6 ideias erradas sobre meditação

Por Dusana Dorjee | The Conversation (Artigo original)

A meditação tem vindo a ser acolhida como um meio de melhorar a saúde mental, minorar a dor crónica, reduzir o stress e construir um novo olhar de apreciação do mundo. Mas, apesar de todo este interesse, várias ideias erradas sobre o que esta prática milenar pode fazer pela saúde e bem-estar das pessoas continuam a pairar:

1. Só há um tipo de meditação
   Apenas algumas formas de meditação envolvem estar sentado, de pernas cruzadas, e imóvel. O Qi Gong e o Tai Chi, por exemplo, são duas práticas que se concentram no movimento meditativo. Ambas combinam um estado mental relaxado, mas desperto, com movimentos lentos e respiração controlada. Outras, como a meditação budista tibetana, envolvem visualizações e mantras. Há também a “meditação reflexiva”, onde o praticante reflecte sobre temas como a impermanência.

   Muitos formas de meditação mindfulness encorajam a prática meditativa durante as mais diversas actividades quotidianas: por exemplo, lavar a louça, prestando atenção às sensações da água a passar pelas mãos; ou o comer mindful, onde se expressa gratidão pelos alimentos e boa-aventurança aos menos afortunados.

2. Tudo se resume a estar imóvel e em silêncio
   A atenção estável não-reactiva é desenvolvida em todos os tipos de meditação, mas está particularmente presente nas práticas de mindfulness. Outros tipos de prática cultivam qualidades como a compaixão, a generosidade e o perdão. Uma outra forma – por vezes chamada de meditação desconstrutiva – desenvolve especificamente uma visão contemplativa sobre o funcionamento e a natureza da mente.

   O treino da meditação progride normalmente através de práticas capazes de estabilizar a atenção com o objectivo de cultivar diversas qualidades, como a compaixão, e depois o insight. Em cada um destes estágios, o meditador reflecte sobre as suas motivações e intenções, o que conduzirá a resultados da prática. Enquanto uns, por exemplo, meditam com o objectivo de reduzir a ansiedade ou o aliviar de uma dor física, outros podem estar em busca de um despertar mais espiritual.

3. É preciso “esvaziar a mente”
   Embora a meditação envolva geralmente quietude mental, isso não significa que ela se “apague”. A meditação envolve o desenvolvimento da capacidade de observar pensamentos, emoções e sensações com a qualidade da não-reactividade – isto é, ser capaz de notar e pausar ao invés de reagir – e de desenvolver uma perspectiva mais ampla de compaixão.

   Esta ideia de necessidade de esvaziamento da mente tem origem, provavelmente, em mal-entendidos sobre alguns tipos avançados de meditação, tais como as absorções meditativas, as práticas de consciencialização consciente e algumas práticas Dzogchen, onde sensações, emoções e pensamentos mais comuns estão pouco presentes. Mas mesmo com um pensamento limitado, estes estados meditativos continuam a possuir qualidades de clareza, compaixão, atenção e consciência reflexiva. Tentar forçar limitar o pensamento seria considerada uma acção não saudável em qualquer estágio do treino da meditação.

4. A meditação vai deixar-me tranquilo desde a primeira hora
  A meditação não é necessariamente uma via fácil para uma mente tranquila. Tanto numa fase inicial da prática, como durante as transições para estágios mais avançados, é comum acontecer um aumento da consciência sobre hábitos e comportamentos mentais não saudáveis. Estas experiências, em si desafiadoras, podem causar alguns efeitos adversos, como desorientação e aumento de ansiedade. É por isso que é importante praticar sob a orientação de um professor experiente e qualificado, capaz de dar o aconselhamento necessário de como trabalhar tais experiências.

5. Já se sabe tudo sobre os seus benefícios
   A ciência já avalizou os benefícios de alguns tipos de meditação em áreas como a depressão e, em certa medida, na redução do stress. No entanto, alguns outros méritos muito reivindicados não são suportados pela comunidade científica. Existem evidências contraditórias, nuns casos, e dados insuficientes, noutros; por exemplo, sobre os efeitos da meditação na redução dos níveis do hormónio do stress ou no envelhecimento.

   Embora a investigação sobre os efeitos da meditação no cérebro humano continue, o que sabemos sobre os seus efeitos continuados é ainda muito limitado. A maioria dos estudos assenta na análise dos efeitos imediatamente antes e depois de um curso de oito semanas ou de um retiro de um mês, em vez de um acompanhamento de anos ou até mesmo de uma vida inteira de meditação.

   E nem mesmo os benefícios estão definidos pelo tipo de meditação. Diferentes práticas – e até mesmo diferentes tipos de mindfulness – têm diferentes formas e objectivos, podendo, portanto, impactar de forma diversa na psicologia e fisiologia humanas.

6. Só serve para reduzir a dor, o stress e a ansiedade
   O objetivo da meditação no seu contexto tradicional (no budismo, mas não só) tem sido o explorar do significado e do propósito da vida e a sua ligação com a consciência existencial mais profunda. Este aspecto central é frequentemente negligenciado no ensino actual. A maior parte da investigação (com algumas excepções) foca-se nos benefícios imediatos da meditação em detrimento do bem-estar existencial.

   A dimensão da consciência existencial está intimamente ligada às motivações e intenções que estão por trás da prática da meditação. Portanto, para se compreender melhor o sentido da meditação, há que dar mais atenção a este aspecto essencial. Aprender mais sobre ele ajudaria também a abordar algumas das preocupações actuais sobre o uso de técnicas de meditação fora dos contextos tradicionais como forma de aumentar a produtividade e reduzir o stress.

   Seguramente que a meditação possui, em si, um potencial capaz de contribuir para a nossa saúde e bem-estar, sendo que o seu verdadeiro poder ainda está muito por explorar. Para aqueles que querem começar (ou continuar) a praticar meditação, o melhor que cada um tem a fazer é investigar qual a prática (sob orientação apropriada) que melhor poderá funcionar no seu caso.

Sobre a autora
Dusana Dorjee é professora na Bangor University, no Reino Unido. O sua investigação sobre meditação recebeu fundos da British Academy, da Mind and Life Institute e da Economic and Social Research Council (ESRC). Dá ainda formação em mindfulness e bem-estar num programa comunitário para escolas primárias.

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