Mindmatters Magazine | Inverno 2018

Já poderá ler a edição de inverno de 2018. Veja aqui o editorial:

Mindfulness ou “mindfitness”?

Por Raul C. Gonçalves

Se há coisa que não falta actualmente no Ocidente é oferta de cursos de mindfulness. Nas empresas, nas escolas, nos serviços de saúde, nas forças armadas (por ar, por terra e por mar); para adultos, para idosos, para gestantes, para crianças. A oferta é mais do que abrangente.

Mas aquilo que à primeira vista parece ser positivo (e em muitos casos é), quando olhamos mais de perto para algumas situações não podemos deixar de ficar, no mínimo, apreensivos. Mindfulness como parte do treino de forças especiais de combate (e não me estou a referir ao tratamento do stress pós-traumático de guerra)? Como é que é possível? Empresas como a Goldman Sachs, um dos principais responsáveis pela crise do subprime de 2007 e consequente crise financeira mundial de 2008, a mesma instituição que, entre 2004 e 2010, aconselhava o governo da Grécia na ocultação da sua dívida pública, oferecem cursos de mindfulness aos seus empregados (perdão, “colaboradores”)? Mas com que propósito?

A palavra mágica parece ser “stress”. Eliminar o stress inconveniente. Trabalhadores mais produtivos e menos reivindicativos, militares mais focados e eficientes. Todos stress free. Desconfio que este mindfulness pouco ou nada tenha a ver com as suas origens no budismo ou com a sua secularização conforme pensada por Jon Kabat-Zinn.

O último grande boom são os cursos de formação de formadores mindfulness. Existem em profusão, alguns deles sabe-se lá com que origem, onde os requisitos dos formandos são mínimos e as propinas não tão mínimas.

Mas o que é que tudo isto tem um comum? O facto de todos colocarem a tónica num mindfulness não apenas secularizado mas totalmente higienizado de qualquer traço com as suas origens filosóficas. É um mindfulness limpinho e pronto a servir, de consumo e digestão fácil. Um mindfulness destituído, ou no mínimo muito aligeirado, de preocupações de ética e compaixão.

Mas o que fica do mindfulness depois de lhe ser retirado a sua dimensão ética e moral, o que é mindfulness sem compaixão? Um somatório de técnicas de respiração, de relaxamento e de foco de atenção. É um novo tipo de fitness, é como correr na passadeira ou levantar pesos, tudo free de preocupações filosóficas e existenciais.

O que está a acontecer ao mindfulness lembra, e muito, o que se passou com a massificação do yoga no Ocidente na segunda metade do século XX. Com a entrada do mindfulness no mainstream, estará ele também reservado a ser absorvido e massificado em ginásios, encaixado entre o Body Step e o Body Pump? O mindfulness secular parece estar numa encruzilhada onde nem todos os caminhos vão dar a Roma.

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