E depois do agora acontece o quê?

Mindfulness tem tudo a ver com o estar aqui e agora. Sim e não. É também sobre estar consciente ao que ocorre a nível interior e exterior, sobre o passado, presente e futuro. Uma vez conseguida a quietude da mente, a nossa atenção consciente acende uma luz não apenas sobre o momento presente, mas também sobre de onde viemos e para onde vamos.
Por Barry Boyce
in Mindful magazine | fevereiro de 2014
Muitos de nós chegaram ao mindfulness à procura de algum alívio em relação ao turbilhão de pensamentos que domina as nossas vidas a maior parte do tempo. Portanto, a primeira dádiva que o mindfulness nos oferece – depois de nos habituarmos à simplicidade que constitui sentar e não fazer nada – é um pouco de paz. Deixamos de estar tão atormentados pelos pensamentos à medida que os observamos a chegar e a partir que qualquer pensamento parece deixar de ter grande relevância. É como observar o rolar da roupa numa máquina de lavar. Não temos de ficar às voltas a acompanhar a roupa, basta-nos observar como ela vai enrolando e caindo.
À medida que vamos ganhando mais abrangência e paz começamos a aprimorar a nossa concentração. Conseguimos fixar a atenção num objetivo durante mais tempo, seja ele um problema complicado de trabalho ou a estrada à nossa frente.
A tranquilidade e a concentração constituem, por si só, um grande benefício, merecedores de celebração. Mas a jornada de mindfulness não termina aí: ao desenvolvermos a calma e a concentração um novo tipo de consciência mais alargada começa a aparecer de forma natural.
Tome-se o exemplo de comer com atenção plena. Nesta prática de momento a momento mindfulness prestamos uma atenção diferente aquilo que colocamos na boca – paladar, textura, aroma e aos atos de mastigar e engolir. Quando ampliamos essa atenção a tudo o que envolve essa comida e ao que isso representa para nós – a nível emocional, físico, económico, social, etc. – passamos para o domínio da consciência. É precisamente aí que o olhar estável de uma mente tranquila nos permite perceber como funciona o mundo e como interagimos com ele.
A consciência transforma-se na nossa satisfação no presente e prolonga-se num sentimento de bem-estar e atenção em relação aos outros. Produz percepções que vão afetar o futuro porque ser mindful ao momento presente não significa pouca reflexão ou aceitação do status quo. A consciência cria, simultaneamente, aceitação e motivação para operar mudanças.
Consciência não é algo que fabricamos através da meditação. Tal como com o mindfulness, ela já se encontra presente, faz parte da nossa herança genética humana. É clara e intensa, rica e multifacetada, e pode ser descrita de muitas maneiras. Estas são apenas algumas das formas como melhor podemos nos conhecer, a nós e ao nosso mundo, quando a paz do mindfulness floresce em busca clara de consciência.
O espaço interior
Um bom exemplo sobre o poder da nossa realidade interior é observar um filme. A luz é projectada numa superfície branca numa sala às escuras e, a partir destas imagens luminosas a nossa mente cria personagens. A partir daí sentimos simpatia, irritação, raiva, atração ou amor por pessoas que nem sequer existem.
Tal como o nosso corpo e mente foram feitos para perceber o mundo exterior com precisão, também foram construídos para sentir. Cheirar uma determinada tarte pode nos trazer à memória a cozinha da nossa avó e, a partir daí, despertar sentimentos de calor humano e bondade; já o arranhar de unhas sobre uma superfície lisa é capaz de nos causar irritação.
Temos a tendência para pensar que as nossas emoções se registam sempre no mesmo sítio, quando, na verdade, as sentimos por todo o corpo. Sentimos arrepios perante o medo ou a excitação, o maxilar contrai-se de raiva, uma onda de relaxamento espalha-se pelo nosso corpo quando alguém nos abraça.
Consciência interior tem a ver com a apreensão das emoções e pensamentos à medida que eles ocorrem. Tomamos também consciência de como colorimos o mundo de acordo com as emoções que vamos sentindo – tanto podemos pintar um amarelo brilhante à volta de uma coisa que gostamos como colocar o nosso foco de atenção nas características mais negativas que nos causam repulsa.
A nossa vida emocional interior é rica mas plena de riscos. Tanto nos coloca em dificuldades como torna a vida merecedora de ser vivida. Refinar a nossa visão interior – a nossa capacidade para observar de forma clara como trabalham as nossas emoções – permite-nos navegar através desse mar encarpado em vez de sermos engolido por ele. À medida que vamos ficando menos preocupados em sermos controlados ou seriamente prejudicados pelas nossas emoções, passamos a conhecê-las melhor – como um violinista em relação ao seu instrumento. Podemos tocá-lo com uma atenção cuidadosa e com um fluir livre de prazer.
O espaço exterior
Estamos numa festa. Durante um interregno na conversa um pensamento vem-nos à cabeça: “será que tenho dinheiro para comprar uma máquina de lavar?” Este pensamento agarra-nos e, a partir, daí, desencadeia-se uma corrente de pensamentos. Antes que nos demos conta, encontramo-nos perdidos em elaborações e preocupações. Se alguém se nos dirigir, assustamo-nos e, depois, pedimos desculpa porque “estávamos preocupados”.
Quando os pensamentos em turbilhão nos arrastam para o seu mundo, aquilo que está à nossa volta permanece no mesmo lugar, à nossa espera. Quando voltamos do nosso sonho, baixamos as nossas defesas e o mundo exterior invade-nos com toda a sua força.
Podemos precisar ainda de chegar a uma conclusão sobre a compra da tal máquina de lavar. Mas o que não precisamos é de nos afastarmos da realidade como se estivéssemos a roer as nossas preocupações como um cão à volta do osso. Podemos tratar da questão da máquina de lavar no seu devido tempo e, entretanto, gozar aquilo com que nos vamos deparando através dos nossos sentidos. Aonde quer que estejamos haverá sempre uma panóplia de cores, texturas, sabores e cheiros à nossa disposição. Rostos, gestos e vozes estão em comunicação connosco de forma mais ou menos perceptível. O nosso corpo está preparado para sentir o mundo com grande precisão, permitindo-nos navegar através dele com graciosidade e à vontade.
Atentos aonde estamos – quer ao espaço à nossa volta quer ao espaço que ocupamos – em vez de nos arrastarmos podemos dançar com a vida. Quando uma porta se abre, podemos delicadamente deixar espaço para os outros passarem antes de entrarmos. Estamos prontos para a vida.
Diferenças e juízos de valor
Uma das instruções mais comuns em mindfulness prende-se com o prestar atenção, sem qualquer julgamento, às nossas experiências. Com o tempo, esta forma de praticar faz retardar o sempre pronto mecanismo de julgamento da nossa mente – aquele que tende a classificar demasiado rápido e que age frequentemente por predisposição.
Há quem pense que ter uma aproximação sem juízos significa não fazer julgamentos. Isso não é verdade. A prática de mindfulness apenas nos pede que notemos o momento em que nos encontramos antes de começarmos a fazer distinções. Pede-nos uma suspensão temporária de julgamento e não o seu abandono completo.
O nosso intelecto tem uma grande capacidade para dividir o mundo em categorias, como forma de fazer distinções, para desmontar e voltar a montar as nossas experiências vezes sem conta. Fazer diferenciações é uma função deliciosamente complexa. Tomemos, como exemplo, as 120 cores presentes numa caixa de lápis de cor da crayon, o que representa quase nada em comparação com as mais de mil cores do sistema Pantone usado pelos designers. Consideremos todos os nomes de plantas e animais, todas as palavras constantes num dicionário, todos os nomes de canções no iTunes. A nossa capacidade para discernir entre entre infinitas variações é a fonte da nossa criatividade, pensamento inovador e capacidade para tomar decisões. Cultivar a consciência apenas reforça este talento.
Através da abertura e clareza da consciência podemos assistir ao processo de classificação e julgamento enquanto ele se processa. Podemos, assim, utilizar melhor a nossa capacidade para escolher, discernindo entre as ações que poderão ser mais benéficas para nós e para os outros e as que poderão causar mais mal do que bem. Podemos perceber os nossos gostos e preferências sem nos sobrepormos àqueles que não pensam como nós. A luz da consciência revela um mundo capaz de acomodar vários pontos de vista.
Viver com mais consciência significa deixar de funcionar com certezas absolutas – a mentalidade do “sabe tudo” que apenas serve para mascarar a insegurança – e decidir com mais conhecimento de como se chegou a determinada conclusão. Com uma mistura de humildade e confiança podemos dar o salto em direção ao que conhecemos parcialmente, desejosos para aprender o que vem a seguir.
Tempo
Temos o hábito de pensar o tempo como algo fixo. Um minuto é um minuto. É claro que isso é verdade a partir de um ponto de vista meramente objectivo, mas raramente somos assim tão objetivos em relação ao tempo. Quando não queremos fazer uma coisa, um minuto pode parecer uma eternidade; já quando estamos absorvidos numa tarefa, o tempo voa.
Perceber que “o tempo é aquilo que fazemos dele” torna-nos mais pacientes, permite-nos aliviar o olhar sobre o cronómetro e deixar de medir o tempo, enquanto pensamos “quando é que isto vai acabar” ou “espero que isto não acabe já”.
Quando a minha mãe atingiu a casa dos 90 anos, se um dos seus netos lhe dissesse que estava a ficar velho, ela respondia: “Não te estejas a envelhecer. Sê apenas a idade que tens. Os anos irão tomar conta do assunto”. À medida que vamos compreendendo as subtilezas do tempo, vamos ficando mais à vontade com o processo de envelhecimento. As coisas mudam. Nascem, amadurecem, murcham, enrugam e morrem.
Ser mais consciente sobre este processo irá ajudar-nos a valorizar mais aquilo que amamos enquanto está presente e a aceitar melhor a sua inevitável passagem. Fará com que apreciemos mais as novidades da vida, sem tentar “congelar” no tempo as novas experiências. Entender a origem e o destino de todas as coisas. Quando olhamos para alguém e para o seu posicionamento na vida, não estamos interessados apenas no pormenor, antes queremos perceber o quadro completo: como é que ele chegou até aqui e para onde vai. Todos os alvos de observação estão em movimento.
Quando os nossos pensamentos se dirigem ao passado, como acontece de tempos a tempos, estamos conscientes de que estamos apenas a pensar no passado, mas que não estamos lá de facto. O mesmo acontece em relação ao futuro. Estar no momento presente não significa estar alheado do passado ou do futuro. Na verdade, estamos muito mais conscientes sobre a passagem do tempo.
O mundo possui muitos relógios e ritmos. Estar devidamente sintonizado melhora o nosso sentido de momento: de quando chegar, quanto tempo permanecer e quando continuar em frente, deixar passar.
Nem a consciência nem a atenção plena acontecem de forma espontânea. Trata-se de um processo de maturação gradual, ao longo do tempo. Por vezes conduzem a avanços ocasionais e a insights inesquecíveis, porém raramente são muito espetaculares.
Mindfulness e consciência fortalecem-se mutuamente num círculo virtuoso. A atenção focada do mindfulness inspira a uma consciência mais abrangente e curiosa. Por sua vez, as descobertas que resultam da consciência, assim como as escolhas que fazemos baseadas nela, permite-nos ser mais mindful a cada momento. Enquanto grupo, a raça humana está permanentemente à procura de mais mecanismos, gadgets e apps. Porém, a melhor ferramenta existente é o poder de uma mente devidamente treinada e refinada. É leve, portátil, sustentável, renovável e gratuita… e é nossa.
Tradução de Raul C. Gonçalves
http://www.mindful.org/what-happens-after-now/

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