Parem de assegurar o desastre climático

Por motivos morais e económicos, chegou a altura de outros seguirem o exemplo da AXA e reconhecerem que os combustíveis fósseis não são seguráveis.

Por Bill McKibben* | Rodrigo Baleia/GreenPeace (foto)
in Project Syndicate  ver artigo original

Em Abril último, o Reino Unido desfrutou, pela primeira vez desde o início da revolução industrial, de um dia inteiro sem energia a carvão. Trata-se de uma notícia extraordinária – e um sinal do futuro que aí vem para o país que começou o romance secular da humanidade a queimar combustível proveniente das pedras negras.

Assim como o fax deu lugar ao email e o óleo de baleia ao querosene, também o carvão está a dar lugar a formas mais limpas de energia. E essa mudança acontecerá mais depressa – talvez suficientemente depressa que nos permita, pelo menos, abrandar o ritmo das alterações climáticas – se a poderosa indústria seguradora fizer a sua parte.

Ao subscrever o desenvolvimento da sociedade industrial assente em grande parte no  carvão, a indústria de seguros foi um dos principais impulsionadores (embora frequentemente negligenciado) da revolução industrial. “Isto só foi possível por causa das seguradoras”, disse Henry Ford, ao olhar para o horizonte de Nova Iorque. “Sem seguros, não haveria nenhum arranha-céus. Nenhum investidor financiaria edifícios que uma beata de cigarro mal apagada pudesse reduzir a cinzas”.

Através da sua capacidade para dividir o risco por diversos portefólios, as seguradoras possibilitaram actividades de alto risco durante séculos. E o mesmo também é verdade no caso das actividades que contribuem para o mais alto risco na história da humanidade: o aquecimento global.

Ainda que os representantes deste sector declarem o seu amor e boas intenções no sentido de controlar as alterações climáticas e assegurar um planeta habitável,  os seus agentes continuam a trabalhar nos bastidores para garantir novas centrais eléctricas alimentadas a carvão, plataformas petrolíferas, areias asfálticas, gasodutos e outros projectos poluentes. Muitos destes projectos não seriam viáveis sem os serviços prestados pelas seguradoras em todo o mundo.

As seguradoras estão igualmente presentes entre os maiores proprietários de activos do mundo. Com 31,1 biliões de dólares de fundos sob gestão, no final de 2014, esta indústria representa quase um terço de todos os activos institucionais na economia global.

O montante exacto investido por estas empresas em projectos de combustíveis fósseis é desconhecido. Mas uma coisa é certa: para evitar que a temperatura do planeta suba mais de 2º celsius em relação ao seu nível pré-industrial, e evitar o aquecimento global descontrolado, precisamos que a maior parte dos nossos activos de carvão, petróleo e gás permaneçam por extrair.

Ironicamente, ao mesmo tempo que o entendimento profundo das ciências climáticas por parte das seguradoras as tornou nos primeiros actores da comunidade empresarial a reconhecer publicamente as alterações climáticas e a apelar à acção, elas continuam a ser grandes impulsionadores de projectos de combustíveis fósseis. As companhias de seguro criaram e sustentaram um ciclo perverso, através do qual facilitam projectos que causam o aquecimento global, ao mesmo tempo que fornecem seguros contra o impacto adverso desses mesmos projectos.

Graças à sua consciência precoce da necessidade de enfrentar as alterações climáticas, o pacto faustiano da indústria seguradora evitou até agora o escrutínio por parte dos grupos de pressão. Mas isso está prestes a mudar.

No mês passado, a gigante francesa de seguros, AXA, anunciou que deixará de fornecer serviços de subscrição às empresas que gerem mais de 50% da sua facturação em actividades ligadas ao carvão. Esta mudança baseia-se na decisão anterior da AXA de desinvestir nessas empresas.

Este é um passo fundamental para tornar o carvão num produto não segurável. Os factos não podiam ser mais claros: os combustíveis fósseis estão a provocar tantas e tão devastadoras alterações no clima (além de outras ameaças) que fazer seguros para novas minas e energia gerada a carvão vai contra uma gestão razoável de riscos financeiros. Enquanto um dos maiores assassinos do planeta, que provoca milhões de mortes por ano devido à poluição do ar, do aumento do nível do mar e de condições meteorológicas extremas, a combustão de carvão já não devia ser financiável.

A decisão da AXA é racional, baseada em factos indiscutíveis e numa visão realista do futuro. Afinal, a actividade seguradora baseia-se na ideia de que o futuro lembra um pouco o passado, tornando-o previsível. Mas se continuarmos a aquecer o planeta, esse pressuposto desaparece. As seguradoras de propriedades costeiras já deitam as mãos à cabeça perante a dificuldade de perceber até que ponto subirá o nível do mar e quão violentas serão as tempestades futuras.

Por motivos morais e económicos, chegou a altura de outros seguirem o exemplo da AXA e de reconhecerem que os combustíveis fósseis não são seguráveis. Para estas empresas – e para todos nós – o melhor seguro é manter os combustíveis fósseis no sítio onde pertencem: no solo.

Tradução Rita Faria/Jornal de Negócios


*Bill McKibben é fundador da 350.org.

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