A meditação na prevenção do efeito idade no declínio cognitivo

Uma série de estudos recentes sugerem que a prática regular da meditação poderá aumentar a flexibilidade mental e o poder de foco, oferecendo uma protecção poderosa na prevenção do declínio cognitivo.

Por Grace Bullock/Mindful.org
in Mindmatters magazine Nº 4

A maioria das pessoas começa a perder chaves, a esquecer nomes e a ser menos rápida a resolver problemas de matemática à medida que se vai aproximando da meia idade. A isto costuma-se dar o nome de declínio cognitivo relacionado com a idade. Até há alguns anos, a ciência acreditava que este declínio era inevitável. Porém, trabalhos notáveis aparecidos nas duas últimas décadas mostram que o cérebro adulto vai-se alterando com as experiências e o treino acumulado durante o seu tempo de vida – um fenómeno conhecido como neuroplasticidade.

Mas a neuroplasticidade não é algo que nos seja dado. A investigação epidemiológica descobriu que a forma como um cérebro envelhece depende de um número de factores, onde estão incluídos a dieta alimentar, o exercício físico, o estilo de vida e a educação. Quanto mais saudável e activo for o nosso estilo de vida maiores as probabilidades de se manter uma boa performance cognitiva ao longo do tempo. E a meditação poderá ser um elemento-chave para assegurar a saúde do cérebro e manter um bom desempenho mental. Veja o que sugere a investigação mais recente sobre como a prática da meditação mindfulness pode ajudar um cérebro a manter-se saudável e funcional ao longo dos anos.

Como a meditação estimula a neuroplasticidade

Para manter a acuidade mental é importante conservar em bom funcionamento aquilo que os investigadores da área chamam de reserva neural. Esta “reserva” refere-se à eficácia, capacidade e flexibilidade mental do cérebro. Indícios crescentes sugerem que o treino mental consistente produzido pela meditação mindfulness pode ajudar a manter intacta essa “reserva”. Um dos estudos, por exemplo, relacionava a prática regular da meditação a melhorias no desempenho do cérebro, tais como aumento da atenção, da consciência, da memória de trabalho e maior eficiência mental.

Os estudos têm vindo a mostrar que a prática diária da meditação tem repercussões tanto ao nível dos “estados” como das “redes” neurais. O treino dos estados do cérebro envolve a activação de um grande número de redes com o cérebro capaz de afectar um vasto conjunto de processos emocionais e mentais. Um exemplo bastante inteligente disto mesmo pode ser encontrado num estudo recente publicado por um grupo de investigadores da UCLA, que reportaram que os meditadores experientes têm uma maior concentração de tecido em regiões do cérebro mais empobrecido pelo processo de envelhecimento, sugerindo que a prática da meditação pode ajudar a minimizar o envelhecimento do cérebro e proteger contra o declínio relacionado com a idade.

Por outro lado, o treino das redes neurais está mais focado naquilo que se relaciona com o incremento de habilidades cognitivas específicas pela activação repetida de uma rede associada a uma determinada função (como prestar atenção). O equivalente mental a repetidas séries de flexões. Acredita-se que ambos os treinos (estados e redes) constituem importantes ingredientes para manter a lucidez do cérebro.

Manter a agilidade cerebral

A meditação pode fornecer ainda um outro benefício: aumento da flexibilidade mental. Por vezes, a idade vem acompanhada de uma rigidez de pensamentos, de sentimentos e de opiniões, e de uma incapacidade para fluir acompanhando os desafios e os obstáculos que fazem parte do curso da vida. Isto pode constituir uma fonte de stress e, potencialmente, de doença. Uma vez que a maioria das práticas meditativas realçam o desenvolvimento de uma atenção consciente aos pensamentos, às emoções e às sensações físicas sem a criação de uma narrativa ou julgamento sobre essa mesma experiência, a meditação mindfulness pode ajudar a diminuir a ligação a ideias preconcebidas, aumentando a flexibilidade mental e contribuindo para a própria reserva neural.

Embora encorajadora, é importante ter em conta que esta área de pesquisa encontra-se ainda muito no início, sendo os seus resultados variáveis. Um número de estudos, por exemplo, reportaram que meditadores mais velhos apresentaram desempenhos superiores à de não meditadores da mesma faixa etária, ou comparável à de participantes mais jovens em relação a um número de tarefas relacionadas com a atenção; outros estudos mostraram ligeiras ou mesmo nenhumas alterações no funcionamento cognitivo a seguir a uma intervenção mindfulness para adultos mais velhos ou reportaram que as melhorias não eram mantidas ao longo do tempo.

Aquilo que sabemos hoje é que o compromisso continuado com a meditação mindfulness pode fazer aumentar o desempenho cognitivo em adultos mais velhos, e que através de uma prática sustentada esses benefícios podem ser mantidos. O que constitui uma óptima notícia para os milhões de adultos mais velhos que trabalham para combater os efeitos negativos do envelhecimento no cérebro.


*B Grace Bullock, PhD, psicóloga e investigadora

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