo serão analisados atentamente pelos decisores políticos. Em Janeiro de 2015, um comité interpartidário de deputados foi da opinião de que os funcionários públicos ligados às áreas da saúde e educação estariam menos sujeitos a baixas de saúde ou à desistência de funções devido ao stress, se praticassem mindfulness; pequenas experiências foram levadas a cabo envolvendo pessoal de enfermagem, gestores e crianças em idade escolar.
Uma professora envolvida no projeto admitiu que poderia tornar-se um desafio “vender” a ideia de mindfulness aos jovens. “Não é particularmente cool”, referiu Paula Kearney, professora de geografia na UCL Academy, uma escola secundária na zona norte de Londres, que tem ensinado mindfulness aos seus alunos. “Tenho ouvido imensos ‘Miss, não vou fazer isto, é ridículo’.” No entanto, outros alunos têm falado dos seus benefícios.
Willem Kuyken, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford, e coordenador do estudo, afirmou que a difusão da prática de mindfulness entre as crianças poderia fazer pela saúde mental da população britânica o mesmo que o fluoreto na água fez pelos seus dentes. Segundo o Dr. Kuyken, o teste está direcionado às crianças em parte devido às evidências de que metade do total dos distúrbios mentais têm início antes dos 15 anos de idade. Um dos objetivos é testar se o mindfulness consegue aumentar a resiliência às “principais vulnerabilidades” características dos adolescentes: dificuldade em manter a atenção face a pensamentos e impulsos que se podem tornar avassaladores.
“Tal como correr é uma forma reconhecidamente aceite de proteger a saúde física geral, os exercícios de mindfulness desenvolvem a saúde mental e a resiliência”, disse. Mas “o entusiasmo está a correr à frente da evidência e isto não pode servir de base para decisões sobre políticas. Nenhuma pesquisa anterior apresentou resultados conclusivos e existe agora uma necessidade premente para um teste de grande qualidade e solidez de modo a avaliar a sua eficácia.”
Com início em 2016, 3200 crianças dos 11 aos 14 anos – uma representação transversal da juventude britânica – vão receber treinamento em técnicas seculares de mindfulness, através de um curso com dez semanas de duração, e que envolverá uma aula semanal de 30 minutos e até 20 minutos de prática diária em casa. Ser-lhes-á ensinada meditações simples, como o exercício de respiração “7/11” – onde se inspira e expira durante 7 e 11 segundos, respetivamente -, ou a meditação a andar. Outros 3200 jovens irão receber a educação normal padrão. Ao longo dos dois anos seguintes ambos os grupos serão monitorizados em relação à sua susceptibilidade à depressão e perturbações mentais associadas.
Um terceiro grupo de 600 jovens, com idades compreendidas entre os 11 aos 16 anos, serão alvo de testes levados a cabo pela professora Sarah-Jayne Blakemore na UCL a realizar antes e depois de formação em mindfulness, para avaliação dos efeitos no seu autocontrolo e regulação emocional. Alguns serão submetidos a scanner do cérebro para avaliação da atividade cerebral; outros responderão a testes computadorizados. Sarah-Jayne Blakemore disse que o córtex pré-frontal do cérebro, envolvido nas tomadas de decisão, autocontrolo, modulação de emoções e autoconhecimento, passa por uma substancial reorganização no início da adolescência. Ela pretende descobrir quando exatamente neste período o mindfulness é mais eficaz.
“O cérebro é permeável a ambientes negativos e de stress e essa poderá ser uma razão porque assistimos a um aumento no desenvolvimento de doenças mentais no início da adolescência”, disse a cientista. “Mas o cérebro também é suscetível a intervenções que aumentem a resiliência, o que esperamos inclua o mindfulness.”
Paula Kearney tem ensinado mindfulness a alunos na UCL Academy e afirma que, apesar da relutância inicial por parte de alguns em participar, o autoconhecimento dos alunos aumentou.
“Ao fazê-lo tornaram-se mais compassivos e compreensivos e desenvolvem melhores relações de amizade”, disse.
Haroon Hussein, de 13 anos, é um dos alunos de Paula Kearney. “Há más influências em muitas partes da cidade e muitos miúdos da minha idade juntam-se a gangs, fumam e podemos ficar curiosos em descobrir o que está na moda”, disse. “Mas, parar um momento, recuar, fazer um exercício de atenção plena e ver as possíveis consequências, em vez de nos mandarmos de cabeça, pode ajudar. Deixamos de ser impulsivos.”
A sua colega, Patricia Markauskaite, de 12 anos, disse: “se eu tiver montes de trabalhos de casa e me sentir um pouco stressada sobre como dar conta de tudo, o que faço é tirar um momento de mindfulness depois de acabar o primeiro trabalho e antes de começar o seguinte. Muita gente na escola acha que é uma parvoíce. Eles pensam: ‘é uma meditação, é tão chato, não faz sentido’. Para mim não é desconfortável. Já fiz e gostei. Acho que se eles experimentassem fazer um curso de mindfulness iam gostar.”
“Cada autocarro é um pensamento”
As técnicas de meditação mindfulness datam de há 2400 anos na tradição budista, tendo sido revistas nos anos 1970’s para dar resposta a uma nova audiência secular. E agora voltaram a ser adaptadas para crianças em idade escolar. Uma das meditações adaptadas com o objetivo de encorajar as pessoas na percepção-base de que pensamentos não são factos, é chamada de “autocarro de pensamentos”.
“Você imagina estar numa paragem de autocarros”, explica Paula Kearney. “Às carreiras dá-lhes os nomes dos seus pensamentos, de forma a que cada autocarro seja um pensamento. Cabe-lhe a si escolher apanhar o autocarro e ser transportado com o seu pensamento ou deixá-lo passar.”
“Nós não encorajamos os estudantes a pararem de pensar, a banirem pensamentos ou a verem-se livre deles”, disse. “O que fazemos é dar-lhes uma ferramenta para que eles possam exercer algum controlo sobre o que são os seus pensamentos e até que ponto estes podem ser um factor de distração no seu dia a dia.”
Tradução de Raul C. Gonçalves
http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2015/jul/15/mindfulness-study-meditation-7000-teenagers-impact

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