O que é que faz de um budista budista?

Passei o inverno de 2012 em silêncio num retiro em Forest Refuge, um centro de meditação budista em plena Massachussetts rural. Este ‘blog’ quinzenal relata o dia a dia em silêncio e o quanto os longos retiros oferecem como rumo de vida.
Por Steven Schwartzberg*
in The Huffington Post | 17 de novembro de 2015  ver artigo original
Eis uma velha piada judaica: – Stan tinha naufragado numa ilha deserta. Dezenas de anos mais tarde é encontrado. Antes de deixar a ilha, foi mostrar às pessoas que o resgataram o que é que fazia para ocupar o tempo: “construí uma rua com várias cabanas, cada uma com um propósito.
“Esta cabana é onde eu como e cozinho”, aponta Stan. “A seguir é a biblioteca, com os livros que eu consegui salvar do naufrágio. Depois a sinagoga. A outra são os meus aposentos de dormir, com uma rede e alguns colchões. Segue-se a latrina e a lavandaria. Do lado, uma outra sinagoga. E, finalmente, a última cabana é o meu ginásio.”
“Estou espantado como conseguiu fazer tudo isto ”, disse o socorrista, “mas há uma coisa que eu não percebo: você esteve aqui sozinho, porquê duas sinagogas?”
Stan, apontando para a fila de cabanas, sussurra: “aqui entre nós, eu nunca poria os pés naquela sinagoga.”
Substituindo sangha por sinagoga, pergunto-me: o que é que faz de um budista um budista?
Sou um estudante de dharma (os ensinamentos do Buda) há 18 anos. Tenho vários retiros de silêncio, com meses de duração, em prática meditativa. Quando não estou em retiro, vivo voluntariamente segundo os princípios éticos do budismo. Enquanto guia para explorar a psique e o espírito humano, o budismo está entre o que de melhor consegui encontrar.
Mas, fará tudo isso de mim um budista? Não me considero como tal.
Em parte a minha dúvida reside no rótulo propriamente dito. Trata-se de um koan, um paradoxo. O budismo alerta contra qualquer apego, incluindo o religioso e o filosófico. Ensina igualmente que todas as identidades e definições pessoais são manifestações de avidya (ignorância). Intitular-se a si mesmo budista não será isso, portanto, algo fundamentalmente não budista?
Outra das minhas dúvidas é de origem doutrinária. Uma grande parte do budismo encontra eco em mim do ponto de vista intelectual, psicológico e espiritual. Mas não todo, inclusive – eis o busílis – alguns dos mais importantes princípios básicos em relação ao desejo, à paixão e às causas do sofrimento. Posso eu selecionar os ensinamentos de que gosto e ignorar aqueles que não encaixam na minha pessoa, especialmente quando se trata de questões fundamentais?
Haverá algum princípio sine qua non em relação a qualquer crença, sem o qual ninguém se poderá considerar um verdadeiro seguidor. A partir de onde começamos a balançar entre a hipocrisia e a auto ilusão? O que é que faz de cada um cristão, judeu, sufi? Identidade cultural? Autodefinição? Serendipidade ou destino pelo nascimento? Pode alguém ser cristão e não acreditar na ressurreição? Judeu e ateu ao mesmo tempo?
Quem decide? Que budismo?
Como em qualquer grande religião, há budistas cujas práticas e convicções divergem entre si tão radicalmente que torna-se quase bizarro estar a colocá-los no mesmo cesto. Segundo as várias linhagens, Buda foi para uns um homem, para outros um deus; os seus ensinamentos foram absolutos ou secretamente escondidos e codificados por sábios para aumentar o seu efeito muitos séculos mais tarde; Buda está mortalmente morto ou ele transcende a morte e existe eternamente num reino místico. Entre os budistas existem divergências fundamentais quanto à natureza básica da realidade, do caminho para o despertar, da definição de consciência, dos meios necessários à prática. Há budistas que acreditam no equivalente a uma venda de karma: podemos comprar o nosso caminho para uma reincarnação melhor através de donativos em dinheiro.
É o budismo uma religião, uma filosofia, uma teoria psicológica ou uma visão do mundo. A que cabana estamos a apontar?
Ou talvez tudo isto não passe de um monte de disparates e a minha hesitação em me assumir como budista seja pura covardia, com toda esta penugem filosófica a disfarçar convenientemente dois némesis pessoais: dúvida e resistência. Aqui, o mais importante é o compromisso; e, talvez, eu simplesmente não goste de me vincular a nada.
Ou, pelo menos, a nenhuma ideologia: quando toca à prática da meditação propriamente dita eu sou bastante firme. Medito todos os dias, por vezes duas vezes e faço longos e intensos retiros. Quando me refiro à qualidade deste meu comprometimento, costumo descrevê-lo como casamento. A meditação é o meu único compromisso puramente opcional que eu honro.
Estou consciente da discrepância entre o meu abraçar da prática versus as minhas reservas em relação à doutrina, sobretudo porque a minha prática está alicerçada e é moldada por esses ensinamentos. No entanto, o facto de reconhecer essa discrepância não a resolve, e a forma como eu tento lidar com isso altera-se amiúde: uma vezes estou aberto outras rebelo-me; tento decifrar qual o melhor caminho; fico desanimado; desinteresso-me.
No entanto, a maior parte das vezes parece-me irrelevante. Eu medito enquanto estudante da consciência humana, no sentido de inclinar o meu coração na direção da bondade e da generosidade, para expandir a minha tolerância ao encontro da vida como o koan sem fim que ela é. Sento-me em silêncio durante meses a fio para ficar para além do perturbador ruído do dia a dia, para ouvir o sussurrar escondido debaixo do discurso social e o clamor da mente que pensa.
Vou buscar conforto no convite do Buda de ehipassiko: para examinar se os ensinamentos de dharma fazem sentido para mim. Às vezes, desejo que todos eles façam sentido ou que eu me permita à rendição pessoal necessária à mais profunda e corajosa viagem ao interior da fé. Até agora, esse não tem sido o meu caminho. Dezoito anos envolvido na prática de dharma e um surpreendente número de julgamentos sobre os fundamentos do budismo ainda apoquentam a minha mente. Não sei quando – se alguma vez – o juri vai chegar a um veredicto satisfatório.
Tradução de Raul C. Gonçalves
*Psicanalista clínico, estudante de Darma e nómada intencional

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