Verificadas alterações no cérebro de ex-combatentes com PSPT após prática de mindfulness

Por University of Michigan Health System
in Science Daily | 1 de abril de 2016  (ver artigo original)
Como se se tratasse de um ciclo sem fim, memórias terríveis podem atormentar aqueles que sofrem de perturbação de stress pós-traumático (PSPT). Pensamentos que se intrometem nos momentos mais tranquilos e que parece não haver maneira de os ‘desligar’.
No entanto, um novo estudo com ex-combatentes com PSPT mostrou resultados promissores no sentido da prática de mindfulness aumentar a capacidade para lidar com esses pensamentos em vez de se ficar “encalhado” neles. Mas, mais surpreendente ainda, o estudo mostra alterações produzidas ao nível do cérebro desses ex-combatentes, alterações essas que podem ajudar as pessoas a encontrar a forma de como ‘desligar’ esse ciclo contínuo. 
Os resultados, publicados em Depression in Anxiety por uma equipa da University of Michigan Medical School e da VA Ann Arbor Healthcare System, resultam de um estudo com 23 ex-combatentes das guerras do Iraque e do Afeganistão. Durante a investigação, todos eles foram sujeitos a algum tipo de terapia de grupo; após quatro meses de sessões semanais, muitos relataram melhorias nos seus sintomas de PSPT. Porém, apenas nos que receberam cursos de mindfulness – uma técnica de mente-corpo focada na atenção e consciência ao momento presente – os cientistas detetaram mudanças ao nível cerebral capazes de os surpreender a eles próprios.
Mudanças nas ligações cerebrais
Essas mudanças foram detetadas através de imagens por ressonância magnética funcional MRI e fMRI – scanner cerebral capaz de visualizar como diferentes áreas do cérebro “falam” entre si através de redes de ligações entre células do cérebro.
Antes do curso de mindfulness, quando o grupo de estudo estava em descanso, os seus cérebros mostravam uma atividade suplementar em regiões envolvidas na resposta a ameaças ou a qualquer outro tipo de problema externo, o que constitui um sinal desse ciclo contínuo de hipervigilância tão comum nos casos de PSPT.
Após o curso de mindfulness, o grupo desenvolveu ligações mais fortes entre duas outras redes neurais: uma envolvendo os meandros das nossas emoções; a outra na mudança e no foco da atenção.
“Estes achados a nível cerebral sugerem que o treino em mindfulness pode ter ajudado estas pessoas a desenvolver mais capacidades no sentido de mudar o seu foco de atenção libertando-as de se verem ‘presas’ em dolorosos ciclos de pensamentos”, afirmou o dr. Anthony King, investigador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Michigan e coordenador deste novo estudo realizado em colaboração com psicólogos da VA Ann Arbor.
“Temos a esperança que esta assinatura cerebral demonstre o potencial do mindfulness para ajudar a lidar com a PSPT em pessoas que possam ter inicialmente recusado terapia. Esperamos que o mindfulness possa fornecer capacidades de regulação emocional que as ajudem a procurar um lugar onde se possam sentir mais capazes de processar os seus traumas”, explica o investigador.
O dr. King, clínico experiente em terapia individual e de grupo com ex-combatentes de diversos conflitos, trabalhou com uma equipa composta por especialistas em neuroimagiologia e em perturbação de stress pós-traumático, incluindo um dos autores principais do estudo, o dr. Israel Liberzon. Para o efeito, foi usado um aparelho fMRI na VA Ann Arbor dedicado a esta investigação.
Do total dos 23 ex-combatentes, 14 finalizaram as sessões de mindfulness, complementadas com ressonâncias magnéticas fMRI; e nove completaram as sessões de comparação mais os fMRI. O tamanho reduzido do grupo implica, contudo, que estes novos resultados sejam apenas um começo da investigação sobre esta questão, disse Anthony King.
Uma opção com boa aceitação
Antes do início do estudo, os cientistas envolvidos tinham algumas dúvidas relativamente a conseguirem encontrar um número suficiente de ex-combatentes dispostos a experimentar um programa baseado em mindfulness. Afinal de contas, esta prática tem a conotação de ser uma aproximação “alternativa” e de estar relacionada a práticas orientais, como a meditação e o yoga.
Mas o facto é que houve um maior número de pessoas a completar as sessões de terapia baseada em mindfulness – sessões semanais de duas horas sob orientação de um professor de mindfulness e de um psicólogo – em comparação com o grupo de psicoterapia sem treino de mindfulness.
“Uma vez explicada a racionalidade subjacente ao mindfulness, que visa dar sustentação e calma ao indivíduo, ao mesmo tempo que aborda o fenómeno mental, as pessoas mostraram muito interesse e um grande envolvimento, muito mais do que estávamos à espera”, disse o dr. King. “A abordagem que fizemos envolveu sessões padrão de terapia de exposição e também de mindfulness, com o objetivo de ajudar esses ex-combatentes a conseguirem processar o trauma em si.”
O grupo de comparação submeteu-se a um tratamento desenhado para ser usado por um “grupo de controlo”: tal incluía exercícios de resolução de problemas e grupo de ajuda, mas sem incluir mindfulness nem terapia de exposição.
O grupo de mindfulness mostrou melhorias ao nível dos sintomas de PSPT, apresentando valores mais baixos na respectiva escala de avaliação – o que foi considerado  estatisticamente significativo e clinicamente relevante -, contrariamente ao grupo de controlo, que não apresentou mudanças. No entanto, os efeitos entre os dois grupos neste pequeno estudo não foram considerados estatisticamente significativos, razão porque o dr. King pretende continuar a explorar as tendências verificadas em grupos mais alargados envolvendo ex-combatentes e civis.
Anthony King sublinha que as pessoas que sofrem de perturbação de stress pós-traumático não devem ver o mindfulness de forma isolada como uma potencial solução para os seus sintomas, devendo procurar especialistas no tratamento de PSPT. Isto porque as sessões de mindfulness podem, por vezes, despoletar sintomas como os pensamentos intrusivos. Como tal, é extremamente importante que as pessoas com PSPT tenham a ajuda de orientadores treinados para usar o mindfulness como parte da sua terapia para perturbação de stress pós-traumático.
“O mindfulness pode ajudar as pessoas a lidar e a controlar as suas memórias traumáticas, a explorar os seus padrões de repressão quando confrontados com situações capazes de trazer à memória os seus traumas e a compreender melhor que as suas reações às memórias têm um início, um meio e um fim; e, mais, que lhes é possível sentirem-se funcionais e seguras. É um trabalho árduo, mas que pode revelar-se compensador”, disse o dr. King.
Mudanças nas redes neurais
Na fase inicial do estudo, assim como em anteriores trabalhos conjuntos da Universidade de Michigan com a VA Ann Arbor, as ressonâncias magnéticas fMRI em ex-combatentes com PSPT mostravam uma atividade fora do comum. Mesmo quando lhes era pedido para descansarem tranquilamente e deixarem a mente vaguear livremente, os seus cérebros apresentavam níveis elevados de atividade nas redes neurais responsáveis pelas reações relevantes ou significativas, a sinais externos, tais como ameaças e perigos eminentes. Ao mesmo tempo, o modo pré-definido da rede neural, envolvida no pensamento focado interno e quando a mente está a vaguear, apresentava menos atividade nestas pessoas.
Porém, no final do curso de mindfulness, as áreas com funções pré-definidas estavam, não apenas, mais ativas, como apresentavam um aumento das suas ligações às áreas do cérebro com funções executivas, aquelas que se encontram envolvidas no que os cientistas chamam de mudança volitiva intencional – o mudar intencional da atenção para pensar ou agir sobre algo.
Os pacientes que apresentaram mais melhorias ao nível dos sintomas foram os que mostraram um maior aumento ao nível das ligações neurais.
“Estamos surpreendidos com o que encontramos, porque há um pensamento dominante de que a separação entre redes neurais com funções pré-definidas e funções relevantes ser uma coisa positiva”, confessou o dr. King. “Mas agora temos a esperança de que esta assinatura cerebral de um aumento das suas ligações a áreas associadas com a mudança volitiva intencional em descanso possa ser útil para lidar com a perturbação de stress pós-traumático e que possa ajudar a dotar os pacientes de uma maior capacidade para se libertarem das amarras provocadas pelas memórias traumáticas e pela ruminação mental”, disse.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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