Como traças à volta da chama

Alterações climáticas e o seu reflexo na distribuição mundial de alimentos A ameaça do caos climático é a questão fundamental do nosso tempo. Por forma a evitar perturbações no sistema de distribuição de alimentos, há que levar a cabo profundas alterações na agricultura e na produção de energia. E também ao nível da nossa consciência. A questão que se coloca é se seremos capaz de fazer tais mudanças a tempo.
Por Bhikkhu Bodhi | Sébastien Thibault (ilustração)
in Buddhist Global Relief  ver artigo original
Um curto sutta da udāna (§59) começa com o Buda sentado ao ar livre, numa noite escura, enquanto lanternas a óleo queimam à sua frente. Muitas traças voam em redor das lanternas e algumas voam diretamente em direção à chama, onde os seus corpos são completamente queimados. O Buda profere, então, uma “inspirada declaração”, pronunciando que, tal como a traça, as pessoas estão “presas a formas e a sons” em linha reta para a sua própria destruição.
Este curto sutta pode ser visto como uma parábola em relação à nossa crise climática, com a imagem das pessoas e caminharem para uma destruição de proporções planetárias. Em busca de um crescimento económico contínuo, lançamos cada vez mais emissões de carbono na atmosfera, colocando em risco o nosso futuro comum. O perigo para as traças à volta das lanternas não era externo, resultava antes da sua atração instintiva pela chama. A grande questão que cada traça deve ter enfrentado foi se não deveria voltar atrás antes de ser queimada. A grande questão que se nos coloca é se não devemos mudar de rumo antes de voarmos em direção à nossa própria chama.
O elo mais frágil entre a aceleração das alterações climáticas e as grandes catástrofes não são os fogos florestais ou os furacões, mas a diminuição da distribuição de alimentos. Se o sistema alimentar mundial não for capaz de produzir alimentos em quantidade suficiente, centenas de milhões de pessoas, principalmente na Ásia e na África, estarão condenadas à fome. Para milhões de crianças a desnutrição resultará em deficiência ao nível do desenvolvimento, lesões cerebrais, doenças várias e em mortes prematuras. A falta de alimentos irá despoletar motins e levará ao colapso de Estados já de si instáveis, dando aos demagogos a oportunidade de chegar ao poder. A migração de populações de países pobres para os países mais ricos aumentará, despoletando a incompreensão das populações locais e abrindo portas a novas ondas de terrorismo.
As mudanças necessárias para evitar uma catástrofe climática devem ser feitas tanto no domínio externo da política pública quanto ao nível interno da consciencialização. Alterações de políticas, no sentido de mitigar as mudanças climáticas, são imperativas, principalmente no domínio das duas áreas mais críticas: produção de energia e agricultura. É imperioso levar a cabo uma rápida transição dos sistemas de energia baseados no carvão para fontes de energia renováveis. Simultaneamente, é preciso controlar o crescimento populacional, uma vez que uma população em expansão faz aumentar o problema da escassez de alimentos. E também mudanças ao nível da agricultura são igualmente necessárias. Apesar de todo o seu poder produtivo, a indústria agroalimentar moderna tem sido um dos principais causadores dos problemas ambientais. Em 2014, Oliver De Schutter, relator das Nações Unidas do relatório “Direito à Alimentação”, defendeu a transformação do atual modelo agroindustrial para a “agroecologia”, uma gama de técnicas visando harmonizar a produção agrícola com os processos naturais, maximizando a eficiência de recursos e reduzindo, ao mesmo tempo, a dependência de fatores externos.
À medida que o clima aquece, fenómenos periódicos como períodos de seca prolongada, ondas de calor, chuvas torrenciais e consequentes cheias, tornam-se cada vez mais frequentes, afetando as colheitas e aumentando o preço dos alimentos. Nos anos que temos pela frente, violentas variações climáticas tornar-se-ão, provavelmente, no novo “padrão normal”, acentuando a diminuição de rendimentos e aumentando a fome a nível mundial. Mas alterações climáticas mais graduais – um aquecimento mais lento do planeta – podem ser ainda mais traiçoeiras, por ocorrerem abaixo do nosso limiar de percepção. Segundo as projeções disponíveis, toda a África, América Latina e Sudeste Asiático vão assistir a uma diminuição da produção alimentar. Largas faixas das regiões produtoras de grãos dos Estados Unidos e de frutas e vegetais da Califórnia tornar-se-ão menos férteis, aumentando a fome interna.
Mas a crise climática não é apenas um perigo eminente, ela oferece, também, uma oportunidade: pode ser uma chamada de atenção para reavaliarmos os valores que norteiam as nossas políticas e definem as nossas instituições. Embora estejamos cada vez mais perto da calamidade, o colapso não é inevitável. Se agirmos rápida e decididamente ainda será possível recuar da beira do abismo. A crise climática representa uma conjugação onde interno e externo se encontram, onde transformações ao nível da consciencialização e uma revisão profunda das políticas públicas convergem para um centro comum. Usando o budismo clássico, poderíamos descrever a mudança interior necessária como um esforço para conter a influência do comportamento humano nas três principais impurezas, as “raízes do mal”: cobiça, raiva e delusão.
Ainda que as impurezas da cobiça, raiva e delusão possam emergir das nossas mentes, elas tendem a espalhar-se e a dar corpo, concretamente, nas suas ramificações política, económica e ideológica. Qualquer solução efetiva da nossa crise climática deve procurar corrigir os males causados pelo nosso sistema político e económico e subsequentes ideologias tóxicas. Minorar de forma eficaz a influência da cobiça, da raiva e da delusão requer uma ética global que valorize a generosidade, a empatia humana e a justiça social. Tais valores devem servir não apenas como guias de conduta individual mas como suporte de um novo paradigma capaz de redesenhar políticas e instituições. Esse novo paradigma deve realçar o valor intrínseco da pessoa e a primazia da solidariedade humana. Deve promover a compreensão mútua e a compaixão em detrimento da concorrência implacável. O tipo de compaixão que necessitamos não é aquela meramente bondosa mas sim uma compaixão consciente acrescentada a um sentido global de responsabilidade. Tal compaixão, ousada e corajosa, deve inspirar uma vontade de agir, até mesmo para levar a cabo ações políticas radicais necessárias à criação de um mundo ao serviço de todos.
A ameaça do caos climático despontou como o tema principal do nosso tempo. O risco colocado pelas alterações climáticas ao sistema de distribuição alimentar mundial exige que façamos mudanças fundamentais aos níveis das tecnologias agrícolas e das formas de produção de energia. Mas exige também mudanças ao nível da consciencialização, quer individual, quer coletiva. A questão que enfrentamos é se seremos capazes de realizar as mudanças necessárias a tempo ou se, como traças à volta de lanternas, voaremos diretamente em direção ao nosso fogo. Por forma a evitar tal destino precisamos acima de tudo de uma ética que nos dê o empoderamento necessário a uma tomada de responsabilidades visando o florescimento da humanidade e do planeta como um todo. O sistema mundial de distribuição de alimentos – o nosso sistema alimentar – está em jogo e esta é uma aposta que não nos podemos dar ao luxo de perder. A defesa de um clima viável é uma matéria onde os nossos principais interesses e o bem-estar do mundo são coincidentes.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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