Polícia de Manchester aprende mindfulness

Perante algum ceticismo, as autoridades policiais da Grande Manchester estão a oferecer sessões de mindfulness às suas forças com o objetivo de pôr cobro ao crescente aumento dos níveis de ansiedade e depressão no seio da corporação.
Por Rachel Pugh | Howard Barlow (foto)
in The Guardian | 14 de junho de 2016  ver artigo original
Dois jovens agentes irrompem pela sala cheia de homens e mulheres polícias sentados em silêncio. Pedindo desculpa, enquanto recuperam o fôlego, um deles pergunta: “Já começaram? Temos estado fora num despejo, mas não queríamos perder a meditação.”
É hora de almoço na esquadra de polícia de Pendleton. A pessoa que está de frente para o grupo, segurando um par de sinos tibetanos, é o agente Ewen Sim, e prepara-se para orientar uma sessão de mindfulness.
Este homem de 39 anos, de barba, é um dos treze agentes da Polícia da Grande Manchester (GMP, sigla em inglês), voluntários para receber formação enquanto praticantes experientes de mindfulness, para levar esta secular forma de meditação a toda a GMP. O objetivo é combater a escalada de absentismo e stress entre os onze mil elementos da corporação.
“Não vai haver hipnose, zafus nem incenso”, explica Ewen Sim aos seus camaradas, alguns dos quais parecem tensos e algo desconfiados – muitos deles ainda têm vestido os seus coletes de kevlar, com o rádio preso junto ao ombro.
Nas horas que se seguem a voz de Ewen Sim baixa de tom à medida que promete uma “abordagem bem documentada” (a linguagem policial é baseada em provas e indícios) ao mindfulness. Como introdução, dados científicos são apresentados, que confirmam a dura realidade de policiar Salford numa época de austeridade, para depois orientar o grupo, constituído por uma dúzia de homens e mulheres de várias patentes, ao longo de duas meditações: uma com o “foco na respiração” e a outra de relaxamento profundo.
Para alguns, trata-se da sua primeira experiência de meditação; outros já são habituais. Nos segundos que se seguem ao som do sino tibetano uma tosse abafada corta o silêncio, enquanto um outro agente passa disfarçadamente um lenço pelos olhos.
Stress, ansiedade e depressão constituem um importante problema interno das forças policiais no Reino Unido. O número de agentes com baixa por razões psicológicas aumentou 35%, passando de 4.544 em 2010 para 6.129 em 2015, segundo dados da Freedom of Information Act divulgados pela BBC. É, atualmente, a principal causa de absentismo de longa duração.
A taxa de enfermidade na polícia da Grande Manchester aumentou 20% entre 2013-2014 e 2014-2015. Um número equivalente a uma divisão inteira (um pouco mais de 460 elementos, em média) está, diariamente, de baixa, com um custo avaliado em mais de 17 milhões de libras por ano (valor baseado no salário médio de um agente). A ansiedade e o stress representam cerca de 28% do total destas baixas.
Mas… mindfulness para “chuis”? A superintendente-chefe Zoe Sheard, responsável pela área de bem-estar da GMP, responde com um taxativo “sim”. “É meu entendimento que a saúde mental de um agente é tão importante quanto a sua saúde física. Queremos que os nossos polícias saiam e enfrentem situações de conflito, mas temos que ter presente que eles também têm que lidar com vítimas – muitas vezes, no mesmo incidente – e devem agir com compaixão. O mindfulness mantêm-nos aptos para desempenhar cada um dos papeis. Não há nada de místico nisto, é apenas uma questão prática”, explica.
São cada vez mais as evidências que mostram que a aproximação desenvolvida nos anos 70 por Jon Kabat-Zinn, que integra mente e corpo, ajuda as pessoas a gerir os seus pensamentos e emoções. O mindfulness é, atualmente, recomendada pelo National Institute for Health and Care Excellance, do Ministério da Saúde do Reino Unido, como prática preventiva para pessoas com depressão recorrente.
Até mesmo os marines norte-americanos experimentaram esta técnica para criar resiliência. Um estudo publicado em 2014 no American Journal of Psychiatry descobriu que os ritmos cardíaco e respiratório dos marines submetidos a programas de mindfulness voltavam ao normal mais rapidamente do que os do grupo de controlo, após serem submetidos a testes de stress.
A GMP tem realizado alguns inquéritos ao longo dos últimos três anos, tendo identificado a saúde mental como um problema maior. Zoe Sheard apresentou o mindfulness aos seus colegas como uma forma de manter a saúde entre o pessoal. Apesar de alguns olhares desconfiados no início, cerca de cem polícias voluntários receberam uma introdução ao mindfulness; desses, 41 decidiram continuar num curso intensivo de uma vez por semana, durante quatro semanas; e outros 13 (entre eles, Ewen Sim) fizeram formação de formadores para ensinarem a prática a outros camaradas..
Com o apoio de Zoe Sheard, Ewen Sim foi retirado dos seus compromissos normais de operacional após ter apresentado um plano de seis semanas para dar mindfulness aos seus camaradas na divisão de Salford. A presença é voluntária. Para uns foi uma experiência isolada; outros estiveram presentes a várias sessões semanais. Até ao momento, 250 agentes e pessoal administrativo, entre cerca de 700, estiveram presentes a sessões com Ewen Sim. Projetos semelhantes poderão vir a ser organizados nas doze divisões da Polícia da Grande Manchester.
Para Ewen Sim, que é praticante budista, está claro que o mindfulness não é uma poção mágica, mas, no entanto, vê-o como um “fortalecedor” para camaradas que enfrentam diariamente situações ameaçadoras, muitas vezes obrigados a intervir a solo. “Se dia sim dia não enfrentas situações traumáticas, como acontece connosco em Salford, não sabes aonde – no corpo e na mente – é que o stress se vai acumulando”, disse.
O mindfulness apareceu na vida de Ewen Sim no seguimento de um quadro de ansiedade relacionado com o seu divórcio, a somar a um trabalho já de si stressante. Lidar com alguns cépticos é uma das suas funções. Steve Hough é um deles. Após duas paragens cardíacas no espaço de três anos, a questão anímica constituia um problema, embora, no início, se tenho colocado à margem do mindfulness porque “não é para mim”. Voltou levado pelo desespero. Na terceira sessão – quando já tinha decidido que seria a última -, deu-se o ponto de viragem. “Saí dali como se tivesse feito uma sesta retemperadora, com uma sensação de relaxamento livre de stress que se prolongou pelo resto do dia. É essa sensação que eu procuro manter. Os exercícios de respiração foram particularmente benéficos e continuo a usá-los para me ajudar a dormir”, disse.
Cath Hangnail, que faz patrulha em Pendleton, também participa nas sessões de mindfulness. “Acho fantástico. Neste trabalho nunca sabemos o que vamos enfrentar – pode ser qualquer coisa como uma morte ou um assalto numa loja. Nas sessões de mindfulness entro no meu pequeno mundo e saio de lá extremamente feliz”, disse.
O impacto desta experiência de mindfulness na polícia de Manchester tem vindo a ser avaliada pela Universidade Metropolitana de Manchester, estando as chefias da GMP a considerar qual a melhor forma de estender o programa a toda a corporação.
A sociedade mutualista da polícia está a considerar o financiamento de um programa-piloto na Grande Manchester com vista à sua aplicação a um número mais alargado de quadros superiores.
Entretanto, na esquadra de Pendleton, Ewen Sim prepara o seu grupo de agentes para regressarem ao “modo operacional”, pede-lhes para levantarem as mãos com as palmas para cima, mexerem os dedos e moverem os braços e as pernas: “Antes de voltarem ao trabalho, comam qualquer coisa e descansem um pouco. E nada de relaxamento lá fora durante a patrulha”, avisa.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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