Quatro razões para praticar mindfulness durante a gravidez

Um novo estudo indica que a prática de mindfulness pode proteger a saúde e o bem-estar de mães e recém-nascidos
Por Kira M. Newman
in Greater Good  ver artigo original
As mulheres não passam as suas 40 semanas de gravidez num estado constante de radiante luminosidade; existem também preocupações noturnas, listas infindáveis de compras a fazer, pés inchados… Cerca de 18% das mulheres ficam deprimidas durante a gravidez e 21% com problemas de ansiedade.
A investigação científica começa agora a apontar para o mindfulness como uma ajuda para este problema. A sua prática de cultivar a atenção a cada momento sobre pensamentos e ambiente físico envolvente não apenas ajuda a mulher gestante a manter níveis de stress baixos e estados de espírito elevados – benefícios que se encontram bem documentados no que respeita a outros grupos da população – pode igualmente conduzir a recém-nascidos mais saudáveis e, consequentemente, com menores problemas de desenvolvimento.
Embora a investigação ainda esteja no seu limiar, os seus responsáveis estão esperançosos que esta prática de baixo custo, facilmente acessível e de efeitos positivos possa vir a mostrar o seu carácter inovador. Eis quatro benefícios que se aplicam à mulher gestante:
  1. Mindfulness reduz stress
Jen, uma empresária minha amiga que recentemente teve o seu primeiro filho, foi colocada em regime de descanso absoluto, de cama, ficando até mesmo impedida de fazer exercício para reduzir os seus níveis de stress. “Sentia-me tão ansiosa. A meditação ajudou-me realmente a manter-me calma e mentalmente sã”, disse.
Jen não é a única. Num pequeno estudo-piloto de 2008, 31 mulheres na segunda metade da sua gestação participaram num programa de oito semanas de mindfulness, chamado ‘Maternidade Mindful’, programa esse que incluía meditação da respiração, rastreio do corpo e hatha yoga. Com duas horas de aulas por semana, as participantes aprendiam ainda a como cultivar a atenção e a consciência, principalmente em relação a vários aspectos da sua gravidez: sensações no ventre, dores e desconfortos e ansiedade em relação ao parto.
Em comparação com outras mulheres que aguardavam a sua entrada no programa, as participantes experimentaram uma redução dos níveis de ansiedade reportados, bem como de sensações desagradáveis como angústia, hostilidade e vergonha. Embora todas estas mulheres já tivessem tido, no passado, contacto com a psicoterapia ou serviços de aconselhamento em relação a questões de alteração de humor, o programa pareceu ajudá-las a evitar dificuldades semelhantes numa fase de profunda transformação das suas vidas.
Em 2012, um outro estudo, também com base num programa de mindfulness de oito semanas, encontrou resultados semelhantes na diminuição da depressão, stress e ansiedade, embora nele estivessem apenas envolvidas 19 gestantes. Durante as entrevistas, as participantes falaram de como aprenderam a não se debaterem, concentrando-se na respiração e, a partir daí, a tomarem decisões conscientes em vez de agirem pelo impulso da ira ou da frustração.
“Aprendi a recuar, a respirar e a pensar naquilo que vou dizer antes de abrir a boca”, disse uma das participantes.
Embora estes efeitos anti-stress e de melhoramento do estado de espírito espelhem os resultados encontrados em programas de mindfulness dirigidos à generalidade da população, pode o mindfulness ajudar em relação às ansiedades e medos específicos à gravidez? Muitas grávidas têm uma série de preocupações, as quais são facilmente despoletadas: “o meu filho vai ser saudável?”, “tenho receio do parto”, “alguma coisa parece não estar bem; devo ir ao médico?”
Em 2014, um estudo deteve-se, especificamente, nestas sensações, chamadas de ansiedade na gravidez. Quarenta e sete grávidas nos seus primeiro ou segundo trimestre, que acusavam níveis particularmente elevados de stress ou de ansiedade de gravidez, fizeram um curso de mindfulness no Mindful Awareness Research Center da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Durante seis semanas, estas mulheres aprenderam a lidar com a dor, emoções negativas e situações socialmente difíceis. Em comparação com um grupo de controlo, ao qual foi dado a leitura de um livro sobre gravidez, as participantes no curso mostraram uma diminuição mais acentuada dos níveis de ansiedade na gravidez reportados durante toda a experiência.
Talvez o mindfulness lhes tenha dado as ferramentas necessárias para atravessarem emoções complexas, emoções essas inalteráveis mesmo perante a leitura dos livros mais tranquilizadores.
“É muito inspirador testemunhar uma mãe extremamente assustada com o ato do parto, desmarcar uma cesariana porque se sente agora suficientemente confiante na sua força para enfrentar o processo de dar à luz”, referiu uma das professoras de mindfulness. “Enche-nos de orgulho ouvir um casal, cujo primeiro filho morreu durante o parto, serem capazes de permanecer presentes durante o nascimento do seu segundo filho, observando os seus medos sem se deixarem enredar por eles.”
  1. Mindfulness estimula sentimentos positivos
Nem tudo que é mindfulness envolve meditação; também nos podemos tornar mais mindful ao notarmos como os estados de espírito e as sensações físicas oscilam ao longo do dia. Este tipo de atenção plena pode contrariar a nossa tendência para a distração, quando assumimos que as coisas vão ser aquilo que as nossas expectativas esperam que elas sejam – da mesma forma que foram no passado – e não notamos novas experiências. Uma grávida, por exemplo, pode supor que a gravidez vem acompanhada de exaustão e dor, prestando, por isso, menos atenção aos momentos tranquilos e felizes.
Num estudo deste ano, um pequeno grupo de mulheres israelitas no seu segundo e terceiro trimestre de gravidez recebeu um treino de meia-hora deste tipo de mindfulness. De seguida, durante duas semanas, escreveram, duas vezes por dia, notas sobre como se sentiram física e mentalmente, como forma de as ajudar a compreender até que ponto se haviam processado mudanças.
Em comparação com grupos de mulheres que apenas tinham lido (ou não) sobre experiências positivas e negativas de outras mulheres durante a gravidez -, as participantes do grupo mindfulness reportaram um maior aumento de sentimentos positivos e de bem-estar, tais como entusiasmo e determinação durante a duração do exercício; e, ainda, quanto mais mindful estavam depois da experiência (o que foi medido pela análise de questionários), mais alto era o sentimento de bem-estar, satisfação com a vida, auto-estima e sensação geral positiva um mês após o parto – uma altura em que a mulher precisa de todos os recursos disponíveis.
A enfermeira-parteira Nancy Bardacke desenvolveu o programa “Nascimento e Parentalidade Baseada em Mindfulness (MBCP, sigla em inglês)”, a partir da sua experiência como professora de “Redução de Stress Baseada em Mindfulness (MBSR, sigla em inglês), um programa largamente testado desenvolvido por Jon Kabat-Zinn. O MBCP foi buscar princípios ao MBSR aplicando-os à gravidez, ensinando práticas de mindfulness acompanhadas de orientações sobre trabalho de parto e amamentação. O programa inclui três horas semanais de aulas, durante nove semanas, e ainda um retiro de silêncio de um dia.
Num pequeno teste-piloto de 2010, 27 mulheres no seu terceiro trimestre de gravidez participaram, juntamente com os seus companheiros, num programa de MBCP. Além de destacarem uma melhoria em relação aos níveis de ansiedade e stress da gravidez, as participantes reportaram ainda sentirem sentimentos positivos mais fortes e frequentes – tais como: alegria, gratidão e esperança – após o programa.
“Estou absolutamente ciente de tentar estar presente a cada momento e que cada momento, bom ou mau, vai passar”, referiu uma das participantes. “Quando fico mesmo muito preocupada com o parto, simplesmente respiro fundo para acalmar a minha mente de ‘partir’ para todo o tipo de más situações.”
  1. Mindfulness pode ajudar a prevenir o parto prematuro
Entre as preocupações da mulher grávida, a possibilidade de um parto prematuro destaca-se largamente. Os “prematuros” (bebés nascidos com menos de 37 semanas) correm o risco de problemas respiratórios, auditivos, de visão e de atraso de desenvolvimento. As mães de prematuros apresentam altas taxas de ansiedade, depressão e stress, as quais passam muitas vezes despercebidas perante as necessidades colocadas pelos bebés.
Também, aqui, o mindfulness pode ter um papel a desempenhar. Num estudo de 2005 envolvendo 335 mulheres grávidas em Bangalore, na Índia, metade do grupo foi submetido à prática de yoga e meditação, enquanto a outra metade fazia caminhadas de uma hora por dia; as atividades tiveram início no segundo trimestre da gravidez e prolongaram-se até ao parto. O grupo de yoga, que recebeu aulas durante uma semana, continuando depois a praticar em casa, teve poucos casos de partos prematuros e poucos bebés com baixo peso.
Um outro indicador sobre a saúde em recém-nascidos é o Índice de Apgar, uma avaliação feita minutos após o nascimento, o qual tem em consideração cinco sinais objetivos: frequência cardíaca, respiração, tónus muscular, irritabilidade reflexa e cor da pele. No estudo israelita de 2016 referido anteriormente, foi encontrada uma relação entre as mulheres que apresentavam níveis de mindfulness após a experiência e os valores Apgar obtidos pelos recém-nascidos, mesmo após ter em conta a variável ‘condição socioeconómica’.
Um estudo de 2011 descobriu que um programa mindfulness reduzia o número de partos prematuros; já quanto ao peso à nascença e aos valores do Índice Apgar não foram encontrados qualquer relação. Neste estudo, realizado no norte da Tailândia, 199 mulheres, todas elas no segundo trimestre de gravidez, foram divididas em dois grupos: um, recebeu cuidados pré-natais padrão; o outro, participou num programa de mindfulness. Duas horas por semana, durante cinco semanas, o grupo mindfulness não só aprendeu diversas formas de meditação, como a cultivar a atenção e a aceitação em relação a pensamentos e emoções. Durante e depois do curso foram encorajadas a meditar durante uma hora por dia, ao longo de várias sessões. No final do programa, apenas 6% das mulheres do grupo de meditação tiveram partos prematuros, em comparação com 16% do grupo ‘cuidados padrão’.
Pode o mindfulness ajudar a reduzir o número de partos prematuros nas mulheres que estão mais em risco, entre elas as mais velhas e as que têm mais baixo rendimentos? Esta é uma questão que deve ser dirigida à futura investigação.
  1. Mindfulness pode promover um desenvolvimento mais saudável
Uma nova vaga de estudos olha agora para o impacto da maternidade mindfulness na infância, através do acompanhamento do desenvolvimento dos recém-nascidos.
Num estudo holandês de 2015, bebés nascidos de mães com altos níveis de mindfulness medidos no início do segundo trimestre da gravidez, apresentaram menos problemas de desenvolvimento. Aos dez meses, conforme reportado pelas mães, os bebés apresentavam menos dificuldades de adaptação e ajustamento a novos ambientes (autorregulação) ou para controlarem a sua atenção e comportamento (esforço de controlo); por exemplo: estes bebés são mais capazes de se acalmarem mais rapidamente após o choro ou a não tocarem em coisas em que não é suposto mexerem. No caso dos bebés de sexo masculino, as diferenças apresentadas ao nível da autorregulação foram ligadas ao facto das suas ‘mães-mindful’ serem menos ansiosas.
Um outro estudo de 2015 analisou um outro indicador de desenvolvimento saudável: a atenção do bebé ao som, factor fundamental na aprendizagem da linguagem. Neste caso, a partir de uma amostragem de 78 mulheres no segundo trimestre de gravidez, os investigadores começaram por calcular, a partir de um inquérito, os seus níveis de mindfulness. Quando os bebés atingiam os dez meses de idade, eram levados ao laboratório onde lhes era dado a ouvir algumas gravações áudio: uma mistura de sons repetitivos intercalados por novos sons. Baseados na atividade cerebral, os cientistas descobriram que os bebés filhos de mães mais mindful prestavam menos atenção aos sons repetitivos (menos relevantes), indicando assim um bom uso dos recursos da atenção.
É certo que existem múltiplos fatores para medir o desenvolvimento saudável e que este estudo apenas selecionou alguns deles, mas só o simples facto de ligações terem sido encontradas abrem uma possibilidade extremamente interessante: de que os benefícios do mindfulness não começam e terminam na mãe, ou no parto, mas antes se estendem à infância e, talvez, até para além dela.
Neste momento, no entanto, os investigadores ainda só falam em termos de possibilidades e de evidências preliminares. Na verdade, um artigo de maio deste ano publicado na PLOSone que analisava 17 estudos não encontrou evidências que os programas mindfulness tivessem impacto positivo ao nível da depressão, ansiedade e stress nas mulheres grávidas em comparação com os grupos de controlo (embora os indicadores ‘antes e depois’ parecessem bons).
E isto porquê? De uma forma geral, os níveis de mindfulness nas mulheres não aumentavam; os programas não estavam, efetivamente, a resultar. Tal pode ter resultado do facto dessas mulheres não terem praticado meditação em casa tanto quanto lhes tinha sido recomendado, ou porque os programas de mindfulness presentes nas experiências não fossem tão compreensíveis e substantivos quanto deviam.
Acresce, ainda, que os benefícios nem sempre se prolongam no tempo. No estudo ‘Maternidade Mindful’, mencionado anteriormente, as diferenças ao nível da ansiedade e das emoções negativas não eram significativas no acompanhamento a três meses, entre as mães envolvidas no programa e o grupo de controlo; o mesmo se verificou em relação às mulheres do estudo de 2014 que tiveram aulas no Mindful Awareness Research Center: após seis semanas não apresentavam grandes melhorias ao nível da ansiedade em relação ao grupo de leitura do livro sobre gravidez.
A conclusão é que o mindfulness é uma prática e, como tal, há que praticar, uma e outra vez, um dia a seguir ao outro. É como ser mãe e pai: é algo que se trabalha todos os dias, mesmo nos dias maus quando nada parece dar certo. Há muito tédio envolvendo estas duas coisas: mudar fraldas e contar respirações; mas tudo o que é preciso é um mero momento de puro amor e paz para nos fazer lembrar porque é que, antes de mais nada, queremos fazer isto.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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