A mente domina a matéria? Meditação mindfulness para o controlo da dor

Por Sara Adães*, PhD | Vlue/Shutterstock (fotografia)
in BrainBlogger | 1 de maio de 2016
A dor é algo subjectivo. Trata-se de uma experiência sensorial e emocional passível de ser influenciada por inúmeros factores, que vão desde a expectativa ao estado de ânimo e até mesmo à fé. A dor crónica pode ser tremendamente desesperadora, afetando significativamente o estado emocional e a qualidade de vida. O tratamento atualmente disponível através de analgésicos nem sempre é eficaz e os pesquisadores sobre dor continuam à procura de opções mais efetivas sobre o seu controlo.
Nas últimas décadas, muitos têm sido os estudos indicando que a meditação mindfulness pode reduzir a dor e melhorar o estado de saúde, tanto nos contextos experimental como clínico.
A meditação mindfulness é uma prática cognitiva que consiste em prestar atenção plena às experiências que vão ocorrendo, interna e externamente, no momento presente à medida que são experienciadas. Trata-se de uma técnica que combina uma atenção focada na respiração com uma aceitação objetiva e sem julgamentos sobre os pensamentos e sensações à medida que eles surgem. Significa isto aceitar de mente aberta uma determinada experiência, sem qualquer julgamento sobre ela ser boa ou má.
Uma das principais dúvidas em relação ao efeito analgésico da meditação mindfulness tem sido em relação a como é que esse processo acontece exatamente. Poder-se-ia argumentar que a meditação mindfulness apenas reduz a dor através de um efeito placebo ou devido ao contexto de uma participação numa atividade de meditação – incluindo expectativas, transferência da atenção, ambiente, postura corporal, respiração ou outros processos associados à simples consciência ou crença de se estar a praticar meditação.
Investigação recente
Em 2015, o The Journal of Neuroscience publicou um estudo cujo objetivo era precisamente determinar se os mecanismos neuronais induzidores de alívio da dor presentes na meditação mindfulness seriam similares às de um efeito placebo analgésico ou se seriam decorrentes de uma influência de contexto.
O estudo englobou diferentes abordagens, incluindo as psicofísica, fisiológica e imagiologia cerebral para testar a hipótese da meditação mindfulness reduzir a dor através da ativação de mecanismos neurológicos específicos, diferentes dos relacionados com o efeito placebo analgésico. Dado o impacto que pode representar o contexto numa ação de meditação na percepção da dor, tal como anteriormente mencionado, o estudo comparou igualmente o efeito entre a meditação mindfulness verdadeira e uma falsa técnica de meditação mindfulness – esta última dada de forma a fazer acreditar os seus participantes de que estavam a praticar meditação mindfulness, embora estivessem apenas presentes mecanismos de relaxamento).
O estudo confirmou a hipótese colocada inicialmente de que a meditação mindfulness fazia diminuir a intensidade da dor e do desconforto para além dos verificados nos efeitos de placebo analgésico e na falsa meditação mindfulness. Além disso, a verdadeira meditação mindfulness envolveu mecanismos cerebrais muito distintos dos que foram verificados nos casos de placebo induzido e falsa meditação.
Enquanto a falsa meditação/efeito placebo mostrou-se associada a taxas mais baixas de respiração, refletindo uma resposta ao nível do relaxamento, na meditação mindfulness a redução dos níveis de dor revelou-se independente da taxa de respiração, tendo sido alcançadas via mecanismos neurológicos de sensação de dor. A meditação mindfulness mostrou diminuir a atividade das regiões do cérebro envolvidas no processamento de informação sensorial e no processo cognitivo de regulação de dor. Este estudo indicou que a meditação mindfulness constitui uma prática cognitiva ativa, ao contrário do efeito placebo, o qual emerge de um estado mais passivo a nível cognitivo.
O que ainda estava por compreender eram os detalhes sobre como a meditação mindfulness induzia o efeito analgésico, que caminhos neuroquímicos eram ativados no cérebro. A mesma equipa de pesquisadores do estudo acima mencionado procuraram agora encontrar uma resposta para esta questão. Num novo estudo, igualmente publicado no The Journal of Neuroscience, os cientistas colocaram a hipótese de, dada a alta concentração de receptores opióides encontrados nas regiões do cérebro associadas à função cognitiva de regulação da dor, assim como do conhecido envolvimento de opióides endógenos na função cognitiva de inibição da dor, talvez este sistema pudesse fazer parte do mecanismo de meditação mindfulness-analgesia induzida.
Através do uso do naloxane, uma droga inibidora do efeito de opióides, foi demonstrado que a inibição de opióides não tinha qualquer efeito sobre o efeito de analgesia induzida pela meditação mindfulness. Já em relação ao grupo de controlo, o bloqueio de opióides induziu, tal como era esperado, a um aumento da percepção da dor. Embora haja muitos outros sistemas neurotransmissores capazes de contribuir para o efeito analgésico da meditação mindfulness, estes resultados são ainda assim surpreendentes: os receptores opióides do sistema nervoso são um dos principais reguladores da dor e o facto de, aparentemente, não mostrarem qualquer influência nos mecanismos de meditação mindfulness-analgesia induzida é intrigante.
Os autores do estudo especulam sobre uma possível explicação para este facto e sugerem que “a meditação mindfulness pode tratar-se de um processo cognitivo complexo envolvendo, provavelmente, múltiplas redes cerebrais e mecanismos neuroquímicos para atenuar a dor”.
A mente sobrepõe-se à matéria
Na realidade, existe uma quantidade de evidências que indicam que a meditação mindfulness ativa regiões de cérebro associadas à avaliação contextualizada da dor. Uma diminuição da atividade do tálamo foi igualmente registada; este é um facto importante uma vez que o tálamo é uma das estruturas principais no processamento da dor – o tálamo recebe informação sensorial, processa-a e transmite-a ao córtex, onde a dor se torna consciente. Esta atividade do tálamo pode, de facto, ser reduzida devido à meditação mindfulness, indicando consequentemente ou uma diminuição do processo sensorial ou um possível obstar desta informação sensorial atingir uma percepção consciente.
Embora ainda haja muito para aprender sobre este processo, aquilo que parece de alguma forma claro é que a meditação mindfulness apresenta-se como uma interessante abordagem alternativa em relação ao controlo da dor – é a mente a sobrepor-se à matéria.
Tradução de Raul C. Gonçalves
notas:
*Sara Adães, PhD, é investigadora na área da neurociência há mais de uma década. Estudou bioquímica e realizou os seus primeiros estudos de investigação em farmacologia. Desde então, tem vindo a investigar os mecanismos neurobiológicos relacionados com a dor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal.
Referências
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http://brainblogger.com/2016/05/01/mind-over-matter-mindfulness-meditation-for-pain-management/

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