Como a música nos mantém conectados

Segundo um novo estudo, a música ajuda-nos a harmonizar o corpo e a mente.
Por Jill Suttie | Chaz McGregor (foto)
in Greater Good | 28 de junho de 2016  ver artigo original
Na recente conferência “The Art & Science of Awe” (a arte e a ciência do temor respeitoso) que teve lugar no Greater Good Science Center, Berkeley, Melanie DeMore orientou a assistência num grupo de canto como parte da actividade do dia. A julgar pela resposta, ficou claro que algo de mágico estava a acontecer: como resultado dessa experiência de cantar em conjunto, todos nos sentimos mais próximos e conectados entre nós.
Porque é que cantar tem um tal poder de agregação social? A maioria de nós escuta música desde a altura em que nasceu, nomeadamente através de canções de embalar, e ao longo de alguns dos momentos mais marcantes da nossa vida: cerimónias de graduação, casamentos e funerais. Há alguma coisa no que toca à música que parece ter o condão de nos aproximar uns dos outros e de nos ajudar a estar presente enquanto comunidade.
Não há grandes dúvidas de que o ser humano encontra-se ligado pela música. Cientistas descobriram recentemente que uma parte do nosso cérebro está dedicada ao processamento da música, o que suporta a teoria de que esta tem uma função especialmente importante na nossa vida.
Vários estudos têm demonstrado que ouvir música e cantar em conjunto tem um impacto direto a nível neuroquímico no cérebro, que se reflete num sentido de aproximação e de interligação.
Agora, uma nova investigação sugere que tocar e cantar em conjunto pode ser particularmente poderoso no trazer de uma aproximação social devido à libertação de endorfinas.
Num estudo publicado na Evol Psychol os investigadores descobriram que fazer música – através do canto, da precursão e da dança – resultava em participantes com melhores níveis de limite de tolerância à dor (um indicador de aumento de libertação de endorfinas no cérebro) em comparação com o mero escutar de música. A execução de música resultou ainda num aumento de emoções positivas, sugerindo a existência de uma via através da qual as pessoas se sentiam mais próximas entre si pela libertação de endorfinas quando tocavam música em conjunto.
Num outro estudo, publicado no jornal científico Evolution & Human Behavior, os investigadores compararam os efeitos entre cantar num pequeno coro (20-80 pessoas) e atuar num coro maior (232 pessoas), através dos índices observados sobre aproximação interpessoal e limites de tolerância à dor. Os cientistas descobriram que as pessoas de ambos os coros aumentaram os seus níveis de tolerância à dor após cantarem; no entanto, o coro maior experimentou alterações mais acentuadas em relação à aproximação social. Isto sugere, segundo os investigadores, que as endorfinas produzidas pelo ato de cantar em conjunto atuam de forma mais rápida em grupos mais alargados.
A música tem sido igualmente ligada à libertação de dopamina, um neurotransmissor libertado pelo cérebro envolvido na regulação do humor e no comportamento na procura do prazer, o que parece indicar a capacidade da música em nos dar prazer. Associada aos efeitos sobre as endorfinas, a música parece ter a capacidade para nos fazer sentir bem e conectados com os outros, particularmente quando somos nós próprios a interpretá-la.
Numa série de estudos bastante interessantes, os investigadores Chris Loerch e Nathan Arbuckle analisaram como é que a reação à música – até que ponto cada um é afetado pela sua audição – está ligada aos diversos processos de grupo: sentimento de pertença de grupo, associação positiva com os seus membros, tendências e/ou preconceitos em relação a membros externos e tipos de resposta a ameaças ao grupo.
Os cientistas descobriram que “a reação à música está relacionada de forma causal a (…) motivações sociais primárias” e a “marcadores de vida em grupo bem-sucedida”. Por outras palavras, a música leva-nos a associar em grupos.
Mas de que forma é que a música faz isto? Alguns cientistas acreditam ser o ritmo aquilo que nos ajuda a sincronizar o cérebro e a coordenar os movimentos do corpo com os outros, razão porque esses efeitos podem ser traduzidos para todo o grupo. Um estudo, publicado na revista científica PlosOne, defende esta tese, ao demonstrar como a coordenação de movimentos através da música faz aumentar o nosso sentido de comunidade e o nosso comportamento pró-social. Um estudo descobriu que duas crianças de dois anos eram capazes de sincronizar o movimento dos seus corpos com o som de um tambor, e de forma ainda mais precisa se esse som fosse produzido por alguém que elas pudessem ver em vez de uma máquina.
Esta tendência para nos sincronizarmos entre nós parece ganhar importância à medida que crescemos. Num outro estudo, foi pedido a um grupo de adultos envolvidos na audição de um de três tipos de música diferentes – com ritmo, sem ritmo e “ruído branco” – que desempenhassem uma determinada tarefa envolvendo cooperação e coordenação de movimentos. Aqueles que tinham ouvido música ritmada foram os que finalizaram a tarefa de forma mais eficaz, sugerindo que o ritmo musical promove comportamentos ligados ao sentido de coesão social.
Ainda num outro estudo, pessoas que se encontravam sentadas lado a lado e a quem foi pedido que balançassem os seus corpos a um ritmo que lhes fosse confortável, coordenaram-se entre si tendencialmente melhor sem música, mas sentiram-se mais próximas umas das outras quando sincronizaram os movimentos do corpo enquanto ouviam música. Num estudo conduzido por Scott Wiltermuth e Chip Heath da Universidade de Stanford, um grupo que ouviu e coordenou os seus movimentos com música mostrou-se mais capaz para cooperar melhor e agir de forma mais generosa em relação aos outros quando participaram em conjunto em jogos de carácter económico (mesmo em situações que envolvia perdas pessoais para benefício do grupo, como no caso dos Public Goods Game).
Todas estas evidências ajudam a confirmar a importância da música no aumento do nosso relacionamento social. Talvez seja precisamente por isso que, quando queremos que as pessoas confraternizem, a música desempenhe um papel tão relevante. Seja em concertos, eventos sociais ou conferências sobre reverência e temor respeitoso, a música pode ser uma ajuda para nos conectarmos, cooperarmos e preocuparmo-nos uns com os outros. Tudo isto sugere que se pretendemos uma sociedade mais harmoniosa, faremos bem em continuar a incluir a música na nossa vida e na vida dos nossos filhos.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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