O que é a mente?

Na sua interpretação sobre o que é a mente e a sua natureza essencial, o monge tibetano Kalu Rinpoche apresenta uma excelente síntese do caminho budista.
Apesar de todos nós termos a sensação de possuir uma mente e de existirmos, o nossa compreensão sobre a mente e a existência é geralmente vaga e confusa. À partida dizemos: “Eu tenho uma mente e uma consciência”, “Eu sou”, “Eu existo”; identificamo-nos com um “eu”, ao qual atribuímos qualidades, mas desconhecemos tanto a natureza dessa mente quanto desse “eu”. Não sabemos do que são feitos, como funcionam, “o quê” ou “quem” são realmente.

O paradoxo fundamental

Ao procurar a mente, o mais importante no início é reconhecer a sua natureza ao questionar, ao nível mais profundo, o que realmente somos. São raros aqueles que examinaram verdadeiramente a sua mente e refletiram sobre o seu significado; e para os que o tentam, a procura mostra-se difícil.

Na nossa busca e observação sobre o que é a nossa mente, muitas vezes não a cercamos completamente; não chegamos verdadeiramente à sua compreensão.

Sem dúvida que uma perspectiva científica pode oferecer muitas respostas sobre uma definição de “mente”, mas não é esse o tipo de conhecimento a que nos estamos a referir aqui. A questão fundamental é que não possível que a mente se conheça a si mesma porque aquele que procura – o sujeito – é a própria mente, e o objeto que ele procura examinar é também ele a mente. Estamos perante um paradoxo: posso procurar por mim em todos os lugares, procurar por todo o mundo, sem nunca me encontrar, porque eu não sou o que procuro. É o mesmo que tentar olhar o próprio rosto: embora os nossos olhos estejam muito próximos dele, não é muito aquilo que conseguem ver. Não reconhecemos a nossa mente apenas porque ela está muito próxima. Há um provérbio do dharma que diz: “O olho não pode ver a própria pupila”. Também a nossa mente não tem capacidade para se ver a si mesma; ela está demasiado próxima, tão intimamente próxima que não conseguimos distingui-la.
Precisamos saber como mudar de perspectiva. Para olharmos o nosso rosto, usamos um espelho. Para estudarmos a nossa própria mente, precisamos de um método que funcione como um espelho, que nos permita reconhecê-la. Este método é o dharma, que nos é transmitido por um guia espiritual.

É na relação com este ensinamento e com este amigo, ou guia, que a mente será gradualmente capaz de despertar para a sua verdadeira natureza e de ultrapassar finalmente o paradoxo inicial, realizando um outro tipo de conhecimento. Esta descoberta é levada a cabo através de várias práticas conhecidas como meditação.

Em busca da mente

A mente é uma coisa estranha. Os orientais localizam-na tradicionalmente no centro do corpo, ao nível do coração. Os ocidentais entendem que ela está situada na cabeça, no cérebro. Apesar destes diferentes pontos de vistas terem a sua justificação, ambas são inadequadas. Basicamente, a mente não está mais no coração do que no cérebro. A mente habita o corpo, mas é apenas uma ilusão achar que ela possa ser localizada num determinado lugar. Essencialmente, não podemos dizer que a mente esteja num lugar específico, na pessoa ou em qualquer outro lugar.

Ir em busca da mente não é fácil porque, para além do paradoxo do conhecedor não poder se conhecer a si mesmo, a sua natureza essencial não pode ser descrita. Ela não tem forma, cor ou qualquer característica a partir da qual nos permita concluir: “É isto”.

Porém, cada um de nós desenvolve uma experiência da natureza da nossa mente ao nos questionarmos o que é que o observador, o conhecedor, o sujeito que experiencia os pensamentos e as diferentes sensações, está a fazer. Onde é que ele pode ser encontrado exatamente? O que é ele? Trata-se de uma questão de observar a nossa própria mente. Onde está ela? Quem sou eu? O que sou eu? Corpo e mente são o mesmo ou são diferentes? As minhas experiências desenrolam-se dentro ou fora da mente? Mente e pensamentos são distintos ou são a mesma coisa? Se sim, como? Se não, como? A procura é feita na meditação, em união próxima com um guia qualificado capaz de nos dizer o que está correto e o que está errado. O processo pode demorar muitos meses, ou até mesmo muitos anos.

À medida que esta busca se aprofunda, o mestre espiritual orienta-nos progressivamente para a experiência da verdadeira natureza da mente. Trata-se de algo difícil de compreender e realizar porque nada aqui pode ser compreendido através de conceitos ou representações. O principal estudo da mente não pode ser feito através da teoria; precisamos da experiência prática da meditação para penetrar na sua verdadeira natureza.

Existe uma dupla abordagem na prática de meditação: uma que é analítica e outra contemplativa. A primeira é feita de questões como aquelas que fizemos anteriormente. Se formos persistentes neste tipo de busca, ao mesmo tempo que somos guiados de forma competente, uma compreensão definitiva vai-se desenvolvendo.

Na segunda, a mente simplesmente descansa na sua própria lucidez, sem forçar ou usar artifícios. Esta prática vai além de todas as formas anteriores de análise, ao fazer-nos abandonar a esfera dos conceitos, abrindo-nos à experiência imediata. No final destas meditações, descobrimos a vacuidade essencial da mente. Isto é, a mente é vazia de determinações e características, tais como forma, cor ou aspecto, e a sua natureza está para além das representações, conceitos, nomes e formas. Numa tentativa para invocar o reconhecimento da vacuidade, poderíamos compará-la à “indeterminabilidade” do espaço: a mente é vazia como o espaço. Mas isto é apenas como imagem, pois, como veremos, a mente não é apenas vazio.

Para já, gostaria de realçar como é importante o conhecimento da mente, assim como os frutos que decorrem desse mesmo conhecimento. A mente é o que somos. É ela que experiencia a felicidade e o sofrimento. A mente é o que experiencia diferentes pensamentos e sensações; é ela que está sujeita às emoções agradáveis e desagradáveis, é ela que experiencia sensações como o desejo e a aversão. Uma compreensão real da natureza é libertadora porque tal nos liberta de todas as ilusões e, consequentemente, de todas as fontes de sofrimento, de medo e de dificuldades que constituem o nossa dia-a-dia.

Se, por exemplo, tivermos a ilusão de que uma pessoa má é alguém que nos ajuda, ele poderá nos enganar, abusar de nós e causar-nos mal; mas assim que o reconheçamos como sendo “mal”, deixaremos de ser ingénuos; ao desmascará-lo, podemos evitar ser vítimas dos seus maus atos.

Neste caso, a pessoa má é a ignorância do que realmente somos, ou mais precisamente, a ilusão do ego, do eu. O conhecimento que desmascara isto é a consciência da natureza da mente; essa consciência liberta-nos das ilusões e do conhecimento doloroso. Esta compreensão da mente é o fundamento do buddhadharma e de todos os seus ensinamentos.

Iluminação e ilusão


A mente tem dois rostos, duas facetas, que são dois aspectos da realidade. Estes aspectos são a iluminação e a ilusão.

A iluminação é o estado da mente pura. É o conhecimento não-dualista, chamado de sabedoria primordial. As suas experiências são autênticas, isto é, elas são sem ilusão. A mente pura é livre e dotada de numerosas qualidades.

A ilusão é o estado da mente impura. O seu modo de conhecimento é dualista; é a consciência condicionada. As suas experiências estão maculadas pelas ilusões. A mente impura é condicionada e dotada de muito sofrimento.

Os seres comuns experienciam este estado de mente impura e deludida como sendo o seu estado habitual. A mente pura, iluminada, é um estado no qual a mente realiza a sua própria natureza, livre das condições habituais e do sofrimento a eles associado. Este é o estado iluminado do buda.

Quando a nossa mente está num estado impuro, deludido, somos seres comuns que se movem através dos diferentes reinos da consciência condicionada. As transmigrações da mente dentro destes reinos fazem as suas excursões indeterminadas na existência condicionada, cíclica, ou ciclo de vidas — samsāra, em sânscrito.

Quando purificada de toda a ilusão de samsāra, a mente deixa de transmigrar. Este é o estado iluminado de um buda, é a experiência da pureza essencial da nossa própria mente, da nossa natureza búdica. Todos os seres, sejam eles quais forem, possuem natureza búdica. Esta é a razão pela qual todos podem realizar a natureza búdica. Como cada um de nós possui natureza búdica, é possível atingir a iluminação. Se não a tivéssemos já, nunca conseguiríamos realizá-la.

Assim, o estado comum e o estado iluminado distinguem-se apenas pela impureza ou pureza da mente, pela presença ou ausência de ilusões. A nossa mente já tem as qualidades do estado búdico; essas qualidades permanecem na nossa mente, elas são a natureza pura da mente. Infelizmente, as nossas qualidades iluminadas são-nos invisíveis porque estão mascaradas por diferentes mortalhas, véus e outras máculas.

Buda Shakyamuni disse uma vez: “A natureza búdica está presente em todos os seres, porém escondida por ilusões adventícias; quanto purificados, eles são verdadeiramente o Buda.”

A distância entre o estado comum e o estado iluminado é aquele separa a ignorância do conhecimento desta natureza pura da mente. No estado comum, é desconhecida; no estado iluminado, é totalmente realizada. A situação na qual a mente é ignorante do seu estado real é o que chamamos de ignorância fundamental. Ao realizar a sua profunda natureza, a mente é libertada dessa ignorância, das ilusões e condicionamentos criadas pela mente, entrando então no incondicionado estado iluminado, chamado de liberação.

Todo o budadharma (ensinamentos do Buda) e suas práticas envolvem a purificação, tirar as ilusões da mente, e proceder de um estado maculado para um imaculado, da ilusão para a iluminação.

A natureza da mente

A verdadeira experiência da natureza essencial da mente está para além das palavras. Querer descrevê-la é como um mudo querer descrever o sabor doce na boca: não há um meio adequado de o exprimir. Ainda assim, gostaria de dar algumas idéias que remetem para esta experiência.

Podemos considerar que a natureza da mente pura possui três aspectos essenciais, complementares e simultâneos: a abertura, a claridade e a sensitividade.

A abertura A mente é aquilo que pensa: “Eu sou”, “Eu quero”, “Eu não quero”; é o pensador, o observador, o sujeito de todas as experiências. Eu sou a mente. De um certo ponto de vista, esta mente existe, já que eu sou e tenho capacidade de ação. Se eu quero ver, eu posso ver; se eu quero ouvir, eu posso ouvir; se eu decido fazer alguma coisa com as minhas mãos, eu posso comandar o meu corpo… Neste sentido, a mente e as suas faculdades parecem existir.

Mas se formos à sua procura, não conseguimos encontrar nenhuma parte dela em nós, nem na nossa cabeça, nem no nosso corpo, nem em nenhum outro lugar. Então, desta outra perspectiva, ela parece não existir. Portanto, por um lado a mente parece existir, mas por outro não é algo que verdadeiramente exista.

Por mais exaustivas que sejam as nossas investigações, nunca seremos capazes de encontrar quaisquer características formais da mente: não tem dimensão, cor, forma ou qualquer qualidade tangível. É neste sentido que ela é chamada de aberta, porque é essencialmente indeterminada, não-qualificável, está para além do conceito e, desta forma, é comparável ao espaço. Esta natureza indefinível é a abertura que nos faz experienciar a mente como um “Eu” que possui as características que habitualmente atribuímos a nós mesmos.

Mas chegados aqui devemos ter cuidado! Dizer que a mente é aberta como o espaço não é reduzi-la a algo não-existente, no sentido de ser não-funcional. Tal como o espaço, a mente pura não pode ser localizada, mas é omnipresente e atravessa tudo; ela abraça e traspassa todas as coisas. Acima de tudo, ela está para além da mudança e a sua natureza aberta é indescritível e atemporal.

A claridade Apesar da mente ser essencialmente vazia no sentido explicado anteriormente, ela não é só aberta ou vazia, porque se o fosse, então seria inerte e incapaz de experienciar ou conhecer coisas, fossem sensações, alegria ou sofrimento. A mente não é apenas vazia, ela possui uma segunda qualidade essencial, que é a sua capacidade de experienciar, de cognição. Esta qualidade dinâmica é chamada de claridade. Esta claridade é tanto a lucidez da inteligência da mente quanto a luminosidade das experiências.

Para nos ajudar na nossa compreensão de claridade, podemos comparar a abertura da mente ao espaço da sala onde estamos neste momento. Este espaço sem forma permite que as nossas experiências aconteçam; ele contém a experiência na sua totalidade. É onde a nossa experiência tem lugar. A claridade seria, então, a luz que ilumina a sala e que nos permite reconhecer diferentes coisas. Se existisse apenas o espaço vazio inerte, não seria possível haver consciência. Isto é apenas um exemplo, porque a claridade da mente não é como a luz comum do sol, da lua ou da eletricidade. É a claridade da mente que torna possível toda a cognição e experiência.

A natureza aberta e luminosa da mente é o que chamamos de “clara luz”; é uma claridade aberta que, ao nível da mente pura, está consciente em e por si mesma; é por isso que a chamamos de cognição auto-luminosa ou claridade.

Não existe um exemplo que se adeque verdadeiramente para ilustrar esta claridade ao nível puro. Porém, ao nível comum, podemos ter uma idéia de alguns dos seus aspectos, ao compreendermos uma das manifestações da mente: o estado de sonho. Suponhamos que é uma noite escura e que no meio desta escuridão estamos a sonhar, ou que estamos a experienciar um mundo em sonho. O espaço mental onde o sonho acontece, independentemente do lugar físico onde estamos, poderia ser comparado à abertura da mente, enquanto capacidade de experienciar, apesar da escuridão externa, corresponde à sua claridade. Esta lucidez abarca todo o conhecimento da mente e é a claridade inerente nestas experiências. É também a lucidez do que ou quem as experiencia; o conhecedor e o conhecido, a lucidez e a claridade, nada mais são do que duas facetas da mesma qualidade. A inteligência que experiencia o sonho é a lucidez, e a claridade presente nas suas experiências é a sua luminosidade; mas a nível não-dual da mente pura, é apenas uma e a mesma qualidade, a “claridade”, chamada de prabhasvara em sânscrito, ou de selwa em tibetano. Este exemplo pode ser útil para o seu entendimento, mas há que ter presente que isto é apenas uma ilustração, mostrando um nível de manifestação particular da claridade a um nível habitual. No exemplo apresentado, existe uma diferença entre a lucidez do conhecedor e a luminosidade das experiências do sujeito, porque o sonho é uma experiência dualista, diferenciada em termos de sujeito e objeto, na qual a claridade se manifesta de uma vez, na consciência ou lucidez do sujeito e na luminosidade dos seus objetos. Na verdade, o exemplo é limitado, uma vez que fundamentalmente não há dualidade nas mentes puras: é a mesma qualidade de claridade que é essencialmente não-dual.

Sensitividade Para uma descrição completa da mente pura, um terceiro aspecto deve ser adicionado às duas primeiras qualidades já discutidas; trata-se da sensitividade, ou desimpedimento. A claridade da mente é a sua capacidade de experienciar; tudo pode surgir na mente, portanto as suas possibilidades de consciência ou inteligência são ilimitadas. O termo tibetano que designa esta qualidade significa literalmente “ausência de impedimento”. Esta é a liberdade da mente experienciar sem obstrução. A nível puro, estas experiências têm as qualidades da iluminação. Ao nível condicionado, elas são as percepções da mente sobre cada coisa como sendo isto ou aquilo; ou seja, é a habilidade de distinguir, perceber e conceber todas as coisas.

Voltando ao exemplo do sonho, a qualidade inerente de sensitividade da mente seria, por causa de sua abertura e claridade, a sua habilidade de experienciar a multiplicidade de aspectos do sonho, tanto as percepções do sujeito sonhador quanto as experiências do mundo sonhado. A claridade é o que permite surgir as experiências, enquanto a sensitividade é a totalidade de todos os aspectos distintamente experienciados.

Esta sensitividade corresponde, no nível habitual e dualista, a todos os tipos de pensamentos e emoções que surgem na mente e, no nível puro da mente de um buda, à sabedoria ou qualidades iluminadas colocadas em prática para ajudar os seres.

Assim, a mente pura pode ser compreendida desta forma: em essência, é aberta; em natureza, é clara; e em todos os seus aspectos, é uma sensitividade desimpedida. Estas três facetas – a abertura, a claridade e a sensitividade -, não estão separadas, antes são concomitantes. Elas constituem as qualidades simultâneas e complementares da mente desperta.

A nível puro, estas qualidades são o estado de buda; ao nível impuro da ignorância e da delusão, eles tornam-se em todos os estados da consciência condicionada, todas as experiências do samsara. Não importa se a mente é iluminada ou deludida, nada há para além dela, e ela é essencialmente a mesma em todos os seres, humanos e não-humanos. A natureza de buda, com todos os seus poderes e qualidades iluminadas, está presente em cada ser. Assim como uma vidraça é naturalmente transparente e translúcida, mas fica opaca por uma densa camada de pó, todas as qualidades do buda estão nas nossas mentes, porém encontram-se veladas e obscurecidas.

A purificação, ou remoção destas impurezas, permite que todas as qualidades iluminadas presentes na mente sejam reveladas. Na verdade, a nossa mente possui pouca liberdade e poucas qualidades positivas porque ela é condicionada pelo nosso karma, pelas marcas habituais do passado. Pouco a pouco, porém, as práticas de dharma e de meditação livram e despertam a mente para todas as qualidades de um buda.

Uma breve meditação


Chegados a este ponto, ajudaria agora fazermos uma curta prática experimental, uma meditação para tentar melhorar a nossa compreensão sobre tudo isto.

Sentando confortavelmente, vamos deixar a mente descansar no seu estado natural. Relaxamos e permanecemos sem tensão, sem qualquer intenção em particular, sem artifícios… libertamos a nossa mente e permitimos que ela fique aberta, como o espaço… A mente permanece clara e lúcida… Relaxada, solta, a mente permanece transparente e luminosa… Não mantemos a nossa mente encerrada em nós mesmos… Ela não está confinada na nossa cabeça, no nosso corpo, neste ambiente ou em qualquer lugar. Relaxada, ela é vasta como o espaço que tudo abarca… Ela abarca tudo, todo o mundo e todo o universo. Ela permeia todo o nosso mundo. Permanecemos descansados, relaxados, neste estado de abertura, ilimitado, totalmente lúcido e transparente.

A abertura e a transparência da mente, similares ao espaço infinito, são sinais daquilo que temos chamado de abertura. A sua consciência livre e clara é o que temos chamado de claridade.

Há também a sua sensitividade, que é a capacidade da mente experienciar tudo numa  consciência desimpedida de pessoas, lugares e de todas as outras coisas. A mente pode conhecer todas estas coisas e pode reconhecê-las distintamente.

Mais uma vez, sem orientar a mente — o sujeito-conhecedor —, nem para fora nem para dentro, permanecemos da forma como estamos, à vontade e relaxados… Sem afundar num estado de indiferença ou estagnação mental, a nossa mente permanece alerta e vigilante… Neste estado, a mente é aberta e descomprometida. Isto é a abertura… Na consciência lúcida está a sua claridade… Todos os aspectos que conhece, distinta e desimpedidamente, são a sua sensitividade.

Um obstáculo importante surge devido ao nosso hábito de confinarmos a mente ao corpo, corpo esse que percebemos como sendo o nosso; identificamo-nos com este corpo, fixamo-nos nele e nele nos encerramos. Para neutralizar isto, é importante relaxar de toda a tensão, de toda a inquietação. Tensa e inquieta, a mente fica presa. Estas tensões acabarão por causar dores de cabeça e outros desconfortos físicos.

Deixe a mente permanecer descansada na sua vastidão lúcida, aberta e relaxada.

Podemos começar a meditar deste modo, mas é fundamental continuar a prática sob a direção de um guia habilitado, o qual nos guiará no caminho correto. Com a sua ajuda, podemos realizar a vacuidade da mente, dos pensamentos e das emoções, o melhor de todos os métodos para nos livrarmos da delusão e do sofrimento.

Reconhecer a natureza das emoções negativas permite que estas sejam libertadas; é portanto essencial aprender a reconhecer a sua vacuidade mal elas surjam. Se permanecermos ignorantes sobre a sua natureza vazia, elas arrastar-nos-ão na sua torrente, escravizando-nos e subjugando-nos. As emoções negativas exercem controlo sobre nós porque lhes atribuímos uma realidade que elas, na verdade, não possuem. Se estivermos cientes da sua vacuidade, o seu poder alienador e o sofrimento que causam irão desaparecer.

Esta habilidade de reconhecer a natureza aberta e vazia da mente e de todas as suas produções, projeções, pensamentos e emoções é a panacéia, o remédio universal que, em e por si mesmo, cura toda a delusão, toda a emoção negativa e todo o sofrimento.

A nossa mente pode ser comparada a uma mão que está amarrada; neste caso, a mente está presa pela representação do nosso “eu”, “ego” ou “self”, assim como pelos conceitos e fixações que pertencem a esta ideia. Pouco a pouco, a prática do dharma elimina estas fixações e conceitos auto-avaliadores e, tal como uma mão livre de amarras pode se abrir, a mente abre-se e ganha todo o tipo de possibilidades de ação. É então que ela descobre múltiplas qualidades e habilidades. As qualidades que são lentamente reveladas são as da iluminação, as qualidades da mente pura.

Os véus da mente


Se não existe uma diferença essencial entre a mente de um buda e a nossa própria mente, porque razão lhe é atribuída tantas qualidades, e a nós não? A diferença é que na nossa mente a natureza de buda encontra-se obscurecida por todo o tipo de “camadas”.

Ao nível impuro — isso é, na ignorância — cada uma das três facetas da mente pura torna-se num dos elementos que constituem a experiência dualista. Para começar, a ignorância sobre a abertura da mente conduz à concepção de um sujeito, de um “eu”, de um observador; já a ignorância sobre a claridade essencial conduz à ignorância dos objetos externos. É assim que surge a dicotomia sujeito-objeto, eu-outro.

Uma vez estabelecidos os dois pólos da visão dualista, desenvolvem-se entre eles várias associações, as quais, por sua vez, motivam diferentes atividades. Os estágios deste processo são constituídos por quatro véus que mascaram a mente pura, ou seja a natureza de buda. São eles: o véu da ignorância, o véu da tendência básica, o véu das aflições mentais e o véu do karma. Eles são consecutivos e estão estruturados um após o outro.

O véu da ignorância A ignorância sobre a verdadeira natureza da mente, isto é, o simples facto dela não reconhecer o que ela é realmente, é chamada de ignorância fundamental. É a inabilidade básica da mente condicionada perceber-se a si mesma. Podemos comparar a mente pura, que possui as três qualidades essenciais, com as águas calmas e transparentes, nas quais  tudo pode ser visto claramente. O véu da ignorância é a falta de inteligência, um tipo de estado nublado, como um vaso opaco que faz a água perder a sua claridade transparente. Tal mente obscurecida perde a experiência da abertura lúcida e torna-se ignorante da sua natureza essencial.

Diz-se que a ignorância fundamental é inata, porque ela é inerente à nossa existência; nascemos com ela. De facto, ela é o ponto de partida da dualidade, a raiz de todas as delusões e a fonte de todo sofrimento.

O véu da tendência básica A mente controlada pela ignorância envolve-se em todas as delusões, entre elas a mais primária, aquela que é a raiz de todas as outras delusões: o apego dualista em termos de sujeito e objeto.

Quando a mente desconhece a extensão da sua abertura, em vez de experienciarmos sem centro ou periferia, tudo que percebemos vem através de um ponto central de referência. Este centro que se apropria de todas as experiências, é o observador, o ego-sujeito. É deste modo que a mente, ignorante da sua abertura, produz a experiência delusória de um “eu”.

Ao mesmo tempo, quando a natureza da claridade não é reconhecida, experienciamos uma sensação de “outro” ao invés da qualidade autoconsciente da mente. Assim, o sujeito-ego distingue coisas que se tornam a qualidade autoconsciente, coisas que se tornam objetos externos. Surge a dicotomia do sujeito e do objeto, do “eu” e do outro. As “outras” coisas têm uma forma dual: as aparências do mundo externo e os fenómenos duais.

Esta tendência da mente para ser ignorante da sua natureza e para perceber todas as situações de uma forma dualista, é o véu da tendência básica. Desta perspectiva, este segundo véu pode ser chamado de véu do apego dualista.

O véu das paixões Como vimos anteriormente, a mente ignorante da sua abertura e claridade fica imersa na dualidade. Assim, a ignorância da sensitividade da mente dá lugar a todas as associações existentes entre os dois pólos da dicotomia sujeito-objeto. Ao nível puro, a sensitividade é a imediação e a multiplicidade das qualidades iluminadas, mas na ignorância, estas qualidades são substituídas pelas infinitas possibilidades relacionais dualistas. Na ignorância, começamos por assumir os objetos externos como sendo coisas reais. Assim,  experienciamos atração pelos objetos agradáveis, aversão pelos desagradáveis e indiferença em relação aqueles que nos parecem neutros. Se um objeto é agradável, queremos possuí-lo. Já perante objetos ou situações desagradáveis, temos uma atitude de rejeição ou fuga. Finalmente, não nos relacionamos com certos objetos ou situações por causa da indiferença ou estagnação mental.

Estes três tipos de relacionamento — atração, aversão e indiferença — correspondem ao desejo, ao ódio e à ignorância. Estes são os três venenos mentais primários, as três principais aflições mentais que animam e condicionam a mente habitual.

Na base destes três tipos de relacionamento, outras numerosas aflições mentais ou emocionais se multiplicam, nomeadamente o orgulho, a ganância e a inveja. O orgulho surge deste “eu” que nasce da ignorância; a ganância é uma extensão do apego desejoso; enquanto a inveja provém do ódio e da aversão. Assim, os três venenos primários ramificam-se em seis paixões: ódio, ganância, ignorância, apego desejoso, inveja e orgulho. Elas correspondem aos seis estados de consciência característicos dos seis reinos da existência. De seguida, eles são subdivididos uma e outra vez, totalizando 84 mil tipos diferentes de paixões! Todos estes atormentados relacionamentos dualistas compõem o véu das paixões.

O véu do karma As várias paixões conduzem a uma grande variedade de ações dualistas, que podem ser — em termos de karma — positivos, negativos ou neutros. Elas condicionam a mente e fazem-na nascer num dos seis reinos da existência condicionada. É a isto que chamamos de véu da atividade condicionada, ou véu do karma.

O dharma: uma prática de desvelamento

Estes quatro véus que encobrem a mente fazem com que sejamos seres comuns, lançados pelas delusões nos seis reinos do samsara. Não nos podemos livrar desta condição, exceto pela eliminação dos véus e consequente desvelamento da mente. A prática do dharma oferece numerosos métodos que permitem que estas impurezas caiam pouco a pouco,  revelando assim a jóia da mente pura.

A natureza pura da mente pode ser comparada a uma bola de cristal e, os quatro véus a quatro pedaços de pano que a encobrem e escondem cada vez mais. De acordo com uma outra imagem, estes véus podem ser comparados às camadas de nuvens que encobrem o céu da mente. Do mesmo modo que as nuvens obscurecem o céu, os véus mascaram o espaço aberto, bem como a claridade da sua lucidez. A prática do dharma, e antes de tudo da meditação, vão removendo gradualmente os diferentes véus, desde o mais grosseiro ao mais subtil.

Quando todos estes véus são removidos, há um desvelamento completo, um estado de purificação chamado de sang em tibetano. O desabrochamento de todos os aspectos do espaço e da luz, revelados por esta purificação, é descrito pelo termo gye. Estas duas sílabas, sang gye, que literalmente significam “pureza e desabrochamento perfeitos” ou “completamente puro e totalmente desabrochado”, juntas formam a palavra tibetana para Buda. O estado de Buda é a manifestação das qualidades inerentes à mente, uma vez purificada dos véus que a obscurecem.

O desvelamento, que revela as puras qualidades inerentes da mente, marca todo o progresso sobre o caminho da prática do dharma.

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