Pode a meditação ajudar a retardar o processo de envelhecimento?

Pode parece improvável, mas cada vez mais pequenas evidências sugerem que a prática regular de meditação pode de facto retardar o envelhecimento, pelo menos a nível celular.
Por James Kingsland | Alessandro Gottardo (ilustração)
in The Guardian | 3 de março de 2016  Ver artigo no original
As pessoas que meditam envelhecem mais devagar? Parece improvável. Como é que o estar sentado, imóvel, de olhos fechados, a focar na respiração pode manter afastado o ceifador de Grim Reaper? Dito isto, o Buda – seguramente o arquétipo do meditador – tem a fama de ter vivido até aos 80 anos, o que deve ter sido um caso excepcional de longevidade na Índia do século V A.C. E, mais, de acordo com as escrituras budistas, mesmo depois dos 80 anos não foi a velhice que pôs fim a sua existência, foi uma intoxicação alimentar.
Dois milénios e meio depois existe um pequeno, porém em crescimento, número de evidências de que a meditação pode, de facto, retardar o envelhecimento – pelo menos a nível celular. Um indicador bastante utilizado para avaliar o envelhecimento celular é dado pelo comprimento dos telómeros, o DNA e a capa de proteína que protege o final de cada cromossoma durante a divisão celular. Cada vez que o cromossoma se replica os telómeros encurtam um pouco até atingir um ponto em que a célula já não se consegue dividir, tornando-se senescente ou em vias de apoptose – o equivalente ao suicídio a nível celular. Ter células com telómeros mais curtos está associado ao início de muitas doenças relacionadas com o envelhecimento, tais como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e demência. Vários factores ligados ao estilo de vida foram identificados como aceleradores do encurtar dos telómeros, entre eles uma má dieta alimentar, a falta de sono, o fumar, o consumo de bebidas alcoólicas e um estilo de vida sedentário.
O stress crónico constitui igualmente um factor conhecido de redução dos telómeros. Um estudo publicado no mês passado descobriu que os praticantes com muitos anos de meditação respondiam com menos stress e menor exaltação a factores de tensão psicológica e química em laboratório em comparação com o grupo de controlo.
Ao contrariar os efeitos do stress, pode a meditação também, indiretamente, retardar o envelhecimento celular? Um estudo mais antigo encontrou um aumento do comprimento dos telómeros nas células imunitárias de pessoas após estas terem participado num retiro de meditação intensiva. Um outro caso revelou um aumento da atividade de uma enzima chamada telomérase, a qual reconstrói os telómeros, após um retiro semelhante.
Agora, um estudo levado a cabo por cientistas espanhóis sugere que praticantes muito experientes de meditação Zen têm, em média, telómeros mais longos em comparação com outras pessoas de idade e estilos de vida semelhantes. A investigação aponta igualmente para os factores psicológicos que apoiam este efeito benéfico, onde os praticantes de meditação apresentam uma visão mais bondosa e condescendente da vida.
Os cientistas da Universidade de Saragoça compararam 20 praticantes de meditação Zen, com uma prática de uma hora ou mais por dia durante os últimos dez anos, com 20 pessoas que nunca meditaram com idades, sexo e estilos de vida semelhantes, tais como dieta alimentar, fumar, ingestão de bebidas alcoólicas e exercício físico. Todos foram sujeitos a uma bateria de testes psicológicos e amostras de sangue foram recolhidas para que o tamanho dos telómeros presentes nas células imunitárias pudesse ser medido.
Quando os cientistas compararam os dados verificaram que os telómeros dos praticantes de meditação eram significativamente maiores – 10%, em média -, do que os do grupo de controlo. No seguimento, usaram uma técnica estatística chamada análise de regressão no sentido de entenderem que factores poderiam ser diretamente responsáveis por este aparente retardamento do envelhecimento celular. Várias características psicológicas foram associadas a essa presença de telómeros mais longos, entre elas maior capacidade de mindfulness, satisfação com a vida e felicidade subjectiva. Porém, a análise estatística apontou que os factores relacionados com menor idade, baixa “evasão experiencial” e elevada autocompaixão eram diretamente responsáveis por telómeros maiores.
Evasão experiencial é a tendência natural para suprimir memórias, pensamentos, sensações e emoções desagradáveis num esforço para obter um alívio temporário de um desconforto psicológico. Porém, esta fuga da mente acaba por nos trazer maiores problemas a longo prazo. Ao contrário, o mindfulness – tanto no seu contexto original budista como nos programas terapêuticos modernos para o tratamento de quadros de dor crónica, depressão e toxicodependência – envolve virar a atenção para as experiências desagradáveis, sejam elas físicas ou mentais, num espírito de aceitação sem julgamentos. É, portanto, particularmente interessante que o estudo espanhol refira que a evasão experiencial conduz, aparentemente, a um encurtamento mais rápido dos telómeros. 
Devemos, então, juntar a meditação à lista de alterações de estilo de vida, juntamente com o deixar de fumar, fazer mais exercício físico e beber menos bebidas alcoólicas, no sentido de se obter uma vida mais longa e mais saudável? É preciso ter em atenção que este estudo apenas mediu o envelhecimento celular. Tratou-se, ainda, de uma investigação muito limitada, com um total de apenas 40 participantes, facto que limita as conclusões que se possam tirar de forma segura. Além disso, os praticantes de meditação eram ainda excepcionalmente experientes, com pelo menos dez anos de prática. Idealmente, um futuro estudo deveria selecionar aleatoriamente um número muito maior de pessoas que nunca tenham meditado para além de uma participação num programa de meditação ou atividade equivalente, como treinos de relaxamento, e então comparar os efeitos no comprimento do telómero ao longo de um período muito mais curto – talvez durante apenas alguns meses.

Existe, no entanto, motivos para otimismo, uma vez que até mesmo principiantes podem começar a proteger os seus telómeros do desgaste do tempo e da divisão celular. Um estudo publicado em 2013 descobriu que apenas 15 minutos de meditação em principiantes tinha um efeito imediato na manifestação de muitos genes, aumentando, por exemplo, a atividade do gene responsável pela telomerase e reduzindo a atividade dos genes envolvidos nas respostas exaltadas e stressantes. É impressionante o que o sentar quieto, de olhos fechados e focado na respiração pode fazer em favor das nossas células.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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