A vida como um filme

Dzongsar Khyentse Rinpoche usa o cinema como metáfora para o ensinamento do Buda sobre samsara, nirvana e a vida.
Por Dzongsar Khyentse Rinpoche
in Lion’s Roar | 31 de maio de 2016  ver artigo original
Suponha que nascemos todos numa sala de cinema. Desconhecemos que aquilo que se passa à nossa frente é apenas uma projecção. Não sabemos que aquilo é apenas um filme e que o que acontece no filme não é real, que não tem uma existência real. Tudo o que vemos naquela tela – amor, ódio, violência, suspense, entusiasmo – não passa, na verdade, de um efeito de luz projetada através de um celuloide. Só que nunca ninguém nos explicou isso, razão porque nos deixamos ficar por ali sentados, fixados no filme. Se alguém tentar chamar a nossa atenção, respondemos com um “shuuu”. Mesmo se tivermos alguma coisa importante para fazer, recusamos fazê-lo. Estamos completamente absorvidos e cegos ao facto desta projeção ser absolutamente fútil.
Suponhamos agora que alguém sentado ao nosso lado diz: “Isto é apenas um filme. Não é real. Nada disto está realmente a acontecer. Trata-se apenas de uma projeção”. Há a possibilidade de percebermos que aquilo que estamos a ver é, na realidade, cinema, é algo não real e sem essência.
Isto não significa, no entanto, que nos levantemos e abandonemos a sala. Não somos obrigados a fazer isso. Podemos simplesmente relaxar e ver o drama amoroso ou o thriller policial. Podemos sentir a sua intensidade. E se estivermos confiantes de que se trata apenas de uma projeção, podemos andar com ela para a frente ou para trás ou voltar a ver o filme conforme nos apeteça. E temos a escolha de poder sair quando quisermos e voltarmos numa outra altura para voltar a ver o filme. Uma vez certos de que podemos sair a qualquer momento que nos apetecer, é possível que já nos não sintamos compelidos a fazê-lo. Podemos escolher ficar confortavelmente sentados a observar.
Por vezes, uma determinada sequência do filme poderá fazer transbordar as nossas emoções. Uma passagem trágica poderá atingir-nos um ponto fraco e deixarmo-nos levar pela emoção. Só que agora há algo em nós que nos diz que sabemos que nada disto é real, nada disto é importante.
É isto que o praticante de dharma precisa perceber: que todo o samsara ou todo o nirvana é tão sem essência ou inverídico quanto um filme. Até vermos isto, será muito difícil ao dharma mergulhar nas nossas mentes. Seremos sempre levados para longe, seduzidos pela glória e beleza deste mundo, por todos os sucessos e falhas aparentes. No entanto, uma vez que nos apercebemos, mesmo que por um mero segundo, de que tais aparências não são reais, ganhamos uma certa confiança. Isto não significa que tenhamos de nos apressar em direção ao Nepal ou à Índia e tornarmo-nos monges ou monjas. Ainda podemos manter os nossos empregos, usar fato e gravata e carregar a nossa pasta até ao escritório todos os dias. Ainda nos podemos apaixonar, oferecer flores à pessoa amada, trocar alianças. Mas algo dentro de nós nos dirá que tudo isto é sem essência.
É extremamente importante ter tais lampejos. Mesmo que apenas tenhamos um clarão momentâneo em toda a nossa vida, podemos ficar felizes durante o resto do nosso tempo apenas com a memória desse brilho.
Agora, pode acontecer que quando alguém nos sussurra: “ei! isto é apenas um filme”, nós não ouvimos porque não estamos atentos. Talvez nesse preciso momento haja no filme um brutal acidente com um carro, uma explosão de sons e música e… simplesmente não ouvimos a mensagem. Ou então ouvimo-la mas o nosso ego não interpreta corretamente a informação. Permanecemos confusos e acabamos por acreditar que afinal há qualquer coisa de verdadeiro no filme. E porque é que isto acontece? Acontece porque nos falta mérito. O mérito é extraordinariamente importante. É claro que prajna (inteligência) é importante. Karuna (compaixão) é importante. Mas o mérito é de extrema importância. Sem mérito somos como um pedinte, ignorante e iletrado, que ganha um prémio de milhões na loteria e, não sabendo o que fazer com ele, perde tudo em pouco tempo.
Mas vamos supor que temos um pouco de mérito e que captamos a mensagem que nos foi sussurrada. Então, enquanto budistas, temos diferentes opções. Do ponto de vista do Budismo Theravada, levantamo-nos e deixamos a sala ou fechamos os olhos para não sermos arrastados pelo filme. Dessa forma, colocamos um fim ao sofrimento. Ao nível Mahayana reduzimos o nosso sofrimento através da compreensão de que o filme não é a realidade, de que tudo não passa de uma projeção e vazio. Não deixamos de ver o filme, mas constatamos que ele não tem existência própria. Além disso, ficamos preocupados com os outros presentes no cinema. Por fim, na tradição Vajrayana, estamos cientes de que se trata apenas de um filme, não somos enganados, e limitamo-nos a apreciar o espetáculo. Quanto mais emoção o filme for capaz de evocar em nós, mais nós apreciamos o brilhantismo da realização. Partilhamos o nosso insight com os nossos companheiros espectadores, em quem, confiamos, sejam igualmente capazes de apreciar aquilo que vemos.
Mas para implementar isto na vida real precisamos de mérito. No Budismo Theravada o mérito é acumulado através da renúncia. Constatamos que o filme nos faz sofrer e possuímos o sentido de parar de o ver. Na tradição Mahayana acomulamos mérito com a compaixão. Possuímos uma mente, grande e aberta, a qual está mais preocupada com o sofrimento alheio.
Por outro lado, esta transformação – desde ser apanhado pelo filme até constatar o vazio do evento, para se preocupar exclusivamente com o bem-estar dos outros – pode demorar muito tempo. É por essa razão que na tradição Vajrayana nós seguimos pela “via rápida” e acumulamos mérito através da devoção. Confiamos na pessoa que nos sussurra ao ouvido e que possui um entendimento que foi capaz de o libertar. Não apenas assimilamos a informação que ele nos deu, como apreciamos a liberdade da sua mente e a profundidade do seu ser. Sabemos que também nós possuímos o potencial para tal libertação, o que faz que o apreciemos ainda mais. Um simples momento de tal devoção, uma mera fração de segundos, possui um mérito imenso. Se estivermos sintonizados com aquele que nos sussurra, ele poder-nos-á ajudar a descobrir o verdadeiro amante de cinema interno. Ele poderá fazer-nos ver como é que o resto dos espectadores é apanhado no enredo e como tudo isso é desnecessário.
Sem termos que depender da confusão da nossa própria luta para compreender o caminho, esta pessoa leva-nos a um entendimento daquilo que estamos a ver. Então tornamo-nos alguém que se pode recostar para apreciar o espetáculo. E até pode ser que sussurremos ao ouvido de alguém.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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