Mindfulness para aliviar a dor lombar

Dez milhões de dias de trabalho por ano são perdidos no Reino Unido devido à dor lombar. Poderá o programa de Redução de Stress Baseado em Mindfulness (MBSR) ter um papel na diminuição deste número?
Por Luisa Dillner*
in The Guardian | 9 de maio de 2016  ver artigo original
Nos meus primeiros anos de médica assistente uma das coisas que mais frustração me causava eram as consultas de lombalgia. Temos apenas alguns minutos disponíveis com cada paciente para ouvir relatos sobre meses de dor debilitante. Em termos de alívio, pouco havia então a oferecer. Passados anos, esta situação apenas piorou. Um relatório da autoria da Universidade de Washington, em Seatle, Estados Unidos, descobriu que, embora as pessoas vivam atualmente mais tempo, sentem-se, no entanto, menos saudáveis devido às dores lombares. O que é que pode, portanto, aliviar essas dores e, consequentemente, reduzir os dez milhões de dias de trabalho perdidos no Reino Unido?
Dependendo da causa da dor, o exercício físico, a manipulação da coluna e a tomada de analgésicos, como a codeína (um opiáceo mais fraco) e o paracetamol, são frequentemente prescritos. Tomar opioides durante anos pode causar dependência, além de ser, invariavelmente, um causador de obstipação. Recomendações atualizadas do NICE – National Institute for Health and Care Excellence, indicam igualmente a terapia cognitivo-comportamental (CBT, sigla em inglês) – como forma de alterar a nossa percepção e comportamento perante a dor, algo que não é fácil atingir.
Agora, a redução de stress baseada em mindfulness (MBSR, sigla em inglês) é mais um tratamento disponível, no seguimento do primeiro teste comparado deste programa com os tratamentos convencionais e a terapia cognitivo-comportamental. Num estudo abrangendo 342 adultos, com idades compreendidas entre os 20 e os 70 anos, sofrendo de lombalgia há 7,3 anos, em média, divididos aleatoriamente por cada tipo de tratamento, o grupo que recebeu aulas de mindfulness afirmou ser-lhes agora mais fácil levantarem-se de uma cadeira ou subir escadas, e sentiam menos dores do que os que receberam tratamento convencional. No grupo MBSR, 61% achavam-se mais capazes de se movimentar sem sentir dor do que os 44% que continuaram com o seu tratamento habitual. A CBT mostrou-se tão eficaz quanto a MBSR na redução da dor. Os efeitos duraram, no mínimo, um ano.
Afinal, o que é MBSR?… e valerá a pena ser tentado por aqueles que sofrem de dor lombar crónica?
A solução
O MBSR reduz o stress e o impacto negativo da lombalgia sobre o bem-estar das pessoas, ao mudar a forma como a mente processa a dor. O programa conduzido neste estudo caracterizou-se por sessões em grupo de duas horas, uma vez por semana, durante oito semanas, onde foi ensinado meditação, yoga e consciência corporal. Num primeiro exercício, com as pessoas deitadas em tapetes de yoga durante 10 a 20 minutos, os praticantes focavam-se, à vez, nas várias partes do corpo, tomando consciência e “aceitando qualquer sensação” presente. Experimente. O MBSR não tem qualquer efeito secundário e parece resultar.
Dan Cherkin, da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, e coordenador da investigação, acredita que o treino da mente pode ter efeitos mais duradouros do que a manipulação da coluna. O estudo sugere mesmo que o MBSR pode levar a alterações físicas em regiões do cérebro responsáveis pelo regulamento das emoções, memória e consciência autorreferencial. Cherkin admite que os resultados através do programa MBSR podem ser tão difíceis de alcançar quanto no CBT, mas acrescenta que existem vários cursos online e material de ajuda, como a obra clássica do fundador do programa MBSR, Dr. Jon Kabat-Zinn, Full Catastrophe Living. É lógico que isto não significa que a dor lombar resida na mente. Note-se, ainda, que o MBSR está também a ser avaliado nos casos de cancro do peito, no sentido de verificar se, para além de reduzir o stress, pode também ser efetivo no aumento da taxa de sobrevivência.
* Luisa Dillner é médica e diretora editorial do British Medical Journal Publishing Group. Escreve regularmente para o Guardian, Observer, Cosmopolitan, Vogue e Elle.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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