O som do silêncio

O Som do Silêncio tem sido objeto de meditação usado amplamente por Ajahn Sumedho desde a sua chegada à Grã-Bretanha nos finais dos anos 70. Luang Por Sumedho, pertence à Tradição das Florestas da Tailândia do Budismo Theravada, tem vindo a ensinar o Som do Silêncio ao longo do seu tempo no Ocidente, principalmente desde os anos 90, encontrando nele uma forma eficaz de controlar os pensamentos e emoções da mente. O texto que se segue, foi retirado de uma série de palestras dadas por Ajahn Sumedho durante um retiro no Mosteiro Budista de Amaravati, a norte de Londres, em 2001, onde foi abade e fundador de 1984 até 2010, quando se retirou.
Por Ajahn Sumedho | Raul C. Gonçalves (foto)
Alguém se referiu ao som do silêncio como um hum cósmico, um cintilante e quase eléctrico som de fundo. Embora esteja sempre presente, geralmente não damos por ele; porém,  quando a nossa mente está aberta e em relaxamento começamos a ouvi-lo. Pessoalmente, acho isso muito útil, uma vez que para ouvi-lo e notá-lo temos que estar num estado de relaxamento e de consciência. Quando eu o descrevi, as pessoas tentaram encontrá-lo. Elas vão para retiros de dez dias à procura do som do silêncio e depois dizem: “Não consigo ouvi-lo, o que há de errado comigo?” Andam à procura dessa coisa. Mas não é uma coisa que devem procurar – é antes algo a que se devem abrir: é a capacidade para ouvir com a mente num estado de receptividade, é isso que torna possível ouvir o som do silêncio. Não se está à procura de resolver nenhum problema, apenas ouvir. Colocar a mente num estado de consciência receptiva. Consciência que corresponde a querer receber o que quer que seja; e é aí que uma das coisas que começamos a reconhecer é o som do silêncio.
Algumas pessoas ganham aversão ao som do silêncio. Uma vez, uma mulher começou a ouvi-lo e queria que ele parasse, portanto começou a resistir. Ela dizia: “Antes eu costumava ter meditações tranquilas. Agora tudo o que oiço é esse maldito som que eu tento parar. Nunca o tinha ouvido antes, agora mal me sento começo imediatamente a ouvir esse zzzz”. Essa mulher estava a criar aversão àquilo que está presente. “Eu não quero isso”. Ela estava a criar sofrimento à volta do som do silêncio. Mas o som do silêncio, em vez de criar sofrimento, pode nos ajudar a concentrar na mente, porque quando a mente está consciente dele, é porque se encontra num estado muito ampliado de consciência. Esse estado da mente é aquele que dá as boas-vindas ao que quer que emerja em consciência; não é um determinado estado onde excluímos alguma coisa. O som do silêncio é como o espaço infinito porque ele inclui todos os outros sons, inclui tudo. Concede um sentido de expansão, sem limites, infinito. Outros sons chegam e partem, transformam-se e movimentam-se, mas o som do silêncio é continuum, é um fluxo.
Uma vez, estava a orientar um retiro em Chiang Mai, no nordeste da Tailândia, numa linda estância de montanha, com uma cascata e uma ribeira. A sala de meditação tinha sido construída bem junto à ribeira, e o som da cascata era contínuo e bastante audível. Uma pessoa durante o retiro começou a ganhar aversão ao som da água: “Não consigo meditar aqui, é demasiado barulhento. O som da ribeira é demasiado alto, não consigo suportá-lo.” Tanto podemos ouvir e abrir a nossa mente ao som como podemos resistir – mas neste caso estamos a lutar e a resistir, o que cria sofrimento.
Eu notei o som da queda de água e da ribeira e o som do silêncio lá estava, em fundo. Na verdade, o som do silêncio tornou-se o mais forte e o mais perceptível mas não ocultava o som da ribeira; os dois sons trabalhavam em conjunto. O som da ribeira não escondia o som do silêncio.
É, portanto, como se se tratasse de um radar. A mente encontra-se num estado muito alargado e expandido de consciência: mais aberto e receptivo do que fechado e em controlo. Portanto, notem e contemplem esta experiência e depois basta concentrarem a vossa atenção no som do silêncio. Se pensarem nisso, pensem nele como uma bênção, uma graça, ou como uma sensação maravilhosa de estar aberto, e não como um buzz nos ouvidos, como se fosse um zumbido ou algum tipo de doença. Se começarem a contemplá-lo, ele tem o som dos anjos, é um som primordial, um som cósmico, abençoem cada momento em que estão abertos a ele e então vocês vão se sentir abençoados. Refletir desta forma, de uma forma positiva, ajuda-nos a observá-lo com interesse e a obter uma boa sensação.
Ao ficar a ouvir o som do silêncio, podemos começar a contemplar o não pensamento, porque quando apenas ouvimos o som cósmico os pensamentos não existem. É vacuidade, “não-eu”. Quando se está apenas sozinho com o som cósmico, existe tão só pura atenção, sem qualquer sentido de pessoa ou personalidade, do “eu” ou “meu”. Isto indica anattā.
Relaxem nesse som, não tentem forçar a vossa atenção nele. Mantenham apenas um sentido de relaxamento, de descanso e de tranquilidade. Tentem contar até dez para manter a atenção no som do silêncio: “um, dois, três… nove, dez”. A mente não está habituada a descansar desta forma, ela está habituada a pensar e a uma atividade mental sem descanso. Demora algum tempo até ela acalmar e relaxar, até repousar neste silêncio.
Dentro deste silêncio podemos também estar atentos a qualquer emoção que desponte. Não se trata de um vazio destruidor, não é um nada estéril, é sim algo pleno de abrangência. Podemos estar conscientes do movimentar das emoções, dúvidas, memórias e sentimentos à medida que eles despontam. O silêncio envolve-os; não os julga, não lhes resiste, nem tão pouco se deixa fascinar por eles. Apenas os reconhece e se apercebe de como eles são.
Temos a tendência para usar a palavra “som” nos termos em que a mente tem sido perceptivamente condicionada. Ligamos o som aos ouvidos. Eis a razão porque o som do silêncio é ouvido como se se tratasse de um zumbido nos ouvidos, porque a impressão de som está sempre ligada aos ouvidos. Mas podemos tapar os ouvidos e ainda assim ouvi-lo. Quando nadamos debaixo de água ainda o conseguimos ouvir. Do que é que se trata, então?
Começamos, portanto, a nos dar conta de que ele está em toda a parte e não apenas nos ouvidos. Esta percepção do som do silêncio como algo que se escuta nos ouvidos é a mesma percepção equivocada de que mente e cérebro são a mesma coisa. Estamos a mudar de um estado muito condicionado de experienciar a vida – o qual emana deste sentido de “eu” e dos comportamentos culturalmente condicionados a que estamos sujeitos -, para um entendimento muito mais vasto da realidade.
É tal qual a percepção da mente estar dentro do corpo. Através da consciência intuitiva podemos ver que é o corpo que está dentro da mente. Neste preciso momento, nós estamos na mente; todos vós, nesta sala, estão na mente. Do ponto de vista formal, para cada um de nós, a nossa mente está na nossa cabeça – vocês estão aí sentados com a mente na cabeça -, todas estas diferentes cabeças com mentes dentro delas. Mas, em termos de mente, a partir daqui do alto de onde estou sentado, eu vejo-vos com os meus olhos e vocês estão na minha mente, vocês não estão na minha cabeça. Eu não posso dizer que vocês estão todos no meu cérebro. A mente não tem limites.
Portanto, percebe-se que o corpo é como um rádio, como uma entidade consciente no universo que capta coisas. Nascer como uma entidade distinta no universo, somos um ponto de luz, um ser consciente num modelo próprio. Tendemos a nos assumir como pessoas físicas, sólidas e fixas, mas não seremos nós algo de maior – menos limitado, pesado e fixo de acordo com o que os nossos condicionalismos culturais fazem parecer ou como nós temos tendência a nos avaliar?
O som do silêncio não é meu, nem tão pouco está na minha cabeça, mas este modelo é capaz de o reconhecer e perceber as coisas como elas são. Este saber não é um conhecimento cultural; não é como interpretar tudo a partir do meu condicionalismo cultural; é ver as coisas como elas são, de uma forma direta, a qual não está dependente de qualquer comportamento cultural. Portanto, começamos verdadeiramente a compreender anattā, o “não eu”, aquilo que nos impede perceber que estamos todos ligados, todos um. Não somos, como parecemos, uma coleção de entidades totalmente separadas. Se considerarmos desta forma, começamos a expandir a nossa consciência no sentido de incluir em vez de definir.
Portanto, em termos de meditação, estamos a criar consciência no presente, recolhendo, recordando, contemplando, uma total concentração no presente: o corpo, a respiração, o som do silêncio. De seguida, podemos levar a isto uma atitude de metta (amor-gentileza), uma forma de relacionamento e de aceitação de determinados fenómenos sem qualquer julgamento. Sem esta atitude, temos tendência para fazer julgamentos de valor sobre aquilo que experienciamos a nível pessoal. Uma pessoa sente paz, a outra sente-se agitada, outros sentem-se inspirados, aborrecidos, alegres ou tristes; ou está-se a ter bons ou maus pensamentos, pensamentos estúpidos ou úteis, julgamentos sobre a qualidade da experiência que cada um está a ter. Em termos de conhecimento, estamos a perceber que os pensamentos são uma condição que surge e termina. Maus pensamentos ou pensamentos horríveis surgem e terminam, tal como acontece com os pensamentos bons. Não se trata de fazer juízos sobre quão mal se está porque se está a ter um mau pensamento; trata-se, antes, da capacidade para reconhecer os pensamentos e perceber que a sua natureza é impermanente, que muda, não é o “eu”. Portanto, por agora, usem apenas este hum cósmico, este gentil e cintilante fluir de som, tratem apenas de se familiarizarem com ele.
Por vezes, quando se trata de experiências a nível emocional podemos sentir em determinadas situações emoções extremamente fortes, tais como angústia e indignação – “não aturo mais isto; estou farto”. Quando isso acontecer entre no som do silêncio e conte até cinco, até dez, e veja o que acontece. Experimente, agora, neste preciso momento. “Estou absolutamente farto, chega!” Neste momento, parta em direção ao silêncio. Eu gostava de brincar com isto, quando ficava indignado ou exasperado, e ficava farto. Eu gosto da palavra “farto”, conseguimos dizê-la com uma convicção enorme.
Este som cósmico, o som do silêncio, é na realidade um som natural. É por isso que quando aprendemos a descansar com ele, é possível fazê-lo; não somos nós que o criamos. Não é como se estivéssemos a criar um estado mais sofisticado dependente de algumas condições de sustentação. Para sustentar qualquer estado elaborado há que ter condições muito aprimoradas. Não pode haver grosseria, barulho, ressonar, situações desagradáveis a acontecer e ainda assim manter um sentido de refinamento na mente. Para isso é preciso silêncio, algumas exigências, ausência de barulho, de distrações, discussões, guerras, explosões… apenas um cenário maravilhoso onde tudo é extremamente precioso e controlado. Quando penetramos nesse estado, podemos nos tornar muito preciosos. Todos sussurram entre si de forma gentil. Mas, quando alguém diz “agh” abala-nos imenso e ficamos mesmo incomodados porque nos tornamos muito sensíveis.
Em relação ao som do silêncio, podemos ouvi-lo onde quer que estejamos – no centro de Londres, num engarrafamento em Banguecoque, durante uma discussão mais acalorada com alguém, quando se muda o pneu do carro, se corta a relva, as motosserras trabalham todas ao mesmo tempo, mesmo quando há música. Constitui, por isso, um desafio aprender a detectá-lo e sintonizá-lo. Por vezes, há pessoas que dizem: “Não o consigo ouvir; está muito barulho”. Se ficarmos a resistir ao barulho não vamos conseguir ouvir o som do silêncio, mas se nos abrirmos a ele, então começamos a ouvir um subtil e cintilante hum, mesmo durante o rebentamento de um pneu do carro.
Ouvir o som do silêncio permite-nos integrar a meditação mindfulness no movimento, no trabalho, nos negócios. Se estivermos na cozinha a lavar a loiça, a andar até ao quarto ou a dirigir, é possível ao mesmo tempo ouvir o som do silêncio. Isso não nos deixa distraídos, pelo contrário, permite-nos estar absolutamente presentes ao que estamos a fazer; aumenta o nosso mindfulness. Ajuda-nos a lavar a loiça, a estar total e absolutamente com esse ato, em vez de estarmos ali a executar uma tarefa e a pensar noutra coisa qualquer. Ao andar até ao quarto, podemos estar a pensar não importa em quê; ao usar o som do silêncio isso ajuda-nos a estar com o andar, estar mindful e plenamente atento à ação que se está a desenrolar no momento presente.
Por vezes este som do silêncio torna-se muito alto e desagradável, mas não permanece assim durante muito tempo. Lembro-me, uma vez, dele ser incrivelmente alto, ensurdecedor. Pensei: “há alguma coisa errada”. Depois mudou e quando o tentei ouvir alto de novo já não consegui. Não se trata de nada perigoso. Depende como se olha para ele. Se lhe resistirmos ou formos negativos em relação a ele, aí estamos a criar uma reação negativa. Se estivermos relaxados e abertos, vamos sentir aquele suave cintilar em fundo que é pacificador, relaxante e tranquilo. Começa-se a reconhecer o vazio – não se trata de uma vaga ideia de que se praticarmos meditação um dia poderemos experienciar a vacuidade. Não se trata de algo meio vago, é antes muito direto.
E aí, nessa vacuidade, contempla-se o que é o “eu”. O que é que acontece quando nos tornamos uma personalidade? Começamos a pensar, a apreender as nossas emoções, e a partir daí tornamo-nos monge ou monja, homem ou mulher, uma personalidade, peixe ou carneiro, asiático, europeu ou americano, um velho ou uma jovem, etc. É através do pensar, do agarrar dos khandha (ver os “Cinco Agregados” do budismo) que começamos a despertar para isso, e aí tornamo-nos alguma coisa. Na vacuidade não existem nacionalidades. É inteligência pura; não pertence a ninguém nem a nenhum grupo. Começamos a conseguir reconhecer quando nos tornamos alguém e ninguém, quando existe attā (eu) e anattā (não eu).
Na vacuidade não existe o “eu”, não há nenhum Ajahn Sumedho. “Mas eu quero falar-vos sobre a minha história pessoal e sobre todas as minhas qualificações e realizações, sobre a minha vida santa ao longo dos últimos trinta e três anos. Sou abade de um mosteiro, sou considerado um VIB – A Very Importante Bhikkhu (um Bhikkhu muito importante), e eu quero que  me respeitem e me tratem adequadamente porque vão receber imensos méritos por serem gentis com uma pessoa de idade!” Este é Ajahn Sumedho! Ou então “vocês não precisam de me respeitar em absolutamente nada, isso é-me completamente indiferente, eu aguento se não gostarem de mim, se me criticarem, se encontrarem defeitos em mim. Não faz mal e até estou disposto a suportar tudo isso porque tenho feito imensos sacrifícios por todos vós. Mas isso é Ajahn Sumedho outra vez. Renascido e depois ido! Vazio.
Ao explorar isto percebemos o que significa attā, como nos tornamos uma personalidade, e mesmo quando não existe a pessoa ainda há consciência. Trata-se de uma consciência inteligente, não de uma estupidez desinteressante e inconsciente. Trata-se de um vazio claro, brilhante e inteligente. Transformamo-nos em personalidade através do aparecimento de pensamentos como: sentir pena pelo próprio, pelos seus pontos de vista e opiniões, autocensura e assim por diante e, de repente, para: eis o silêncio. Mas é um silêncio claro, brilhante e inteligente. Eu prefiro esse silêncio à tagarelice interminável que se multiplica na minha mente.
Antes possuía aquilo que chamava de “tirano interno”, um mau hábito que adquiri por estar constantemente a me autocriticar. Trata-se de um verdadeiro tirano – não há ninguém neste mundo que tenha sido tão tirano, crítico e desagradável para comigo do que eu próprio. Mesmo a mais crítica das pessoas, por mais que me tenha magoado e me feito infeliz, nunca ninguém foi tão impiedoso comigo como eu mesmo, como resultado desse tirano interior. Trata-se de um verdadeiro tirano desalmado. Faça o que fizer, nada é suficientemente bom. Mesmo que toda a gente diga “Ajahn Sumedho tens um desanā (discurso de darma) maravilhoso”, logo diz o tirano interior: “não devias ter dito isso, não disseste aquilo corretamente”. E por aí fora, num interminável e perpétuo discurso de crítica e de atribuição de culpas. E, no entanto, trata-se tão só de um hábito; libertei a minha mente desse hábito, ele já não tem base de sustentação. Eu sei perfeitamente do que se trata, já não acredito nele, já nem sequer tento me livrar dele. Eu sei como não o perseguir e o deixar simplesmente dissolver-se no silêncio.
Esta é uma forma de quebrar uma série de hábitos emocionais que atormentam e cegam as nossas mentes. Podemos, na verdade, treinar a mente, não através da rejeição ou da negação, mas pelo entendimento e pelo cultivar deste silêncio. Portanto, não o utilizem como uma forma de aniquilação ou para se livrarem daquilo que se apresenta enquanto experiência, mas antes como uma forma de solucionar e libertar a mente de pensamentos obsessivos e de comportamentos negativos capazes de atormentar incessantemente qualquer experiência consciente.
Tradução de Raul C. Gonçalves
in The Sound of Silence: The Ajahn Sumedho Antology, volume 4, pgs. 129-136
Amaravati Publications. 2004

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