Juntar a prática contemplativa à ação social

Bhikkhu Bodhi fala  sobre a importância do movimento Budismo Comprometido e do Buddhist Global Relief na organização anual “Walk to Feed the Hungry”.

Por Regina Valdez
in Tricycle ver artigo original

Qual é o papel dos budistas no minorar do sofrimento? No Metta Sutta, o Buda diz-nos para desejarmos felicidade e bem-estar a todos os seres. Mas o que é que o ato de desejar pode fazer efetivamente pelos outros? O que é que desejar faz por 3,1 milhões de crianças que morrem de fome todos os anos, ou pelas 25% das crianças de todo o mundo que sofrem de raquitismo devido a má nutrição?
Bhikkhu Bodhi afirma que “no mundo de hoje não é suficiente contentarmo-nos em desenvolver amor e compaixão como qualidades interiores, há que transformar também estes estados em ações práticas capazes de mitigar o sofrimento dos outros seres vivos.”

Enquanto erudito e tradutor budista, o que é que o levou ao movimento Budismo Comprometido?
Antes de me ter tornado monge fui ativista contra a guerra do Vietname e um defensor de valores e ideais socialmente progressistas. Depois, como monge, afastei-me para me focar no meu desenvolvimento espiritual, mas com o passar do tempo acabei por sentir que a minha visão de vida espiritual se tinha tornado demasiado estreita. Dei-me conta que um desenvolvimento mais integrado a nível moral e espiritual deve abranger tanto o cultivar da paz interior como o compromisso para socorrer os atingidos pelos sofrimentos impostos pela pobreza, guerra, racismo e injustiça social. Senti que, enquanto budista, tinha que transformar em atos os valores de amor-generosidade e compaixão, como forma de responder às terríveis formas de degradação e sofrimento a que as pessoas estão actualmente expostas. Com o tempo, isso acabou por me levar à criação do Buddhist Global Relief.

O que é que podemos aprender com o Buda sobre budismo comprometido?
Enquanto ser totalmente iluminado, o Buda propôs o dharma em todas as suas vertentes. O dharma não é apenas um sistema de meditação e insight, ele é a lei universal da bondade e da verdade que nos permite desabrochar e realizar todo o nosso potencial. O próprio Buda estabeleceu os contornos de uma ordem política ideal ao desenhar um novo modelo de reinado: o do “monarca que gira a roda”. Trata-se do rei que governa com justiça, que administra o seu reino – e até mesmo o mundo – no sentido do bem-estar de todos os seus súbditos, incluindo pássaros e bestas de carga. O nosso sistema político contemporâneo deve continuar a perseguir este ideal. E onde falharem os políticos, temos nós todos o dever, enquanto cidadãos, de assegurar que eles façam as correções e mudanças de rumo necessárias a uma justiça económica, social e política que abranja todos.

Porque razão é importante levar a prática para além do espaço confinado da sala de meditação?
Essa foi a pergunta que eu coloquei a mim próprio a uma determinada altura da minha vida de monge: “Quando eu mais estimo os ideais de amor-generosidade e compaixão, como me posso contentar com o seu mero uso como tema de meditação ou guia de conduta pessoal? Posso eu limitar-me à exaltação de experiências meditativas de amor-generosidade e compaixão enquanto centenas de milhões de pessoas por todo o mundo são atingidas por formas de sofrimento capazes de destruir as suas vidas – sofrimentos esses muitas vezes com origem na política, nas instituições e em programas promovidos pelo meu próprio país?” Se eu estiver verdadeiramente comprometido com o ideal da compaixão e do minimizar do sofrimento, tenho que ser capaz de encontrar formas de aliviar o tormento daqueles que diariamente enfrentam a devastação provocada pela guerra, pela pobreza, pelas perseguições políticas, pela exclusão social e pela devastação ambiental. Vejo tudo isto como uma fusão da prática contemplativa com a ação social, resultando daí aquilo que podemos chamar de “ativismo sagrado”, inspirado, motivado e guiado pelos nossos mais altos ideais éticos e espirituais.

O que é que podemos fazer, individualmente, enquanto praticantes, para ajudar a aliviar tão grande sofrimento? Por onde começar?
Cada um de nós deve encontrar o seu próprio caminho para responder aos gritos de sofrimento que brotam do mundo. Pessoalmente, vejo quatro grandes áreas onde existe uma necessidade imediata de encetar transformações: 1) No permanente envolvimento do nosso país em conflitos armados; 2) Na iniquidade económica, nacional e global, e a persistente pobreza degradante de biliões de pessoas em todo o mundo; 3) No racismo e na multiplicidade de formas como as vidas das pessoas de cor são desvalorizadas e tratadas como descartáveis; 4) Na devastação ambiental, onde o aspecto mais alarmante hoje são as alterações climáticas.
Cada uma destas áreas constitui uma oportunidade para se empreender ações de compaixão.

O sofrimento existente no mundo parece, por vezes, uma carga demasiado pesada para ser suportada. Existe tanto dukkha (sofrimento): racismo, sexismo, cobiça, ódio que o mais fácil é procurar uma escapatória ou mergulhar na ilusão. Como é que cada um pode se confrontar com uma dor tão avassaladora e, ao mesmo tempo, manter um sentido de equanimidade? E será até possível?
Quando olhamos para cada um destes problemas individualmente (já para não falar no seu conjunto) eles parecem-nos tão esmagadores que ficamos com uma sensação de impotência. Refletir sobre eles pode nos fazer cair no desespero. Para contrariar tais sentimentos devemos ter presente que quando as pessoas de boa vontade trabalham em conjunto de uma forma paciente e persistente o impossível pode se tornar possível e o inimaginável real. Existem inúmeros exemplos disto mesmo na nossa história recente, desde o Ato dos Direitos Civis à rejeição do Keystone XL Pipeline, razão porque devemos manter a esperança de que as mudanças actualmente necessárias podem acontecer.

Uma das formas de resposta ao sofrimento e à injustiça foi a criação da Buddhist Global Relief. O que é a BGR e o que está na sua génese?
Em 2008 discuti com alguns dos meus alunos e amigos de dharma sobre a necessidade que eu sentia de nós, enquanto budistas, encontrarmos formas concretas para expressar compaixão através de atos. Como resultado disso decidimos criar uma organização assistencial baseada em modelos como o American Jewish World Service ou o Catholic Relief Services. Começamos com uma missão alargada de assistência internacional a pessoas afetadas por desastres naturais, pela pobreza e pela opressão social. Rapidamente percebemos que estávamos a ser demasiado ambiciosos. Ao procurarmos uma missão mais específica, decidimos nos focar no problema da fome e da má nutrição crónicas, um mal que afeta perto de mil milhões de pessoas em todo o mundo. À medida que foram chegando mais donativos, o número e abrangência dos nossos projetos aumentaram e, em 2015, já patrocinamos mais de 20 projetos em todo o mundo. Neste momento, não apenas providenciamos ajuda alimentar direta como dirigimos os nossos esforços ao combate a causas menos visíveis que estão na raiz da pobreza, através de programas capazes de gerar oportunidades, como os que são dirigidos à educação completa de raparigas ou à atribuição de meios para projetos de subsistência de mulheres que contribuem para a sustentação das famílias.

A Buddhist Global Relief faz anualmente uma passeata, a “Walk to Feed the Hungry”. O que nos pode dizer sobre isso?
Em 2010 decidimos fazer um desfile em New Jersey como forma de recolher donativos. No seu seguimento publicamos uma reportagem sobre o desfile na nossa página de internet, acabando por se espalhar a ideia de fazer desfiles semelhantes noutras localidades. Em 2011, alguns amigos da Buddhist Global Relief em Michigan e na Bay Area organizaram desfiles de apoio ao nosso trabalho, sendo que actualmente todos os outonos temos dez passeatas por todo o país. O desfile é uma boa ocasião para os que participam unirem esforços com amigos que comungam dos mesmos valores e para pequenos comprometimentos com mudanças positivas em relação aos que enfrentam a terrível provação da fome e da má nutrição crónicas.


Tradução para português por Mindmatters

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