O que é que a neurociência pode aprender com a meditação budista?

O mindfulness despontou recentemente com grande popularidade, porém esta sua aplicação moderna tem raízes no budismo ancestral. Lynne Malcolm e Olivia Willis procuram descobrir o que é que praticantes experientes de meditação e neurocientistas podem aprender entre si.
Por Lynne Malcolm e Olivia Willis
in ABC-RN (Australian Broadcasting Corporation) | 29 de abril de 2016  Ver artigo no original
O que não falta atualmente são notícias a destacar os benefícios do mindfulness e da meditação. Trata-se de algo cada vez mais popular na terapia clínica e na gestão do stress do dia a dia. Mas o que tem o ciência a dizer sobre esta milenar prática espiritual? E, também, o que podem as antigas tradições budistas ensinar aos cientistas sobre o cérebro?
No sentido de encontrar respostas, um grupo de praticantes de meditação, psicólogos e neurocientistas reuniram-se na rural New South Wales, Austrália, durante um fim-de-semana num retiro zen.
“O objetivo era reunir praticantes de longa data de meditação e investigadores de determinadas partes da cognição (…) e aprender com a perspectiva de cada um. Isto é, não só com a perspectiva científica mas também com a perspectiva da meditação”, refere a Dra. Biedermann.
Britta Biedermann, uma cientista na área cognitiva e ela própria meditadora experiente, iniciou este projeto como parte da sua investigação na ARC Centre of Excellence in Cognition and its Disorders, na Macquarie University, em Sidney. Segundo ela, neurocientistas e psicólogos foram encorajados a usar a introspeção de meditadores experientes para perceber qual o seu entendimento do processo cognitivo.
O professor Peter Sedlmeier, neurocientista da Universidade de Chemnitz, na Alemanha, foi igualmente convidado a estar presente no encontro. Há cerca de dez anos, Sedlmeier levou a cabo uma metanálise sobre todos os trabalhos científicos de investigação realizados até então sobre meditação.
“Um dos desafios que se colocam à pesquisa sobre meditação é a pluralidade de estilos existentes. Há técnicas onde temos simplesmente de observar a respiração, o corpo e a mente, tal como é feito na tradição budista. No ioga há o pranayama, onde intervimos ativamente sobre a respiração e o corpo. Na meditação chakra o foco da atenção faz-se sobre os centros de energia do corpo. Já a meditação mantra envolve o repetir de uma determinada palavra ou mantra na mente, usado para auxiliar a concentração”, explica Sedlmeier.
Técnicas para atingir a iluminação adaptadas ao tratamento
Peter Sedlmeier afirma que, embora todas as técnicas sejam eficazes, a pesquisa disponível atualmente não é suficiente para fazer uma distinção clara sobre os diferentes efeitos de cada uma. Já quando se trata de analisar a eficácia, no seu conjunto, o professor alemão afirma que os benefícios da meditação são mais sentidos pelas “pessoas saudáveis” do que por pacientes em processo de tratamento. “Penso que uma das razões para isso acontecer é porque é mais difícil aprender meditação quando se está doente, com ansiedade, com medo ou com dor”, explica.
A investigação mostrou que a emoção humana é a área da cognição mais sensível aos efeitos da meditação, pelo que não constitui surpresa que esta ancestral técnica budista seja uma prática corrente entre muitos psicólogos. No entanto, Sedlmeier chama a atenção de que ela nunca deve constituir uma substituição à terapia, no sentido mais lato.
“A meditação não foi destinada originalmente como um tratamento mas como uma forma de ampliar a nossa consciência. A meditação na Índia trata de questões como a libertação, a iluminação e o desenvolvimento espiritual, não é sobre tratamento. Na minha opinião, cada um deve procurar aquilo que o ajuda e o que não ajuda… está tudo em aberto ao escrutínio empírico”, afirma Sedlmeier.
A psicóloga Emily White, também presente no encontro, afirma que a meditação e o mindfulness são parte central da sua prática clínica. Ela pratica um tipo de tratamento chamado de terapia dialética do comportamento, aplicado a pacientes com dificuldades em controlar as emoções.
“A técnica principal subjacente é o mindfulness, ao ensinar as pessoas a regressarem ao momento presente de várias maneiras”, diz Emily White.
Segundo ela, esta terapia foi inicialmente desenvolvida para pessoas com tendências suicidas ou autodestrutivas; porém, as evidências demonstraram ser igualmente eficaz no tratamento da toxicodependência e do alcoolismo, assim como na terapia de distúrbios alimentares.
“Existe muita pesquisa que demonstra a sua validade em relação aos grupos em que é suposto atuar. E, pessoalmente, sem dúvida nenhuma que vejo melhoras. Quando os pacientes começam a usar as técnicas que lhes ensinamos, conseguimos perceber as suas vidas a estabilizar progressivamente e a apontar na direção que eles desejam ”, afirma Emily White.
Exames mostram cérebros de meditadores “mais jovens”
Um número crescente de estudos científicos sobre meditação apoia-se tecnicamente na ressonância magnética, como o fMRI, para determinar a ocorrência de efeitos cognitivos resultantes da prática da meditação e quais as manifestações presentes. “Por vezes são detetadas, outras não”, diz Sedlmeier.
“Há uma área enorme de subjetividade aberta a interpretações pessoais ou a novas leituras. Mas existe algum grau de convergência em relação a algumas partes do cérebro, como a ínsula, que parecem muito envolvidas quando analisamos os resultados da meditação.
“Um colega meu (…) reanalisou alguns cérebros usando um tipo de aparelho com capacidade de aprendizagem; através dessa técnica, o algoritmo lê a idade do cérebro (…); descobriram que o cérebro dos praticantes de meditação era mais jovem em comparação com o das outras pessoas; e existem ainda alguns outros indicadores no sentido de que o cérebro dos praticantes de meditação envelhece mais devagar”, afirma Sedlmeier.
Muitos dos que participaram neste retiro de fim de semana seguem a tradição do budismo zen. O professor zen, Subhana Barzaghi, diz que a forma como a meditação está a ser adotada atualmente não reflete necessariamente o seu propósito inicial.
“Meditamos para quê? Não é apenas por uma questão de saúde e bem-estar, de relaxamento, para a nossa salvação, mas antes é algo que está intimamente ligado com a libertação de todos os seres. É muito importante que a meditação não seja tida apenas como um tipo de busca individualista.
“Na minha opinião, a meditação tem que ser vista num contexto ético mais amplo, contexto sobre o qual até mesmo os seguidores zen se têm debatido. Quando se retira a meditação deste balizamento ético… isto é, podemos estar plenamente atentos (mindful) quando damos um tiro de pistola, mas não é este o tipo de mindfulness que o Buda ensinou nem tão pouco o mindfulness que propomos na tradição zen”, esclarece Subhana Barzaghi.
Encontrar terreno comum entre teorias sobre meditação
Qual é, então, a diferença entre a disciplina secular do mindfulness moderno e a antiga prática religiosa de meditação?
“O termo mindfulness não está claramente definido nos dias de hoje. O que difere da definição original de mindfulness (…) é a questão sobre a aceitação que não está aqui presente”, refere Sedlmeier.
“Seja-se budista ou hindu, alguma preocupação ética estará sempre presente, são normas de vida. Trata-se, basicamente, de uma forma de viver num contexto espiritual associado.
“A parte ética é uma questão fundamental, a qual tem sido abordada em literatura variada, particularmente pelos estudiosos do budismo. Estes levantam a questão sobre a legitimidade de se usar o conceito de mindfulness sem se ter presente os seus aspetos éticos”, diz Peter Sedlmeier.
Antigo ou moderno, religioso ou secular, os neurocientistas declaram haver evidências importantes que mostram que a meditação – em termos gerais – é uma prática com resultados efetivos.
“Ainda não temos uma boa teoria sobre meditação. Mas para se chegar a esse ponto, seria bom falarmos uns com os outros”, diz Sedlmeier.
“Se os meditadores experimentados falarem entre si de uma forma sistemática (…) e apresentarem algum tipo de convergência, as possibilidades são de que encontraremos algumas especificidades como parte de uma boa teoria de meditação”, finaliza Peter Sedlmeier.
Tradução de Raul C. Gonçalves

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