McMindfulness não é panaceia

 

O relatório interpartidário do Parlamento Britânico sobre os benefícios do mindfulness constitui uma referência para os legisladores do mundo desenvolvido: esta ‘forma de ser’ não é uma solução instantânea.

Por Jon Kabat-Zinn
in The Guardian | 20 de outubro de 2015

O mindfulness está rapidamente a tornar-se um fenómeno global, alicerçado cada vez mais por rigorosa investigação científica, e conduzida em parte por um anseio por novas práticas que nos possam ajudar a compreender melhor e resolver os desafios que se colocam à nossa saúde.

Esta semana, um relatório histórico irá deixar recomendações no sentido da implementação do mindfulness em várias áreas da política pública britânica.

O “Mindful Nation UK”, baseado em resultados apresentados por uma comissão interparlamentar do Parlamento, carrega uma enorme esperança para os serviços de saúde da Grã-Bretanha e do mundo.

A Organização Mundial de Saúde já chamou a atenção para o facto de que as doenças do foro mental serão as que terão mais peso no mundo desenvolvido em 2030. Precisamos, urgentemente, de novas abordagens para combater esta epidemia, sendo crucial novas investigações capazes de determinar a eficácia do mindfulness como estratégia preventiva. Entretanto, a prática de mindfulness já mostrou ser capaz de reduzir para um terço o risco de reincidência da depressão recorrente.

Uma metanálise recente sobre 209 estudos concluiu que a intervenção baseada em mindfulness mostrou “efeitos de grande impacto e clinicamente significativos” no tratamento da ansiedade e da depressão, efeitos esses que, há que realçar, foram mantidos ao longo de todo o acompanhamento do estudo. Estas são conclusões muito promissoras em relação a um estado clínico para o qual ainda só dispomos de um tratamento limitado. A necessidade de um aprofundar dos conhecimentos sobre o efeito do mindfulness nestes resultados positivos, assim como do seu contributo em relação a outras condições de saúde, encontra eco na recomendação a mais investimento em investigação científica de alta qualidade.

O mindfulness é muitas vezes mal compreendido, portanto vamos ser claros sobre o que é que estamos a incentivar.

Na sua essência, o mindfulness – tratando-se de atenção, consciência, inter-relação e afeto – constitui uma capacidade humana universal comparável à nossa habilidade para aprendermos um idioma. Trata-se de uma forma de ser e de estar, de forma sensata e intencional, num relacionamento com a nossa própria experiência, tanto interior como exterior, connosco e com o outro. Há, portanto, intrinsecamente uma dimensão social no cultivar desta forma de ser. Ela envolve, no geral, desenvolver um sentido de familiaridade e intimidade com vários aspectos da nossa experiência do dia-a-dia, os quais normalmente damos como garantidos.

Isso inclui a nossa experiência do momento presente: o nosso corpo, os nossos pensamentos e emoções e, acima de tudo, as nossas premissas implícitas e limitadoras , os nossos hábitos altamente condicionantes da mente e do comportamento, quer enquanto indivíduos quer em relação à sociedade como um todo.

Embora a maior parte do método e da sua articulação ao mindfulness emane da tradição budista, o mindfulness não é um catecismo, uma ideologia, uma crença, uma técnica ou um conjunto de técnicas, uma religião ou uma filosofia. A melhor forma de o definir é como “uma maneira de ser”. Existem muitas maneiras diferentes de o cultivar, com sabedoria e eficácia, através da prática. Quando falamos de mindfulness, estamos basicamente a falar de consciência, de pura consciência – uma capacidade inata dos humanos, diferente mas totalmente complementar do pensar.

É “maior” do que pensar, porque qualquer pensamento pode ser executado em consciência e assim ser encarado, explorado e compreendido. A consciência, na sua forma mais pura, tem em si o potencial de acrescentar valor e novos níveis de liberdade a uma vida mais plena e sábia e, consequentemente, a fazer escolhas mais sensatas e saudáveis, opções com mais compaixão e altruísmo.

Nos últimos 40 anos, o mindfulness, nas suas várias variantes, tem percorrido o seu caminho até ao “mainstream” da medicina, cuidados de saúde e psicologia, áreas onde tem sido amplamente aplicado e onde continua a ser exaustivamente estudado através de investigações nas áreas clínica e da neurociência. Mais recentemente generalizou-se também na educação, negócios, direito, administração pública, treino militar (nos EUA) e justiça, entre outros. As conclusões do “Mindful Nation UK” sugerem que o mindfulness tem capacidade para dar resposta a alguns dos maiores desafios que se colocam nas áreas da saúde, educação, trabalho e sistema judicial, apelando para isso a recursos internos que todos possuímos mas que estão, em grande parte, subdesenvolvidos.

Muitos desafios colocam-se à nossa frente. Como alguns críticos têm corretamente sublinhado, é necessário um verdadeiro entendimento das subtilezas do mindfulness para que possa ser ensinado corretamente: nunca poderá ser uma solução instantânea. Algumas pessoas têm mostrado preocupação de que um certo tipo de “McMindfulness” superficial se esteja a espalhar, o qual ignora os fundamentos éticos das práticas meditativas e das suas tradições de onde o mindfulness emerge, divorciando-se do seu profundo potencial transformativo. Embora, segundo a minha experiência, tal esteja longe de constituir a norma, essas vozes argumentam que para alguns oportunistas o mindfulness transformou-se num negócio destinado a desapontar consumidores vulneráveis que o procuram como uma panaceia.

Para dar resposta a esta questão são necessários fundos por forma a obter-se resultados de grande qualidade que acompanhem o alargamento da popularidade do mindfulness, para estabelecer e disseminar as melhores práticas, para formar professores e para identificar e apoiar de forma correta aqueles que mais necessitam de ter acesso a programas apropriados de mindfulness. As autoridades e os organismos públicos têm um papel crucial a desempenhar na melhoria do acesso aos melhores cursos, apoiando o desenvolvimento da formação de professores e continuando a subir a fasquia da investigação científica de grande qualidade.

O grupo interpartidário sobre mindfulness do Parlamento Britânico e a seu inquérito “Mindful Nation UK”, após ouvir evidências relatadas pelos mais proeminentes cientistas, praticantes, responsáveis de serviços e decisores políticos, faz claras recomendações, baseadas no rigor e na relação custo-benefício das medidas, no sentido do desenvolvimento do potencial do mindfulness. Como tal, o Reino Unido poderá servir de modelo a legisladores e especialistas no desenvolvimento de inquéritos similares noutros países.

Se a génese única do relatório “Mindful Nation UK” como um esforço colaborativo interpartidário for reconhecido e as suas recomendações para mais investigação e implementação forem seguidas pelo governo e organismos, não tenho qualquer dúvida de que as repercussões e ramificações deste relatório britânico serão profundamente benéficas. Na verdade, serão dirigidas à raiz de alguns dos problemas mais prementes da sociedade – ao nível da mente e do coração humano.

http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/oct/20/mindfulness-mental-health-potential-benefits-uk

 

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