Joan Halifax. Compaixão e o verdadeiro significado da empatia

Quero falar sobre a questão de compaixão. A compaixão tem várias caras. Algumas são violentas, outras são iradas. Algumas são ternas, outras são sábias. O Dalai Lama disse um dia: “O amor e a compaixão são uma necessidade. “Não são um luxo. “Sem eles, a humanidade não pode sobreviver.” Eu sugiro que não é apenas a humanidade que não sobreviverá, mas sim todas as espécies no planeta, como ouvimos hoje. São os grandes felinos e é o plâncton.

Há duas semanas, eu estava em Bangalore, na Índia. Sentia-me muito privilegiada por poder ensinar num hospital nos arredores em Bangalore. Bem cedo de manhã, fui à ala hospitalar. Naquele hospital, havia 31 homens e mulheres que estavam a morrer, progressivamente . Passei pela cama de uma senhora idosa muito frágil, a respirar muito depressa. Estava obviamente no último estado de morrer. Olhei para a cara dela. Olhei para a cara do filho dela, sentado ao pé dela. Tinha a cara cheia de dor e confusão.

Lembrei-me de uns versos de Mahabharata, o grandioso épico indiano: “Qual é a coisa mais espantosa do mundo, Yudhisthira?” E Yudhisthira respondeu: “A coisa mais espantosa do mundo é que, à nossa volta, as pessoas podem estar a morrer “e não nos apercebemos “de que pode acontecer connosco.” Comecei a observar. Quem tratava dessas 31 pessoas moribundas eram raparigas de aldeias dos arredores de Bangalore. Olhei para a cara de uma dessas mulheres, e vi na cara dela a força que surge quando a compaixão natural está verdadeiramente presente. Olhei para as mãos dela enquanto ela dava banho a um homem velho. 

O meu olhar foi para outra rapariga enquanto ela limpava a cara de outra pessoa moribunda. E lembrou-me uma coisa que eu tinha visto há pouco tempo. Todos os anos, tenho o privilégio de fazer algumas missões nos Himalaias e no Planalto Tibetano. Temos clínicas nessas regiões remotas onde não há quaisquer cuidados médicos. 

No primeiro dia em Simikot em Humla, a oeste do Nepal, a região mais pobre do Nepal, apareceu um homem velho agarrado a um monte de trapos. Ele entrou, e alguém disse-lhe algo, percebemos que era surdo. Então olhámos para os trapos, onde havia um par de olhos. Retirámos por entre os trapos uma menina pequena cujo corpo estava muito queimado. Mais uma vez, os olhos e as mãos de Avalokiteshvara. Foram as raparigas, o apoio médico, que limparam as feridas daquele bebé e as trataram.

Conheço essas mãos e olhos; elas também me tocaram. Tocaram-me naquela altura. Tocaram-me ao longo dos meus 68 anos. Tocaram-me quando tinha quatro anos, quando perdi a vista e fiquei parcialmente paralisada. A minha família arranjou uma mulher cuja mãe tinha sido uma escrava para tomar conta de mim. Essa mulher não tinha uma compaixão sentimental. Tinha uma força fenomenal. E acredito que foi essa sua força, que se tornou numa espécie de mudrā e imprimatur que tem sido a luz guia da minha vida.

Por isso, podemos perguntar: De que é feita a compaixão? Há várias facetas. Há compaixão referencial e não-referencial. Mas primeiro que tudo, a compaixão é constituída pela capacidade de ver claramente a natureza do sofrimento. É essa capacidade de se manter forte e que também reconhece que não estou separada deste sofrimento. Mas isto não é suficiente, porque a compaixão, que ativa o córtex motor, significa que aspiramos a transformar o sofrimento. E se formos abençoados com isso, dedicamo-nos a atividades que transformam o sofrimento. Mas a compaixão tem outro componente, e esse componente é mesmo essencial. Esse componente é que não podemos estar ligados aos resultados.

Há 40 anos que trabalho com pessoas moribundas. Tive o privilégio de trabalhar no corredor da morte numa prisão de máxima segurança durante seis anos. E percebi claramente que, ao adquirir experiência de vida, por ter trabalhado com pessoas moribundas, e ter dado formação a trabalhadores sociais, que qualquer vínculo aos resultados iria distorcer profundamente a minha capacidade de estar totalmente presente nas catástrofes a que assistia.

Quando trabalhei no sistema prisional, isto era muito claro para mim: que em muitos de nós, nesta sala, e em quase todos os homens com quem trabalhei no corredor da morte, nunca foram regadas as sementes da sua compaixão . A compaixão é na realidade uma qualidade humana inerente. Está em qualquer ser humano. Mas as condições para ativar a compaixão, para a provocar, são condições específicas. Tive essas condições, até certo ponto, devido à minha doença de infância. Eve Ensler, de quem vão ouvir falar mais tarde, teve essas condições ativadas, de forma incrível através das diversas águas de sofrimento pelas quais passou.

O que é fascinante é que a compaixão tem inimigos, e esses inimigos são coisas como a pena, fúria moral, medo. Temos uma sociedade, um mundo, paralisado pelo medo. E, claro, nessa paralisação, a nossa capacidade para a compaixão também fica paralisada. A própria palavra terror é mundial. O sentimento de terror em si é mundial. Por isso o nosso trabalho, de certa forma, é dirigido a esta imagem, este tipo de arquétipo que invadiu a psique a nível global.

Sabemos pela neurociência que a compaixão tem qualidades muito extraordinárias. Por exemplo: Uma pessoa que cultiva a compaixão, quando está na presença do sofrimento sente mais esse sofrimento que a maioria das pessoas. Porém, volta ao ponto de partida mais rapidamente. Isto chama-se resiliência. Muitos de nós pensa que a compaixão nos esgota, mas garanto-vos, é uma coisa que nos dá vida, realmente. 

Outra coisa sobre a compaixão é que melhora a integração neural. Acende todas as partes do cérebro. Outra coisa, que foi descoberta por vários investigadores em Emory e em Davis, etc, é que a compaixão melhora o nosso sistema imunitário. Bom! Vivemos num mundo muito nocivo.

Muitos de nós estão a encolher, face a venenos psicossociais e físicos, das toxinas do nosso mundo. Mas a geração da compaixão mobiliza a nossa imunidade.

Se a compaixão é tão boa para nós, tenho uma pergunta. Porque não treinamos as nossas crianças na compaixão?

Se a compaixão é tão boa para nós, porque não treinamos os prestadores de cuidados médicos na compaixão para que possam fazer o que é suposto fazer, que é transformar o sofrimento? Se a compaixão é tão boa para nós, porque não votamos a favor da compaixão? Porque é que não votamos em pessoas para o nosso governo com base na compaixão? Para podermos ter um mundo mais sensível. No Budismo, dizemos: “É preciso ter costas fortes e uma frente flexível.” É preciso ter uma força enorme por detrás, para permanecer firme no meio de condições. É essa a qualidade mental da serenidade.

Mas também é preciso uma frente suave, a capacidade de estarmos abertos ao mundo, tal como ele é, ter um coração sem barreiras. E o arquétipo disto no Budismo é Avalokiteshvara, Kuan-Yin. É um arquétipo feminino: aquela que apreende os gritos de sofrimento no mundo. Ela tem 10 000 braços, e em cada mão há um instrumento de libertação. Na palma de cada mão, há olhos, são os olhos de sabedoria. Creio que, durante milhares de anos, as mulheres viveram, exemplificaram, conheceram no seu íntimo, o arquétipo de Avalokiteshvara, de Kuan-Yin, aquela que apreende os gritos de sofrimento no mundo. 

As mulheres têm manifestado, durante milhares de anos, a força que surge da compaixão sem intermediários, sem filtros, ao apreenderem o sofrimento tal como ele é. Encheram as sociedades de bondade, e temos vindo a sentir isso mesmo, à medida que, mulher atrás de mulher, se sucederam neste palco, no último dia e meio. Elas puseram em prática a compaixão através da ação direta. Jody Williams tocou nisso: É bom meditar. Lamento muito, também tu tens de meditar um pouco mais, Jody. Recua, dá um tempo à tua mãe, ok? (

Mas o outro lado da equação é que vocês têm de sair da vossa caverna. Têm de sair para o mundo, como Asanga fez, quando estava a tentar compreender Maitreya Buddha, depois de 12 anos sentado na cave e disse: “Vou sair.” Ia pelo caminho abaixo e viu qualquer coisa no caminho. Olha, é um cão, põe-se de joelhos. Vê que o cão tem uma grande ferida na perna. A ferida está cheia de larvas. Deita a língua de fora para tirar as larvas, para não lhes fazer mal. Nesse momento, o cão transforma-se no Buddha do amor e da bondade. 

Acredito que as mulheres e raparigas de hoje têm de se ligar de uma forma poderosa com os homens — com os pais, com os filhos, com os irmãos, com os canalizadores, os construtores de estradas, os técnicos de apoio médico, os médicos, os advogados, com o nosso presidente, e com todos os seres. As mulheres nesta sala são lótus num mar de fogo. Que essa capacidade se possa tornar real para todas as mulheres.O

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