O refluxo e o fluxo do Sofrimento. Cuidar com auto-compaixão

Quando estava a fazer pesquisas para o meu mais recente livro, Real Love, tive a oportunidade de conversar com centenas de alunos meus em todo o mundo sobre o que significava para eles, o amor – amor próprio, amor pelos amigos e familiares, amor romântico, amor parental, amor em todos contextos.
Por Sharon Salzberg
in Garrison Institute | 28 Dezembro 2017  ver artigo original

Em muitas dessas conversas, surgiu o tópico de “largar”. Em todas as áreas da vida, enfrentamos a experiência necessária, mas difícil, de ter que aceitar as coisas como são. E isto também é verdadeiro no amor, assim como em qualquer outra coisa. Quando investimos os nossos corações em nós mesmos e nos outros, temos que praticar a aceitação e reconhecer a necessidade de abandonar o controlo sobre as nossas emoções, aquelas que amamos e a nossa relação com essas emoções.

Quando voltei a Nova York passei algum tempo com um amigo que estava, há algum tempo, a lutar contra problemas de saúde mental. Nessa semana em particular, o meu amigo estava no hospital a viver uma fase de sofrimento psicológico agudo. Eu queria tanto ajudá-lo, mas senti-me impotente. Outros amigos passaram por lá para trazer flores, presentes e palavras de sabedoria – e eu desejava desesperadamente fazer o mesmo, poder fazer alguma coisa para mudar a forma como se estava a sentir e para alterar o seu sofrimento.

À medida que o meu impulso para alterar a situação do meu amigo se intensificou, falei com um dos meus professores tibetanos à procura das minhas próprias palavras de sabedoria. “Como é que eu o ajudo?”. O conselho do meu professor foi simples: “Pare de tentar.” Escutei seu conselho e respirei.

O meu professor não  quis dizer que eu deveria parar de cuidar do meu amigo ou da sua dor, mas parar de fixar-me no desejo de controlar algo completamente fora do meu controlo. “Parar de tentar” era uma forma radicalmente simples de me encorajar a praticar compaixão sem apego. Essa aceitação seria um ato de generosidade – tanto para com o meu amigo, com quem eu aprendi a estar, como para mim mesma. Reconhecer a situação, e minha resposta a ela, pode ser um ato de amor por si só, o oposto do desejo de controlar.

Ao longo de vários anos, tenho orientado retiros de meditação para cuidadores, e continuo a sentir este trabalho como fascinante e desafiador. Médicos, enfermeiros, capelães, professores, trabalhadores de hospitais psiquiátricos – profissões que efetivamente exigem “largar” como parte do seu trabalho. Para que seja sustentável e equilibrado, os cuidadores não se podem esquecer de cuidar de si mesmos no processo de cuidar dos outros. O fundamento deste equilíbrio é a aceitação e a auto-compaixão. Não nos tornamos indiferentes ao sofrimento – nos outros ou em nós mesmos. Mas, reconhecemos a necessidade de diminuir o nosso controlo e aceitar as situações com que nos preocupamos, sem sentir a necessidade de controlá-las ou corrigi-las. Esta é uma prática contemplativa, que nos permite aproximar ainda mais do sofrimento dos outros, sem nos focarmos em alterar esse sofrimento e sem ficar em stress. Em resposta ao cuidado que damos, recebemos alegria o que nos sustenta mesmo nos momentos mais difíceis.

A psicóloga Kristin Neff centrou a sua pesquisa clínica na auto-compaixão e conceptualiza-a em três dimensões, todas essenciais para os cuidadores. A primeira a auto-bondade, que inclui o auto-perdão – dando-nos um espaço quando ficamos aquém do que imaginamos para nós mesmos. A segunda é a consciência – especialmente reconhecendo que quaisquer erros cometidos, ou o trabalho que não fizemos, fazem inevitavelmente parte do ser humano. A última é mindfulness, reconhecendo os desafios à medida que eles surgem, e praticando a aceitação repetidas vezes, criando resiliência ao cultivar a compaixão.

O Buda ensinou que em todas as experiências de prazer, lucro, louvor e fama são encontradas experiências correspondentes de dor, perda, culpa e desrespeito. Estes estados correm e fluem como o mar, ou flutuam de um lado para o outro como o vento. Recordarmos isto, pode ajudar a ensinar a sabedoria da equanimidade. Quando somos capazes de ver as alegrias e os desafios de cuidar dos outros, conseguimos ver algo maior do que nós mesmos. Somos parte de um ecossistema maior e podemos ver as nossas necessidades como parte do seu funcionamento. Podemos dar a partir de um lugar de plenitude interior, em vez de um lugar de penúria. Com equanimidade, podemos experimentar o que é sentir a pura generosidade – dando sem necessidade de receber dos outros, porque construímos os alicerces de cuidar de nós mesmos.

 

Tradução de Joana Sampaio Carvalho

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