Como passar da culpa à solidariedade

Por Tara Brach | Pieter Musterd (foto)

Fruto do nosso processo evolutivo, existe uma tendência negativista que nos marca: trata-se de um hábito orientado pela nossa necessidade de sobrevivência de procura e fixação naquilo que achamos estar errado. Na sociedade contemporânea, esse alvo perverso reflete-se no nosso próprio sentido de imerecimento. Por hábito, fixamo-nos no quão aquém estamos: nas relações sociais, no trabalho, na aparência física, no estado de humor ou no comportamento. E embora o primeiro reflexo disso seja um sentimento de auto-aversão, há igualmente uma fixação nos defeitos dos outros, em como eles nos desiludem, como estão errados, como são maldosos ou como deviam ser diferentes. Quer estejamos focados no nosso interior ou no que nos é externo, estamos a criar um inimigo, aprisionando-nos a nós próprios num sentido de um ‘eu’ separado e ameaçado.

Embora essa tendência seja uma peça fundamental do nosso sistema de sobrevivência, quando ela se torna dominante no nosso dia-a-dia perdemos acesso às partes mais recentes da evolução do cérebro ligadas aos sentimentos de conexão, empatia e bem-estar. O que é que pode ajudar-nos no “descondicionamento” dessa tendência? Como passar da reactividade emocional límbica a uma atitude de “estar presente e ser amigável”. Eis três maneiras que podem ajudar a despertar todo o nosso potencial para uma presença naturalmente atenciosa e solidária:

Procurar as vulnerabilidades

A primeira coisa que podemos fazer é dirigir o nosso olhar em direcção às vulnerabilidades – começando pelas nossas. Quando estamos num processo de culpabilização pessoal, devemos colocar as seguintes questões: “O que é que está realmente por trás disto? O que é que me leva a comportar assim?” A resposta pode estar num receio de falhar, cujo medo nos leva a agir precisamente da maneira oposta que queremos; ou pela procura por aprovação, devido a um sentimento de insegurança, levando-nos a agir de forma menos íntegra e contrária à nossa natureza. Quando passamos a entender que há algo em nós que está a doer, acabamos por abandonar de forma natural os sentimentos de culpa, abrindo-nos à compaixão por nós próprios.

507 Tara Brach.png Tara Brach

Quando a sensação de vulnerabilidade for despoletada por terceiros, devemos começar por levar uma presença gentil a esse sentimento; depois, quando nos sentirmos mais presentes e equilibrados, há que procurar entender o que é que poderá ter estado na sua origem. De que forma poderá essa pessoa ter sido apanhada, ela mesmo, pelos seus próprios sentimentos de insegurança, insuficiência ou confusão? Se conseguirmos reconhecer o sofrimento do outro, tornamos possível voltar a conectar-nos com ele com carinho e atenção.

Mostrar compaixão de forma efectiva

Quando a compaixão emerge, o passo seguinte é expressá-la de forma efectiva. É isso que lhe dá vida. Se é a autocompaixão que estamos a trabalhar, devemos procurar aquilo que em nós está mais vulnerável, aquilo que mais está a precisar da nossa atenção. Será perdão? Aceitação? Camaradagem? Segurança? Amor? Então, a partir de um lado mais sábio e amoroso do nosso ser, oferecemos a nós próprios aquilo que sentimos ser o que mais necessitamos. Podemos dizer mentalmente ou num murmúrio o nosso nome e enviar a nós próprios uma mensagem amorosa, de que não iremos abandonar-nos, que estamos envoltos em amor: “eu estou aqui; és importante para mim”.

Se estivermos a trabalhar a compaixão com o outro, é poderoso e curativo comunicar-lhe, não só o nosso reconhecimento quanto ao seu sofrimento, mas como ele nos é importante. Todos sabemos como comunicar o nosso amor a alguém que amamos; o simples dizer claramente amo-te, é uma forma capaz de levar esse amor a uma nova dimensão. Para inverter a nossa tendência negativista em relação a alguém – hábitos de culpabilização e de distanciamento – devemos procurar as suas vulnerabilidades para, depois, directa ou mentalmente, oferecer-lhe uma mensagem de compreensão e simpatia.

Incluir aqueles que nos parecem diferentes

Parte da nossa tendência negativista – e que está por trás de muito preconceito racial, religioso e de outras formas de violência -, advém do processo de associação de potenciais perigos (alguma coisa errada) com aqueles que nos são diferentes. A prática para nos envolvermos – a nós e a toda a sociedade – rumo ao amor inclusivo é aprofundar, de forma intencional, o nosso relacionamento com aqueles que nos são diferentes. Ao comunicarmos intencionalmente, tentando entender as diferenças, abrimo-nos à verdade maior da nossa interligação.

Embora o nosso cérebro tenha uma resposta de “luta, fuga ou congelamento”, possui também uma rede de compaixão que inclui neurónios-espelho que nos permite registar aquilo que os outros sentem. Conseguimos detectar como os outros desejam sentir-se queridos, amados, em segurança e felizes. Quando sentimos essa conexão, isso permite-nos agir em prol de cada um individualmente ou da comunidade em geral. Mas, a menos que façamos deliberadamente uma pausa para ouvir o que é diferente, essa parte do nosso cérebro não vai ser envolvida. Para termos esses “diálogos do coração”, precisamos criar de forma intencional “bolsas” seguras de consciência.

Da mesma forma que treinamos sentados na almofada de meditação, podemos exercitar entre nós uma comunicação consciente, abrindo gradualmente o nosso círculo de forma a conectar-nos com aqueles que nos são mais marcadamente diferentes. Existe uma grande variedade de práticas, como o diálogo insight, a comunicação não-violenta e os círculos de reconciliação, os quais oferecem uma estrutura formal de comunicação. De realçar a importância da prática dentro do nosso círculo mais restrito (por exemplo, o meu companheiro e eu meditamos em conjunto duas vezes por semana, seguindo-se um período de silêncio e reflexão sobre questões como “do que é que eu estou grata neste momento?; o que é que se apresenta difícil agora?; existe algo que se esteja a interpor a um fluir aberto e amoroso entre nós?”, ao que o outro escuta com uma atitude gentil e de aceitação, para finalmente verbalizarmos ambos aquilo que estamos a experienciar).

Mas, e quanto àqueles que não mostram interesse em dialogar? A nossa capacidade de sentir conexão não está, felizmente, dependente da sua capacidade para se conectarem connosco. É claro que é mais fácil sentir uma ligação quando existe reciprocidade, mas mesmo quando não é esse o caso ainda assim podemos oferecer o amor do nosso coração. E a ciência mostra que este tipo de atenção desperta a parte do nosso cérebro responsável pelo sentimento de compaixão. É possível fazer isto em todas as situações, com qualquer pessoa que conhecemos.

É natural sentir-se perante a dor, a injustiça, a decepção ou a violação dos direitos, uma multiplicidade de emoções, como medo, ódio e ira. A nossa tendência negativista pode-nos aprisionar numa guerra interior ou com os “lá de fora”. É importante fazer uma pausa, estar connosco e entre nós, abrindo-nos totalmente às emoções que emergem. Ao escutarmos e honrarmos essas emoções podemos aceder à nossa vulnerabilidade humana e ao nosso sentido de cuidador, o qual faz parte da nossa essência. A partir daí, passa a ser possível responder ao mundo de acordo com o nosso coração. Todas as manhãs digo uma prece muito singela: “Ensina-me bondade”. À medida que estas palavras vão estando presente ao desenrolar do dia, os momentos vão-se preenchendo de presença, ternura e vida… mesmo perante pessoas que representam um desafio – nós incluídos!


Tradução para português por Mindmatters

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