A meditar é que os miúdos aprendem

Treinar a concentração, pensar antes de agir, valorizar os aspetos positivos. A meditação pode ser uma boa ferramenta para alunos e professores – melhora as relações entre todos e facilita a aprendizagem.

Por Sara Sá
in Visão

A turma do quarto ano do agrupamento de Escolas da Marinha Grande, o dia começa sempre de olhos fechados. Os alunos entram, senta-se cada um no seu lugar e, quando ouvem o sino, cerram os olhos e respiram profundamente. Durante uns minutos, o desafio é não pensar em mais nada a não ser no movimento de inspiração e expiração. Para trás fica a zanga com a mãe antes de sair de casa, a bola desaparecida no recreio, o teste que irá começar dentro de momentos.

É assim desde o primeiro ano, quando o programa Mindup começou a ser adotado pelo Agrupamento. Criado pela fundação da atriz americana Goldie Hawn para ajudar as crianças de Manhattan a superar o  trauma do atentado às Torres Gémeas, o programa assenta em quatro pilares: as neurociências, a atenção plena (mindfulness), a psicologia positiva e a aprendizagem socioemocional. No fundo, o que se propõe é que os alunos fiquem a conhecer o funcionamento do cérebro na resposta ao stresse, à ansiedade – aprendam a acalmar-se, a prestar atenção a tudo o que está à sua volta e a sentir gratidão pelo que têm.

Isto consegue-se através de 15 sessões, orientadas pelo professor, formado no método. Depois destas aulas, o programa continua a ser praticado com sessões de meditação, aplicadas sempre que professor ou alunos sentem essa necessidade. “Uso a meditação no início da aula, após o intervalo ou quando há alguma perturbação”, conta a professora Lígia Silva. “É uma prática extraordinária! Os alunos aderem a 100 e, por mais agitados que estejam, ficam em silêncio total, assim que ouvem o sino.” Dito assim, parece demasiado bom para ser verdade. Mas a perceção de Lígia Silva é totalmente corroborada por diversos estudos que têm vindo a ser feitos, sobretudo nos EUA, acerca dos benefícios da prática de meditação. Há ganhos em situação de doença, para controlo da dor, na gestão de stresse (sendo adotada em empresas como a Google ou a Intel) e na educação.

DA EUFORIA À CALMA EM 3 MINUTOS

Antes de poderem ensinar, os professores precisam de ganhar a atenção dos alunos. E, em alguns casos, metade da aula pode ser passada a tentar pôr ordem na casa. É aqui que a prática da meditação pode fazer a diferença.

Joana Carvalho, psicóloga educacional, conduziu um estudo-piloto para avaliação dos efeitos do programa Mindup em alunos e professores do primeiro ciclo, em três agrupamentos de escolas: Marinha Grande, Cascais e Loures. Ao todo, acompanhou vinte professores,noutras tantas turmas. Num artigo publicado no jornal científico Mindfulness, registou uma maior capacidade de controlar as emoções, mais autocompaixão e bem-estar em alunos e professores que seguiam o programa, por comparação com o grupo de controlo. “A avaliação nos professores foi feita em junho, uma altura especialmente complicada, e todos registaram maior realização profissional, uma melhor capacidade de perceber, analisar e entender o comportamento dos alunos”, relata Joana Carvalho, responsável pela área de Educação no recém-criado Instituto Mindfulness, em Lisboa. Uma das escolas que fez parte do estudo ficava em Loures, numa zona com problemas sociais. Joana Carvalho recorda-se de assistir à entrada dos alunos, do turno da tarde – esbaforidos, transpirados, agitados. E em menos de três minutos puseram-se em silêncio e serenaram, prontos a começar a trabalhar.

Afonso Craveiro tem um ar tranquilo e um discurso muito maduro para os seus oito anos. Pratica meditação desde que entrou para o primeiro ano, na escola da Marinha Grande. Diz que o ajuda a “concentrar-se e a acalmar-se”. E recorre à técnica sempre que se sente irritado ou zangado. Mesmo em casa. Tem até um sino no quarto, que usa para marcar o início da prática. “Inspiro, expiro e não penso em mais nada, a não ser na respiração e no som do sino”, conta, com uma candura irresistível. Também ensinou a mãe e os irmãos mais velhos a meditarem.

MELHORAR NOTAS DE OLHOS FECHADOS

Fernando Emídio fez formação com Joana Carvalho e levou o programa para o agrupamento da Marinha Grande. Depois disso, as escolas iniciaram a experiência em três turmas do oitavo ano e consideram estender aos alunos do quinto e do sexto. Planeiam ainda alargar a experiência, através de workshops, aos alunos do secundário, aos funcionários e aos pais. “Com este programa, conseguimos acalmar a mente, pela prática da atenção plena, vivenciar os sentidos, olhar para as coisas boas da vida”, diz o professor. O que se propõe é viver o aqui e o agora, em detrimento de ficar retido no passado ou sofrer por antecipação, ao pensar no futuro. “Os miúdos percebem que errar é uma coisa que também acontece aos outros. Não estão sozinhos. E isto pode ter um impacto muito positivo no sucesso académico”, completa Joana Carvalho. “A longo prazo, esta intervenção pode prevenir problemas ao nível da saúde mental, além dos efeitos positivos na aprendizagem.”

Nos EUA, está a decorrer um gigantesco programa que irá envolver 20 mil crianças de 50 escolas, ao longo dos seis anos de duração do projeto. Com o nome de Compassionate Schools Project (Projeto das Escolas Compassivas), pretende melhorar o desempenho académico e promover a compaixão. É uma iniciativa ambiciosa, que conta com doações de privados. Resultados preliminares, ao fim de 12 semanas, apontam para melhores notas dos alunos do projeto, quando comparadas com as do grupo de controlo. Afinal, meditar não é tempo que se perde, é tempo que se ganha.

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