Enfrentando os meus privilégios de branca

Quando Tara Brach aparece a reconhecer os seus próprios privilégios enquanto mulher branca, revela uma série de pontos dolorosamente obscuros. E isso fê-la mudar enquanto professora de dharma e ativista.
Por Tara Brach | Anya Brewley Schultheiss (foto)
in The Lion’s Roar | 22 de junho de 2016  (ver artigo original)
Até há oito ou nove anos atrás, eu diria que era uma pessoa bastante consciente em relação à questão racial; e assumiria, igualmente, que as sangas budistas eram acolhedoras para com todos. O meu pai foi um advogado com larga prática na área dos direitos civis e que privava com um grupo de amigos racialmente bastante heterogéneo, algo que era fora do comum na época. Durante a primária, fui uma de cinco crianças brancas numa escola predominantemente afro-americana. Vivi, igualmente, durante um largo período de tempo, como uma outsider, o que incluía o uso de um hábito religioso – uma veste toda branca e um turbante – durante dez anos. Sempre assumi, por isso, que me encontrava desperta em relação a estas questões; isto até ao momento em que me tiraram o tapete debaixo dos pés graças a algumas amigas da área de Washington, D.C., que começaram a fazer-me ver como era de facto a vida para as pessoas de cor, o que se passava fora da minha área de experiência.
Uma delas foi uma amiga de uma sanga com foco na diversidade que descreveu como era sair de carro com o seu pai quando era criança. Frequentemente, ele era mandado parar pela polícia, sem qualquer razão, só porque era negro. Ela descreveu como lhe era doloroso ver a humilhação que ele sentia sempre que testemunhava essas cenas, saber que ele sentia que a sua dignidade lhe estava a ser tirada à sua frente. Se algo assim tivesse acontecido com o meu pai, se eu tivesse presenciado ele ser humilhado desta forma, isso teria abanado todo o meu mundo enquanto jovem.
Uma outra amiga compareceu numa aula de dharma onde eu estava a falar sobre a educação das nossas crianças, como refletir toda a sua bondade e lhes dar uma sensação de confiança, nelas e nas suas capacidades, para que possam concretizar tudo aquilo que aspirarem no mundo. A minha amiga levantou a mão e disse: “Tenho que te dizer que eu quero que o meu filho sinta medo. Quero que ele tenha medo, porque eu tenho um medo mortal que ele seja preso ou morto cada vez que sai de casa”. Ela não queria que o seu filho fosse inconsciente em relação ao risco que enfrentava enquanto um jovem afro-americano – ela preferia-o assustado mas vivo. Tenho vindo a assumir que as portas para o meu filho ir-se-ão abrir, que terá oportunidades, oportunidades essas que poderá aproveitar se tiver confiança em si. Dei conta que as minhas assunções eram privilégios de uma mulher branca.
Uma das coisas que notei quando o assunto racismo aparece é como os praticantes  budistas brancos se referem a ele: “oh, sim, é uma coisa importante”, mas sem qualquer sentimento de verdadeiro envolvimento, quer na sua vida quer no seu caminho espiritual. E, no entanto, não se pode fazer parte de uma população onde tem havido um trauma profundo e não estar envolvido. A escravatura na sua expressão mais formal pode já não existir nos Estados Unidos, mas há novas formas que podemos testemunhar na disparidade de acesso aos recursos: na educação, na habitação e no trabalho. O dobro dos negros em relação aos brancos estão desempregados nos EUA e há seis vezes mais negros nas prisões.
O legado do racismo não afeta apenas o acesso aos recursos na nossa sociedade. Afeta também a nossa psique e tem um efeito poderosíssimo no nosso sentido de identidade. Aqueles que não têm acesso fácil aos recursos enfrentam normalmente sentimentos de inferioridade, fragilidade e intimidação. Mas o que é que acontece quando somos nós aqueles que têm acesso? A identidade torna-se menos consciente – existe um sentimento inconsciente de privilégio e de superioridade, de merecimento e de posse do que nos é devido. É muito comum as pessoas brancas referirem-se àqueles que o não são como “afro-americanos” ou “asiáticos”. Nós não identificamos os outros caucasianos como “brancos” porque está assumido que o branco é o padrão e tudo o resto é diferente. Toni Morrison escreveu: “neste país, americano significa branco. Todos os outros têm de hifenizar”. Fazemos o mesmo na sanga.
Ao viver num contexto predominantemente branco, a pessoa branca sente constantemente a sua centralidade: nos textos de história, na publicidade, nos modelos de referência, nos heróis, nas conversas do quotidiano sobre “boa vizinhança” e “boas escolas”, quem lá está e quem não está. Observamos programas de televisão de grande audiência centrados à volta de grupos de amigos normalmente brancos e somos expostos à iconografia religiosa que apresenta Deus, Moisés, Jesus e outras figuras centrais como brancos. E centros de dharma após centros de dharma, vemos professores de budismo brancos. Se formos brancos, a nossa tendência será para nem sequer notar este cenário, mas se não formos, notamos.
Para sentirmos que o problema com que os “outros” se debatem não está “lá fora” algures no mundo, separado de nós, temos que nos aproximar. O problema reside “aqui” e exige a nossa atenção. Pouco depois dos acontecimentos de Ferguson, estive presente numa vigília de mães em luto em Washington, D.C. Estavam presentes cerca de 15 mulheres de várias partes dos Estados Unidos cujos filhos tinham sido mortos pela polícia. Elas viajavam pelo país inteiro para contar as suas histórias. Uma delas contou-nos como o seu filho tinha sido abatido um dia antes do seu aniversário e como ele tinha andado a preparar a sua festa. Outra mãe partilhou que quando o seu filho foi atingido a tiro, disse ao polícia: “Eu não estava a fazer nada de mal. Porque é que disparou contra mim?” O filho de uma das mulheres estava em vésperas de casamento; outro foi ferido a tiro a poucos metros de um hospital, mas a polícia recusou-se a transportá-lo para as urgências. As histórias destas mães despedaçou-me o coração. Teria despedaçado o coração de qualquer um que se tivesse aproximado o suficiente para ouvi-las. Enquanto brancos, podemos viver décadas sem sermos confrontados com esta realidade ou sem nos preocuparmos o suficiente para sermos parte do processo de cura. Precisamos deixar que os nossos corações se partam, caso contrário vamos continuar a permanecer numa identidade extremamente isolada. Temos que estar atentos.
As pessoas brancas têm de estar conscientes dos privilégios dos brancos, de notar quantas portas se abrem para nós ao longo da nossa vida. A corrente que dá acesso ao dinheiro, ao poder e ao sucesso é a mesma que nos suporta; existe um sentimento de pertença, de ser parte da cultura dominante. E isto acontece não apenas na sociedade lá fora, acontece também nas comunidades espirituais.
Um homem afro-americano presente, pela primeira vez, a uma das nossas aulas de meditação escreveu sobre como se sentiu posto à margem e mal recebido por ser negro:
“Quando cheguei era ainda um pouco cedo e fui-me sentar no final da segunda fila a ler um livro enquanto esperava pelo início da meditação. Aos poucos, a sala foi-se enchendo e quando a meditação começou todos os lugares estavam tomados… todos menos um: o lugar ao meu lado. Comecei a sentir-me um pouco incomodado até que o fantasma do racismo do passado sentou-se ao meu lado. Virando-se para mim, disse-me: ‘os lugares vagos estão a ser devorados nesta sala, então porque é que eu estou aqui sentado ao teu lado?’
“O seu remoque trouxe-me à mente ira e frustração. Ignorei-o e tentei concentrar-me na meditação. Não fui capaz. De seguida, perguntou-me: ‘Porque é que eu sou a única pessoa a sentar-se ao teu lado? Acham elas que os vais roubar’?
– “Não, que absurdo – repliquei – de certeza que elas não acham isso.
– “O fantasma respondeu: ‘Então, talvez cheires mal.’
– “Não, eu sou asseado.
– “‘Tens um ar intimidatório?’
– “’Não creio que um homem negro de 41 anos, de calças e ar convencional possa meter medo.
– “‘Será que é por seres novo aqui?’
– “Não sei
“Esta situação incomodou-me durante o resto da noite ao ponto de não ter conseguido seguir a palestra de dharma. Lembro-me do professor ter anunciado serem necessários voluntários para o chá. Inicialmente, era minha intenção ajudar, mas depois pensei para comigo: ‘Eles não vão querer a ajuda de um negro’. Assim, logo que a palestra terminou, o fantasma do racismo acompanhou-me à porta.”
Este episódio aconteceu há cerca de quatro anos. O belo e invulgar final desta história é que nós dois nos tornamos amigos e que ele hoje faz parte da direção da Insight Meditation Community of Washington (IMCW), além de exercer, também, funções num comité de aconselhamento de pessoas de cor que nos ajuda a investigar formas de envolver a cultura IMCW tornando-a mais inclusiva, diversificada e equitativa. Ele não se afastou. Mas não é isso que acontece normalmente e é fácil entender porquê. É doloroso constatar que, apesar das nossas melhores intenções, os praticantes budistas brancos estão a passar ao lado de uma consciência, não só do que significa realmente carregar uma determinada identidade, mas também de como ser sensível ao impacto dessa mesma identidade. Ao longo das últimas décadas, temos tido uma mão cheia de professores de cor na nossa comunidade em geral dando muito de si no esforço de nos acordar, muitas vezes perante uma falta de vontade, de interesse e de compreensão entre professores e praticantes brancos.
Parte de mim chora pelo sofrimento que tudo isto perpetua, ao mesmo tempo que uma outra parte está esperançosa sobre a sanga e pelo que Martin Luther King, Jr. chamou de “comunidade amada”. Este legado de escravidão e genocídio nos Estados Unidos, as formas como as pessoas brancas ocupam um lugar de privilégio e de domínio a que somos tão frequentemente cegos, é muito específico. Envolve esforço saber o que aconteceu e qual o nosso papel nisso. Mas não se trata de envergonhar as pessoas. Na verdade, uma das coisas que eu acho mais inspirador sobre os maravilhosos movimentos que têm vindo a emergir, especialmente entre as comunidades de vanguarda que integram a Black Lives Matter, é o seu foco no amor. Para aqueles que combatem contra a opressão, o amor-próprio é uma força fundamental, o que constitui uma verdade para todos nós. A partir disso, precisamos amar, a nós e aos outros. Se enquanto brancos tivermos a coragem e a honestidade de reconhecer ao que estamos agarrados como forma de dominar e exercer os nossos privilégios, então também teremos de encontrar uma forma de nos perdoarmos. Não somos individualmente maus, fazemos é parte de um condicionamento coletivo. Mas, podemos ser responsáveis e dar as respostas que se apresentem necessárias.
Temos de compreender as especificidades e precisamos de nos envolver entre nós. No nosso centro dharma em Washington, D.C. temos comunidades afins: grupos de pessoas de cor onde é seguro processar os efeitos do racismo, e também grupos de afinidade brancos. Completei, recentemente, um programa de um ano com um grupo de consciência de gente branca, o qual teve um profundo impacto ao nível do meu autoconhecimento e na minha sintonia com os outros. Precisamos de espaços onde seja seguro falar a nossa verdade; e, depois, à medida que vamos amadurecendo uma capacidade para falar a partir da razão, precisamos estar uns com os outros em grupos racialmente mistos. Temos de ser capazes de identificar as nossas feridas, de conseguir dar nome aos nossos sofrimentos e medos, de não recear a ira. É frequente nas comunidades budistas a ira ser considerada como algo de mau, porém a ira faz parte do sistema emocional que se movimenta pela nossa psique. Temos de dar espaço a estas emoções e, para isso, existem formas sensatas de o fazer.
Temos, portanto, que nos envolvermos. As pessoas brancas precisam ser solidárias com aqueles que têm vindo a sofrer com a dominação branca. Precisamos passar para a sua “equipa”, não como forma de ajudar “o outro” mas porque isso nos vai libertar a todos. Isto significa que em vez de tentarmos trazer as pessoas de cor para os nossos centros, transformemos antes a nossa cultura. Estaremos a elevar-nos a nós próprios aos construirmos verdadeiras formas de relacionamento com as pessoas de cor e quando, através do nosso empenhamento enquanto aliados, apoiarmos ativamente iniciativas que desfaçam o racismo na nossa sociedade.
Fiz parte, recentemente, de uma equipa multirracial de professores num retiro budista que foi histórico relativamente à extensão da sua diversidade. Na noite de abertura, quando olhei à minha volta e vi que quase metade das pessoas presentes eram de cor, quando senti a fortuna de estarmos juntos e de partilharmos a intenção de despertar, comecei a chorar. Tudo em mim estava ciente: É esta a comunidade a que eu quero pertencer. 
O que é que nos cura? O que é que nos ajuda a despertar para esse espaço de comunidade amada? O dharma. Quanto mais atenção prestarmos, melhor reconheceremos o transe da separação; para alcançar esse grande anseio por comunhão e liberdade, há que começar a examinar as causas. Mas esse desejo tem que ser intencional; temos que querer entender todo o quadro do que aconteceu neste país e o que está, de facto, a moldar o nosso próprio sentido limitado de identidade. Precisamos de nos interrogar sobre “o que é que eu não estou a ver?” E se, de uma forma sincera, quisermos mesmo conhecer a resposta – se quisermos acordar – então iremos abrir os nossos olhos e os nossos corações. A libertação do sofrimento da separação começará a agir de modo a curar-nos do racismo e a descobrir a benção que constitui alcançar o nosso verdadeiro sentido de pertença de uns com os outros.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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