Educação Contemplativa: Uma abordagem transformadora

Por Joana Sampaio Carvalho (psicóloga e investigadora)
em exclusivo para Mindmatters

     Tal como acontece com a fita de Möbius, a abordagem contemplativa para o ensino pressupõe uma interconexão contínua entre o interior e o exterior. A fita de Möbius é um caso bem ilustrativo disso mesmo, devido à sua unilateralidade. Em vez de ter dois lados e duas arestas, com uma simples torção de meia-volta, uma tira de papel passa a ter um lado e uma borda. O interno e o externo tornam-se um. Parker Palmer refletiu sobre as implicações da fita de Möbius em relação à vida humana em The heart of a teacher: Identity and integrity in teaching: “tudo o que está dentro de nós flui continuamente para fora para ajudar a formar, ou deformar, o mundo; e tudo o que está fora de nós flui continuamente para dentro para ajudar a formar, ou deformar, as nossas vidas. A fita de Möbius é como a vida; em última análise, existe apenas uma realidade.”

     A interconexão reflectida na fita de Möbius é a questão central do ensino contemplativo. O que é interno é influenciado e influencia o que é externo e vice-versa. “O ensino contemplativo começa no conhecimento e na experiência de nós mesmos. Desaprendemos como pensamos e sentimos habitualmente, para que possamos voltar ao momento presente de forma fresca e clara”, reflecte Richard Brown em The contemplative observer. Educational leadership. A educação contemplativa começa com o relacionamento mais íntimo que nos é possível alcançar: a relação com nós mesmos. É uma jornada que se move quer para o mundo exterior quer para o mundo interior – mente, corpo e coração.

    As qualidades da compaixão, integridade e consciência mindful estão situadas internamente em cada professor e estão intimamente ligadas e influenciadas pelo mundo externo. O reconhecimento e a apreciação de um professor para compreender a sua vida interior reforça a sua capacidade de ensinar com compaixão, integridade e consciência mindful. O ensino contemplativo integra “um conjunto de práticas pedagógicas, com origem nas grandes tradições contemplativas, que têm como objectivo promover o crescimento pessoal e a transformação social através do cultivar da consciência e volição num contexto ético-relacional” (Robert W. Roeser e Stephen C. Peck An Education in Awareness: Self, Motivation, and Self-Regulated Learning in Contemplative Perspective).

    O interesse pelo ensino contemplativo surgiu recentemente entre os educadores e investigadores devido à sua ênfase na integridade e ao seu potencial transformador, o que contraria várias práticas educativas contemporâneas que enfatizam o conhecimento isolado e a transmissão. O ensino contemplativo tal como descrito acima, é uma orientação para os processos de ensino e aprendizagem baseados na plenitude/harmonia. Tal abrange tanto as forças como as fraquezas e prospera no paradoxo; por exemplo, a aparente contradição entre a arte e a ciência podem-se complementar.

    Ensinar com compaixão envolve sentimentos de empatia e bondade amorosa. Arthur T. Jersild comenta na sua obra de 1955 When Teachers Face Themselves: “ser compassivo significa participar da paixão: a paixão pelos outros, a paixão que surge dentro de si mesmo”. O que caracteriza a compaixão é estar aberto ao sofrimento do outro e agir no sentido de minorá-lo; ser movido por sentimentos de ternura e bondade; ter uma atitude compreensiva e sem julgamento em relação às inadequações e aos fracassos; e o reconhecimento de que a experiência individual faz parte da experiência humana comum (Kristin Neff The Development and validation of a scale to measure self-compassion). A partilha da paixão e a sua incorporação entre professores e alunos cria um ambiente de aprendizagem capaz de reconhecer a importância da plenitude/harmonia para uma aprendizagem e relacionamentos com mais significado. A plenitude inclui sofrimento e fracasso, assim como gentileza e paixão.

    Ensinar com integridade envolve honrar as diferenças, a diversidade e a adversidade, como factores importantes para a aprendizagem. Nós ensinamos quem somos (Parker Palmer). Sem desafiarmos as nossas crenças, valores e princípios fica difícil ensinar com integridade. Isso envolve congruência entre a vida interior da pessoa e o seu papel externo como professor. Ensinar com integridade enfatiza ensinar com plenitude/harmonia, trazendo todo o seu self para o papel de professor. A plenitude/harmonia contempla o paradoxo de aceitar, seja quando estamos ou quando não estamos, a mostrar as qualidades do ensino contemplativo. Ensinar com integridade é variável e individual e quando guiado pelas qualidades da compaixão e da consciência mindful contribui para melhorar a aprendizagem de todos os alunos. Bell Hooks explica no seu ensaio de 2003 Teaching Community: A Pedagogy of Hope como a integridade de uma pessoa é importante para o trabalho do professor: “todo o trabalho que fazemos, independentemente do quão brilhante ou revolucionário ele seja ao nível do pensamento ou da acção, perde todo o seu poder e significado se lhe faltar a integridade do ser”. Os professores que estão abertos para trazer todo o seu ser para o seu trabalho com os alunos, conectam a sua vida interior com o seu papel de professor.

     Ensinar com consciência mindful é uma qualidade mental que permite ao professor dar atenção simultaneamente aos detalhes e à plenitude do momento. Ensinar com compaixão e integridade assenta na qualidade da atenção e da consciência mindful. A atenção concentra-se no imediato, enquanto a consciência oferece uma visão global. Ensinar com consciência mindful é fundamental para o ensino contemplativo porque “como todas as disciplinas contemplativas, ele lida com o todo e não com as partes”, afirma Mary Rose O’Reilley no seu livro Radical presence: Teaching as contemplative practice. A consciência mindful concentra-se na integridade, no processo e no potencial de si mesmo, dos outros e do momento através de uma qualidade de atenção. Peter Senge, C. Otto Scharmer, Joseph Jaworski e Betty Sue Flowers descrevem, na sua obra conjunta Presence: Human Purpose and the Field of the Future, a consciência mindful como sendo “presente e consciente do momento presente” através de um processo de ”escuta profunda, de abertura aos preconceitos e de abandono de identidades antigas e da necessidade de controlo”. A consciência mindful não é um estado estático que um professor atinge, mas é antes um processo constante de voltar, uma e outra vez, ao momento presente, guiado por um sentido de plenitude, o que requer abertura ao momento presente com uma perspectiva de equanimidade que é orientada pelo sentido de admiração.

    O ensino contemplativo constitui, pois, um modelo que possibilita experiências transformadoras para professores, alunos e comunidades educativas. Esta transformação pressupõe a alteração do que é actual e descreve quer um processo, quer um resultado. O que distingue esta abordagem de aprendizagem focado no conhecimento é a sua ênfase no processo e nos resultados que contribuem para o aumento da consciência, da reflexão crítica, da mudança de perspectiva, do crescimento e da singularidade individual. Arthur Zajonc, antigo director do Mind and Life Institute, refere num artigo seu que “do ponto de vista da tradição contemplativa, o conhecimento não é orientado para o objecto. É, sim, orientado para a epifania (ou insight). Não basta conhecer a realidade; precisamos de mudar a maneira de como vemos a realidade. A verdadeira educação é transformação”.

    De forma a facilitar experiências transformadoras para os alunos, o professor precisa de vivenciar experiências pessoalmente transformadoras nas suas vidas. Tais experiências têm o potencial de desenvolver e melhorar a sua capacidade para ensinar com compaixão, integridade e consciência mindful. O ensino e a transformação contemplativos existem numa relação simbiótica e interdependente, na qual os professores praticantes criam oportunidades para experiências únicas e transformadoras para os seus alunos. ”A transformação é um movimento em direcção ao aumento da harmonia/plenitude que, simultaneamente, promove a diversidade e a singularidade – reconhecendo o quanto temos em comum com o universo (e talvez até o reconhecimento de que nós somos o universo)”, escreve Tobin Hart em From education to transformation: Why mystics and sages tell us education can be.

    A plenitude/harmonia pode ser descrita como indivisível ou como uma entidade ou sistema de partes inter-relacionadas. A plenitude envolve acolher e conectar todos os aspectos do ser humano. Uma orientação para a plenitude aceita o bem e o mal e sugere que não é possível ter um sem o outro. A transformação para aumentar a integridade é o objectivo de um ambiente contemplativo de ensino e aprendizagem.

    O ensino contemplativo envolve a união da vida interior profunda do professor com as suas acções visíveis. O professor contemplativo exibe uma presença de ensino contemplativo  “está alerta, receptivo e conectado com o funcionamento mental, emocional e físico do indivíduo e do grupo no seu ambiente de aprendizagem e à capacidade de responder com compaixão” (Carol R. Rodgers e Miriam B. Raider-Roth Presence in Teaching. Teachers and Teaching: Theory and Practice). Os grandes professores apresentam estas três qualidades de ensino, mas é a síntese única entre ensinar com compaixão, integridade e consciência mindful que reflecte um professor com uma orientação contemplativa ao ensino. O todo é maior do que a soma das partes e a intenção em direcção à plenitude cria o potencial para a transformação pessoal e social. A contemplação não é um método, é antes uma prática – uma prática quotidiana que pode transformar o mundo. ●

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Referência

Byrnes, K. (2012). A Portrait of Contemplative Teaching. Journal of Transformative Education, 10(1), 22–41. doi:10.1177/1541344612456431

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