Meditação, vida e um bom sentar

Passei o inverno de 2012 em silêncio num retiro em Forest Refuge, um centro de meditação budista em plena Massachussetts rural. Este é o segundo artigo deste ‘blog’ quinzenal, que relata o dia a dia em silêncio e o quanto os longos retiros oferecem de linha orientadora às nossas vidas.
Por Steven Schwartzberg*
in The Huffington Post | 15 de outubro de 2015
Hoje tive o meu primeiro bom sentar… Tomada 1.
Estou há nove dias mergulhado em silêncio e esta manhã, pela primeira vez desde a minha chegada, tive uma longa meditação sentada a qual a descreveria como “maravilhosa”.
Estou só no meu pequeno quarto, empoleirado no meu colchão de meditação, imóvel, de olhos fechados, focado e relaxado. Vou notando pensamentos, emoções e o ir e vir de sensações, sem procurar a narrativa por trás deles. Esta manhã, uma onda de profunda paz invadiu-me. Durou muito tempo e deixou uma intensa recordação de calma. No meu coração, mente e corpo esta calma registou-se como verdade.
Esta paz em nada se parece com um vulgar estado emocional, mas antes como se algo transcendental ou sagrado tivesse sido desencadeado. A convicção surgiu de que a paz é na verdade a minha verdadeira natureza, a nossa verdadeira natureza, e esta consciência impregna o meu interior como um delicado perfume.
Shanti. Shanti. Paz. Paz. Invoco estas palavras, ou elas simplesmente surgem como um mantra espontâneo: devagar, sincopado, cheio de significado. Cada repetição é como um redescobrir de um antigo segredo humano que eu já conheço, que sempre conheci. Isto é tão fácil! Esqueçam a farsa teatral da personalidade, o círculo dos três anéis da mente pequena. Agora, eu consigo ver através disso tudo.
Hoje tive o meu primeiro bom sentar… Tomada 2.
Credo, estamos perante uma receita para o desastre.
Numa prática que ambiciona a equanimidade – ir para além dos hábitos fortemente condicionantes da procura do agradável e do evitar do desagradável -, o que poderá significar ter um “bom sentar”?
Há um princípio fundamental no budismo cuja simplicidade aparente esconde algo primordial: a felicidade duradoura não advém do facto de nos orientarmos para aquilo que desejamos, nem tão pouco pelo evitar do que não desejamos. Pelo contrário, esse caminho tão automático e aparentemente natural, mantem-nos paradoxalmente cativos em laços de sofrimento. Orientar as nossas vidas no sentido de maximizar o prazer e evitar o desprazer mantem-nos involuntariamente prisioneiros, com o “desejo” a assumir o papel de carcereiro em roupagem comum.
O mindfulness, a ferramenta mais omnipresente do budismo, é uma prática de encontro com todas as coisas da vida – boas, más, felizes, tristes, fáceis, difíceis -, com toda a equanimidade possível. Não é sobre privilegiar o que é agradável – isso é algo que já sabemos fazer.
Portanto, “um bom sentar”, o que é que isso significa? Significa, é claro, de que gostei; adorei; senti-me muito bem; finalmente, isto é meditação! Uma calma transcendente, uma paz que desafia a compreensão. Não foi bestial? Sorte minha!
No entanto, por melhor que me sinta, tenho que ter presente que, em última instância, não é essa a razão porque pratico.
O que é que faz um “bom sentar”? O que está envolto numa calma beatífica ou o outro onde eu permaneço de coração aberto e mindful, mesmo quando atormentado pelo desconforto físico, por emoções difíceis ou por circunstâncias não desejadas. Qual dos dois constitui um melhor treino para a vida fora do zabuton?
Ficar “agarrado” à prática de mindfulness constitui uma armadilha comum – algo que até pode parecer irónico, principalmente para aqueles que lhe devotámos longas horas. Tal acontece porque após se ganhar alguma domínio sobre o tédio e as dificuldades iniciais, a meditação pode saber-nos maravilhosamente bem, pode chegar até a ser extasiante. A meditação conduz à paz. A meditação conduz ao êxtase. A meditação deixa-nos “em alta”.
E é aqui que pode estar o problema. Quando aprendemos a tocar piano há algumas técnicas fundamentais que são necessárias desenvolver: escalas, arpejos, dedilhado, riffs. Estas práticas vão conduzir a uma música mais elaborada. Podem, certamente, ser música por direito próprio, mas se se ficar por aí… então o que vai acontecer à sonata, à improvisão jazzística, à melodia cativante?
O mesmo se passa com a meditação ou com qualquer outra prática espiritual. A prática formal pode ser um fim em si, maravilhosa e musical. Mas quando a limitamos ao estar sentado de pernas cruzadas em cima de uma almofada, manter uma postura certa de ioga ou cantar perfeitamente uma nota, estamos a perder o essencial. A prática formal é a escala e o arpejo; a vida, anárquica e imprevisível, gloriosa e cativante, é a sonata.
Assim, fico com este dilema sobre “sentar”, a primeira vez desde há muito tempo, envolto numa perfeita paz. Há mostras evidentes que a minha mente se está a aquietar. No entanto, a tentação de olhar para isso como algo de especial seria um erro. Calma profunda, êxtase, felicidade suprema, podem ser apenas um engodo, facilmente confundidos como objetivo final. Cada um não passa de um apeadeiro, não são a estação terminal. Qualquer convicção de ter chegado ao destino é desmentido por um conhecimento mais profundo de que todas as chegadas pressentidas são falsas; esta é uma jornada que inexoravelmente prossegue.
Mas, uau!… aquela paz soube tão bem.
*Psicólogo clínico, estudante de Darma e nómada intencional
Tradução de Raul C. Gonçalves
http://www.huffingtonpost.com/steven-schwartzberg/meditation-life_b_8297370.html

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