O segredo para acalmar os miúdos e aumentar a concentração? A meditação

Fazer com que crianças do 1.º ciclo permaneçam em grupo, quietas, caladas e de olhos fechados durante vários minutos parece uma missão impossível. Mas não é. De norte a sul do País, há cada vez mais escolas a apostar nesta prática.

Por Joana Capucho | Maria João Gala/Global Imagem (foto)
in Diário de Notícias  ver artigo original

Pernas cruzadas, mãos em cima dos joelhos, costas direitas, olhos fechados. Um silêncio pouco comum para uma sala com dez crianças dos seis aos oito anos que só é interrompido pelo som mágico de uma taça tibetana. “Cada um vai perguntar ao seu coração como está hoje. Se está agitado ou calmo, triste ou feliz”. A voz doce de Sílvia Fernandes Gomes conduz a sessão de Crisom Meditare, uma técnica de “meditação com som cristalino”, que este ano foi introduzida na E.B. 1 de Vigia, no concelho de Vagos, e que também é praticada em outras escolas do distrito de Aveiro.

Quando os olhos se abrem, há sorrisos envergonhados pela presença do DN. “Vamos encher a barriga de ar e deitar o ar para fora”. Repetidas vezes. Agora mais “tranquilas e relaxadas”, as crianças deitam-se em silêncio, de olhos fechados, com as mãos em cima da barriga. “Vamos abrir os nossos ouvidos e ouvir este som mágico, que vai ajudar o nosso corpo a relaxar”. Durante vários minutos, mantêm-se assim: imóveis e em silêncio. “As nossas pernas vão ficar muito relaxadas”. Depois a barriga, as costas, as mãos, o coração, a cabeça, os pensamentos. Espreguiçam-se e voltam a sentar-se. Para terminar, o momento mais aguardado: o sino de vento (shanti) passa delicadamente de mão em mão.

De norte a sul do País, há cada vez mais escolas a oferecer aos alunos a possibilidade de praticar meditação, mas o número ainda é residual. Crisom Meditare é uma técnica que foi desenvolvida durante oito anos por Sílvia Gomes, professora com formação em música e investigação na área desta prática. Chegou às escolas no ano passado, mais concretamente à E.B.1 da Glória, em Aveiro, onde já faz parte do currículo, abrangendo atualmente cerca de 200 crianças. Na Vigia, é uma atividade paga e promovida pelo ATL.

Juliana Gonçalves, 10 anos, faz parte da segunda turma que tem sessões de meditação – de 30 minutos cada – à terça-feira na Vigia. “Andava sempre muito nervosa e a minha mãe inscreveu-me para me acalmar”, conta ao DN. Quando sai da aula diz que se sente “mais relaxada” e “às vezes” até pratica em casa. Laura Bernardes, 9 anos, também: “Em casa, cruzo as pernas à chinês, fecho os olhos e tento relaxar. Fico menos nervosa, mais serena e tranquila.”

Quando questionamos os alunos sobre o que mais gostam, dizem prontamente: fechar os olhos e tocar “os instrumentos da professora”. Além da taça de som e do sino, Sílvia costuma levar tambores, maracas e outros instrumentos de percussão. A música, “tendo uma estrutura predefinida”, ajuda crianças e adultos a chegar a um estado meditativo “muito mais rápido e intenso, gerando transformações psico-fisiológicas”. Aquele som é depois levado para outras situações do dia a dia. “A meditação não faz milagres, mas consegue mudar comportamentos”, destaca a formadora.

As crianças têm energia para dar e vender. “Acham que estar quietas é uma seca”, pelo que é um grande desafio fazê-las parar. “São o nosso futuro. Se as conseguirmos tranquilizar, vamos mudar a nossa sociedade daqui a 20 ou 30 anos”. Sílvia quer “ajudar as crianças a crescer fora do stresse dos pais”. A meditação permite-lhes “controlar as emoções para que sintam, ajam e vivam de maneira diferente”. Por outro lado, estas práticas “auxiliam a memória e a concentração”, o que leva a uma “maior eficácia ao nível da aprendizagem”.

Uma prática em crescimento

Ao início da manhã, depois de almoço e ao final da tarde, os alunos do primeiro ciclo de um agrupamento de escolas da Marinha Grande, em Leiria, ficam em silêncio durante 30 segundos a três minutos – consoante a experiência – enquanto praticam mindfulness, a arte da atenção plena. São cerca de 500. O coordenador do projeto, Fernando Emídio, explicou ao DN que este é o quarto ano em que a atividade se realiza no âmbito da “Oferta Complementar, que faz parte do currículo”. Mas, além disso, é praticada diariamente. “Temos verificado que há uma melhor gestão de conflitos e uma melhoria da atenção e concentração na sala de aula, uma vez que os alunos conseguem manter o foco nas tarefas durante mais tempo, o que se reflete nos resultados”.

Vítor Bertocchini, psicólogo e presidente da Sociedade Portuguesa de Meditação e Bem-Estar, diz ao DN que estas práticas “estão a começar a ser introduzida nas escolas”, mas “ainda é residual” o número de instituições que as oferece. O próximo passo, prossegue, “é os professores integrarem a prática regular no seu quotidiano e a sua aplicação nas salas, o que tem um efeito muito mais forte”.

Um pensamento sobre “O segredo para acalmar os miúdos e aumentar a concentração? A meditação

  1. ….eu faço meditação…mas a historia da meditação nas escolas, está a parecer o caso da retilina (exagerando)….tudo para relaxar as crianças, para ficarem quietas, calmas e atingirem o sucesso escolar, ou seja, tudo o que interessa aos adultos! Será este o verdadeiro interesse da meditação? Conhecer emoções? ….meus queridos adultos, faz sentido as crianças conhecerem emoções tal como nós as vemos e sentimos? …são CRIANÇASSSSS! Vamos meditar, mas vamos também deixa-las criar, deixa-las movimentarem criativamente as ideias e vão ver como elas ficam. Também eu sou facilitadora…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s