Comer com mindfulness na escola para prevenir disfunções alimentares

Por Juli Fraga
in The Washington Post | 16 de Março de 2016
Na Waddell Language Academy, uma escola que abrange crianças desde o jardim de infância até ao 8º Ano, na Carolina do Norte, Monica Mitchell-Giraudo, professora de francês do ensino médio, orienta 19 alunos do 6º Ano a reunirem-se num círculo. “Vamos lá fazer algumas respirações com atenção plena e vamos pensar na nossa gratidão para com a Amy que nos trouxe maçãs para o lanche” – começa. “Ao fazerem as respirações tentem sintonizar com o vosso corpo. Que sensações é que notam?”
– “Eu noto que o meu estômago já está a rosnar”, ri Ben
– “Eu estou com água na boca”, exclama David.
Depois de David, segue-se outro aluno e depois mais outro, até terem completado o círculo. Após ter ouvido todas as observações, Monica Mitchell-Giraudo toca o sino tibetano de meditação, após o que as crianças permanecem quietas.
De seguida, a professora orienta os alunos a segurarem e a examinarem as maçãs. Primeiro, pegam no fruto e rolam-no entre os dedos; depois – seguindo a sua orientação -, levam as maçãs junto ao nariz, usando o seu sentido de olfato para apreciarem o aroma frutado do lanche, antes de darem a primeira dentada.
“Excelente!”, exclama Monica Mitchell-Giraudo. “E, não se esqueçam, antes de começarem a comer a maçã perguntem-se a vocês mesmo: ‘estou com fome ou não?’ – ao que as crianças acenam com a cabeça em sinal de compreensão. “Lembrem-se que vocês não têm que comer se o vosso corpo não vos estiver a mandar um sinal de fome”, diz a professora.
Estas crianças estão a aprender uma prática chamada “comer com mindfulness”, focada no cultivar da “consciência do momento presente” durante as refeições. O comer com mindfulness convida os participantes a “prestar atenção” à comida que está à sua frente e a lhe dedicarem os cinco sentidos – visão, olfato, audição, paladar e tacto – antes de começarem a comer. Esta prática de atenção plena constrói nas crianças uma consciência sobre alguns importantes sinais físicos, tais como fome e saciedade.
Ao mesmo tempo que o comer com mindfulness está cientificamente provado que ajuda a prevenir o comer em excesso e a obesidade, um novo estudo de psicologia aponta para a possibilidade de igualmente prevenir disfunções alimentares, como a anorexia e a bulimia, patologias que afetam 30 milhões de pessoas por ano e que são das doenças mais mortais do fórum psiquiátrico.
A Associação Nacional de Disfunção Alimentar, dos Estados Unidos, afirma: “Em jovens mulheres, com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos, a anorexia é doze vezes mais mortal do que todas as outras causas nesta faixa etária. Apenas um em cada dez casos de disfunção alimentar, as doentes recebem tratamento específico, o que realça a importância dos programas de prevenção.”
De acordo com os investigadores em disfunção alimentar, Michael Levine e Linda Smolak, do Kenyon College, “haver crianças e adolescentes a participarem em programas de prevenção, como comer com mindfulness, pode protegê-los da anorexia, da bulimia ou de disfunções por consumo excessivo de comida.”
As reações tão positivas em relação à vida por parte das crianças participantes no programa é o melhor testemunho sobre quanto estes novos conhecimentos estão a ajudá-las.
“Comer com atenção plena ajuda-me a respeitar a comida que meto dentro do meu corpo”, declara Jamie, uma estudante do ensino médio, aluna de Monica Mitchell-Giraudo. “Posso fazer melhores opções” – diz ela – “porque quando baixo o meu ritmo para comer, consigo perceber quais os alimentos que estão carregados de ingredientes artificiais e quais são orgânicos.”
“Comer com mindfulness ensina as crianças a conectarem-se com os seus sinais corporais e a comer de forma intuitiva”, afirma Kelsey Latimer, psicóloga especialista em disfunção alimentar, no Center for Pediatric Eating Disorders and Childre’s Health, em Dalas. “Esta forma intuitiva de comer ajuda-nos a distinguir entre fome física e fome emocional, o pode auxiliar a reduzir o excesso e a compulsão do consumo de alimentos.
Embora o comer com mindfulness venha sendo usado em várias áreas da medicina e em centros de tratamento para a disfunção alimentar, levar esta prática para dentro das salas de aula como ferramenta preventiva é um conceito novo.
“Estes programas servem de tampão ao crescimento da disfunção alimentar” – afirma Kelsey Latimer -, “principalmente quando levados a cabo nos últimos anos do ensino médio. Trata-se de um período crucial, quando os estudantes vêm sendo expostos à mensagem social do que é “in”, mas a maior parte ainda não manifesta disfunção de hábitos alimentares para conseguir um corpo mais magro.”
Monica Mitchell-Giraudo, ela própria formada no programa “Mindful Schools”, concorda com Kelsey Latimer. “É fantástico observar os meus alunos envolvidos durante 45 minutos a comer com atenção plena, principalmente quando eles costumavam devorar a comida em menos de dez minutos”, diz ela. “Ao baixarem o seu ritmo, os miúdos aprenderam a distinguir a diferença entre sabores autênticos e artificiais” – diz Monica Mitchell-Giraudo -, “e este conhecimento ajuda-os a fazer escolhas mais saudáveis de comida .”
Penelope diz-se agradecida por ter aprendido esta educação prática para a vida. “Comer com mindfulness  é uma grande maneira de comer porque nos ajuda a sentir bem connosco” – diz. “Tem-me ajudado a pensar no que é que eu ponho dentro do meu corpo, o que me ajuda a crescer mais forte e, também, a ser melhor no desporto.”
Embora a altura ideal para introduzir programas de prevenção da disfunção alimentar seja durante o ensino médio, também os alunos do secundário podem aproveitar tanto quanto os mais novos.
Aggie Giglio Kip, nutricionista na Phillips Academy em Andover, Massachussetts, incorpora o comer com mindfulness com os seus alunos no refeitório.
A cantina “self-service” fervilha com o burburinho à medida que os jovens recolhem os talheres, a comida e a bebida. Uma vez sentados para comer, Aggie Kip sugere-lhes que se desliguem das outras distrações, o que significa desligar telemóveis e computadores portáteis. “O tempo das refeições são uma oportunidade para praticar “apenas comer”, diz ela.
Aggie Kip sugere-lhes “comer sem julgamento”, absterem-se de qualquer linguagem corporal negativa e evitarem calcular a sua autoestima em função da comida que escolheram. Este ponto é importante, uma vez que muitos deste jovens debatem-se com mudanças sociais e emocionais próprios da adolescência, inclusive insatisfação com a sua imagem física.
Quando, por exemplo, Aggie Kip ouve estudantes dizerem coisas como: “odeio as bolachas – eu fui tão mau”, um sinal de alarma de linguagem corporal negativa, ela insiste para que eles redefinam a experiência, através do uso dos sentidos para descrever os sabores presentes na bolacha. Por exemplo, se uma aluna sente culpa por comer bolachas de aveia com passas, Aggie Kip pede-lhe para que ela se concentre e descreva o aroma e o sabor da canela, da aveia e das passas.
Infelizmente, a oferta deste tipo de cursos é escassa, uma vez que muitos pedagogos e administradores escolares são da opinião que os programas sociais e emocionais são demasiado caros ou demoram muito tempo a implementar. Em muitas escolas, professores e ajudantes de educação estão saturados, exaustos e mal remunerados. Para reduzir custos e minimizar questões de pessoal, há escolas a trazer programas de prevenção e/ou de treino de liderança para dentro das escolas, como o programa “Body Positive”, criado por Connie Sobczak e Elizabeth Scott. O programa treina professores, auxiliares de educação e pessoal administrativo nos princípios do mindfulness e do comer intuitivo, ensinando uma série de exercícios auto explorativos, os quais os ajudam a examinar as suas emoções e comportamentos sobre comida e peso – informação essa a ser, posteriormente, retransmitida aos alunos.
Kathy Laughlin, diretora de aconselhamento na San Domenico High School, em San Anselmo, Califórnia, é fã do “Body Positive”. “Os factores de risco de disfunções alimentares na minha escola são muito elevados” – diz ela. “Desde que começamos a aplicar este programa, deixei de encontrar tantas raparigas com problemas relacionados com aversão corporal.” Tal como demonstram as evidências, a implementação da prática de comer com mindfulness é uma das melhores formas de ajudar os estudantes a desenvolverem uma sã ligação mente-corpo – uma ligação que os irá fortalecer nos anos futuros.

Tradução de Raul C. Gonçalves

https://www.washingtonpost.com/news/to-your-health/wp/2016/03/16/how-schools-are-using-mindful-eating-to-help-prevent-eating-disorders/

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