Mindfulness para a uma sociedade mais sustentável

É sabido que o mindfulness (atenção plena) pode transformar a vida de uma pessoa. Mas sabia que ele também pode mudar o mundo?

Por Christine Wamsler
in The Conversation  ver artigo original

Temos perante nós desafios cada vez mais complexos, dos quais o aquecimento global é possivelmente o mais importante. É óbvio que temos de fazer alguma coisa em relação às emissões de carbono com as suas consequentes cheias, tempestades e ondas de calor que ameaçam o nosso meio ambiente (mas ainda há quem queira ignorar isso).

Entretanto, o que parece cada vez mais claro é que este é um problema que não pode ser resolvido apenas com o recurso a novas tecnologias ou com a mudança de governos. Precisamos tomar decisões em relação ao clima e de desenvolver novas práticas sociais; precisamos encorajar uma transição mais abrangente a nível cultural rumo a formas de vida mais sustentável; precisamos repensar completamente a forma como agimos. E é precisamente aqui que entra o mindfulness.

O mindfulness é o processo psicológico de trazer a atenção ao momento presente. É mais do que uma mera presença momento a momento; é uma consciência gentil, interessada e sem julgamentos capaz de nos ajudar a conectar de forma compassiva connosco, com os outros e com a natureza. A atenção plena pode ser desenvolvida através da meditação e de outras práticas contemplativas, como o yoga ou a escuta compassiva, e tem vindo a ser cada vez mais utilizado em vários campos profissionais e disciplinares. Em 2016, houve 14 vezes mais de artigos académicos a usar este termo em comparação a 2006. Mindfulness é normalmente resumido como “estar aqui e agora”. Todos temos capacidade para ser mindful, algo que está enraizado na nossa consciência e que aparece associado a uma maior inteligência emocional. Correntes da neurociência acham que o mindfulness pode literalmente aumentar a fiação interna que constitui a grande rede de conexões neurais do cérebro.

Como o pensamento mindful
pode conduzir a uma mudança global

Tal como mostrei através da minha própria investigação, o mindfulness pode não apenas mudar a forma como pensamos as crises sociais e ambientais do planeta, como ajudar a que tomemos as medidas necessárias à construção de uma sociedade mais sustentável.

O mindfulness pode influenciar a forma como respondemos às diferentes crises, incluindo a das alterações climáticas. Os estudos têm mostrado que a atenção plena pode ser usada, não apenas para ajudar as vítimas, mas todos os demais envolvidos numa catástrofe. O stress pós-traumático afecta uma variedade de forças no terreno, como grupos de emergência, bombeiros, forças policiais, militares, voluntários e comunidades comprometidas no acolhimento das vítimas. O mindfulness pode não só ajudar a diminuir todo este stress potencial, como tornar as pessoas mais capazes de lidar com ele e de se adaptarem às novas circunstâncias, minimizando a reacção automática e aumentando a flexibilidade cognitiva.

O mindfulness encoraja também à consciência de justiça social, sensibilizando para as questões de contexto. Ajuda a cultivar compaixão e valores morais intrínsecos, os quais, por sua vez, podem reflectir-se em acções em favor do bem comum.

As alterações climáticas e o aquecimento global têm consequências a nível ambiental e de saúde pública, afectando os países pobres e os mais pobres nos países mais ricos; em ambos os casos, essas pessoas têm de ser protegidas. As novas medidas de adaptação ao clima não devem criar outros problemas ou piorar os já existentes. O pensamento mindful deve levar as pessoas a ter em conta as consequências das estruturas tidas inquestionáveis e das relações de poder existentes, tanto à escala micro das pequenas disputas laborais, como à escala global.

Consequentemente, o mindfulness também deve tentar alterar as organizações a partir de dentro. Numa época de alterações climáticas, as estruturas organizacionais sustentáveis precisam de cuidar e de desenvolver os seus recursos naturais antecipando – e fazendo face – acontecimentos e riscos imprevisíveis. Isto pode ser feito pelo influenciar do nível de satisfação sobre o trabalho das pessoas e pelo aumento da sua flexibilidade cognitiva e abertura à novidade, o que poderá encorajar as organizações no sentido de se manterem na vanguarda através da inovação.

Apesar dos benefícios óbvios, os cientistas têm sido lentos a aceder ao potencial presente no mindfulness e noutras práticas contemplativas no sentido da transformação. Organismos como as Nações Unidas têm sido mais pró-activos (por exemplo, a UNFCCC, responsável pela coordenação das questões do aquecimento global, contactou o líder budista Thich Nhat Hanh no sentido de obter uma declaração antes da Cimeira de Paris, no final de 2015).

O meu estudo mostra que mindfulness e sustentabilidade global estão mais ligados do que aquilo que possa parecer à primeira vista, mas é necessário saber mais sobre essa ligação. Chegou a altura de explorar o impacto prático que as práticas contemplativas, como o mindfulness, podem ter ao nível da sustentabilidade, e de que forma podemos explorar o seu potencial para conduzir a alterações de alcance global.

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Sobre a autora:
Christine Wamsler é professora no Centro de Estudos para a Sustentabilidade da Lund University (LUCSUS), Suécia, e autora do estudo publicado “Contemplative Sustainable Futures”

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