Quando ‘mindful’ é maionese, dieta, desodorisante… ainda tem algum significado?

Por Karen Heller | Nick Lowndes (ilustração)
in The Washington Post | 8 de abril de 2016  Ver artigo original
Jon Kabat-Zinn é o sr. Mindful. Ele vem sendo mindful desde a administração Johnson, há cinco décadas, muito antes do mindfulness ser um movimento, um desodorisante, uma maionese. E ainda um chá, o lema de uma cadeia de hamburguerias de Chicago, uma dieta…
Kabat-Zinn, 71 anos, fundador e antigo diretor-executivo da University of Massachussetts Medical School’s Center for Mindfulness in Medicine, Health Care and Society, é considerado o pai do movimento mindfulness moderno, uma prática baseada na meditação budista.
Kabat-Zinn é convidado para falar sobre mindfulness um pouco por todo o mundo, aquilo que ele define como “a consciência que emana a partir do prestar atenção ao momento presente, sem julgamento.”
Portanto, Kabat-Zinn parece ser a pessoa indicada a quem perguntar como é que o “mindful” se tornou a palavra da moda, aplicada ao pronto-a-vestir, ao chá e a uma série de livros para colorir para adultos. A cadeia “Epic Burger” produz “um hamburger mais mindful”, porque já não bastava a alface, o tomate e o molho Epica.
A isto, Jon Kabat-Zinn responde com um encolher de ombros: ”também para mim é um mistério.”
Certamente que ao longo do caminho nos fomos desviando nesta direção. Em 2012, o congressista Tim Ryan, do Partido Democrata, eleito por Ohio, escreveu um livro onde nos aconselhava a ser “A Mindful Nation” (uma nação mindful). Tal como fez, no ano passado, o Parlamento Britânico, ao recomendar o mesmo ao Reino Unido (Mindful Nation UK: Report by the Mindfulness All-Party Parliamentary Group).
Um número cada vez maior de estudos académicos – cerca de 700 durante o ano de 2015 -, analisaram os efeitos positivos do mindfulness em relação ao stress, ligações cerebrais e doenças crónicas, de acordo com a American Mindfulness Research Association, o que  naturalmente agrada a Jon Kabat-Zinn.
Já quanto à ubiquidade do adjetivo é uma outra questão…
“Isto não me deixa particularmente confortável. Quando uma coisa vira moda na nossa sociedade, todos se tornam peritos visando torná-la num produto comercializável para ganhar dinheiro”, diz Kabat-Zinn.
Porque é que nos tornamos tão mindful agora? “O stress explodiu nos últimos 35 anos. Estamos continuamente em modo multitarefa, fazendo malabarismos com milhares de coisas ao mesmo tempo. O mindfulness é uma forma de manter a sanidade”, afirma Kabat-Zinn, doutorado em biologia molecular.
Mas não foram os humanos desde sempre stressados? A Grande Depressão, a peste, a inquisição, revoluções, decapitações… tudo coisas stressantes.
Talvez a diferença resida no facto de estarmos agora conscientes do stress e, simultaneamente, mindful sobre o tempo e as horas de sono perdidos preocupados com ele. Embora possa parecer contraditório, temos tempo para nos stressarmos com o stress.
Talvez o nosso momento mindful possa ser o culpado, tal como acontece com tantos males da nossa sociedade, como os smartphones que deixam as pessoas – e o stress – disponíveis a qualquer hora. Daí, a necessidade de se estar mais presente e calmo e,  consequente, a proliferação de artigos mindful.
Ah! e há uma app para isso. Na verdade, existem mesmo montes delas.
Tara Healey é diretora do programa de aprendizagem baseada em mindfulness da Harvard Pilgrim Health Care, tendo prestado consultadoria a 150 empresas de Nova Inglaterra e a mais de dez mil trabalhadores a se tornarem mais mindful.
“Sinto-me feliz e entusiasmada com o facto da palavra mindful estar presente na nossa  cultura como nunca aconteceu antes, embora também me preocupe que o seu significado se possa diluir e perder a sua integridade. Está em toda a parte”, diz Tara Healey.
Quando uma palavra se torna omnipresente, “é como o dinheiro, quanto mais se imprime, menos valor tem. A palavra perde significado”, afirma Geoffrey Nunberg, professor de linguística da Berkeley’s School of Information da Universidade da Califórnia. “O que se passa com o mindful não é diferente do que acontece com a disrupção”, diz Nunberg, citando um termo também muito em moda. “Quando tudo é disruptivo, nada é disruptivo”, adverte.
A menção frequente do termo mindfulness – lançado sobre qualquer produto ou prática – não faz de nós seres mais mindful. “As pessoas têm uma crença absurda nas palavras como se elas fossem mágicas. Quanto mais gente usa a palavra mindful menos se distingue das outras pessoas, diz Nunberg.
Pat Croce é um tipo enérgico, fisicamente em forma e bastante eloquente. Construiu a sua fortuna com outlets de medicina desportiva, foi presidente dos Philadelphia 76ers (equipa de basketball), abriu na Flórida um museu do pirata e uma cadeia de restaurantes e bares sobre o mesmo tema.
Atualmente, Pat Croce despende cinco horas por dia em mindfulness. Tornou-se, praticamente, num trabalho a tempo inteiro: meditação, redação de um diário, respiração intencional, leitura, desenho de caracteres chineses, fazer tatuagens de caracteres chineses no pulso. “Durante 60 anos treinei o meu físico. Nunca fiz nada pela minha mente”, disse.
Em fevereiro último, Pat Croce e a sua mulher, Diane, doaram 250 mil dólares à sua alma mater, a West Chester University, situada nos subúrbios de Filadélfia, destinados ao estudo de mindfulness no Center for Contemplative Studies da referida universidade.
“Pode parecer uma fantasia, mas realmente estamos todos aqui. Todos nós somos mindful”, disse Pat Croce ao anunciar a doação. A sua esperança é que a mesma “aumente o sistema de avaliação de 18 créditos mínimos. “Gostaria de ver o mindfulness tornar-se numa disciplina nuclear do currículo escolar. Como a matemática”.
Mindfulness significa tanta coisa diferente, para pessoas diferentes.
Barry Boyce levou quase um quarto de hora para definir mindfulness – e trata-se do editor da “Mindful”, um site e uma revista bimensal dedicada ao tema.
“O espectro de interpretação é enorme. Pela nossa parte, deixamos às pessoas o descobrir por si o significado de mindfulness. Aqui apenas falamos de mindfulness. Nem sequer chegamos a definir mindful”, disse Boyce.
Mas isso não é uma mente mindful. “Não me importo. Não sou dono da língua inglesa. A minha função é que a “Mindful” continue a dar um sentido às pessoas que seja útil num determinado contexto das suas vidas”, explica Boyce.
E salienta que “há quem ache que tudo isto é fantasia – mais uma vez este termo técnico -, mas não tem que ser uma fantasia”, acrescenta Boyce.
Jon Kabat-Zinn, o sr. Mindful, está “resignado” com os hambúrgueres e os chás mindful, “a ubiquidade como efeito colateral de algo tão importante como o mindfulness. Dentro de um ano ou dois o elemento moda passará e as pessoas estarão viradas para a próxima novidade”, disse.
Entretanto, podemos encontrar a “Mindful magazine” na rede Whole Foods, juntamente com a maionese Earth Balance Mindful Mayo nas versões original, orgânico e azeite de oliva. 
Tradução de Raul C. Gonçalves

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s