Investigadores de Coimbra criam programa pioneiro para a infertilidade

Por Ana Cristina Marques
in Observador | 21 de julho de 2014
A ideia é melhorar a qualidade de vida das mulheres que sofrem de infertilidade, mas também libertá-las de sentimentos como vergonha ou derrota. O programa tem por base a técnica milenar mindfulness.
Melhorar a qualidade de vida, mas também reduzir a ansiedade e a depressão das mulheres que vivem a experiência da infertilidade. Foi com esse propósito que uma equipa do Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), da Universidade de Coimbra, desenvolveu e testou o primeiro Programa baseado no Mindfulness para a Infertilidade (PBMI). Os resultados foram positivos e, mais importante, eficazes.
Por partes. A investigação foi aplicada em 55 mulheres inférteis, de diferentes idades e a realizar tratamento médico em Lisboa, Porto e Coimbra. Mas abrangeu também o acompanhamento de um grupo de controlo, sem intervenção, constituído por 41 mulheres igualmente afligidas pela doença.
Antes do arranque do programa, que contou com a Associação Portuguesa de Fertilidade, os dois grupos foram sujeitos a uma avaliação psicológica e ambos revelaram elevados níveis de ansiedade e de depressão. No final, completadas as 10 sessões semanais, as conclusões: enquanto as mulheres do grupo de controlo não registaram alterações psicológicas expressivas, as que foram submetidas à intervenção viram ser diminuídos os sentimentos negativos. Falamos de vergonha, derrota ou autocompaixão. Os ganhos mantiveram-se passados seis meses.
Posto isto, é preciso perguntar: o que é o mindfulness? Em comunicado, José Gouveia, o coordenador dos estudos, explica que o mindfulness é um treino mental que ensina as pessoas a lidarem com os seus pensamentos e emoções. “Muda o relacionamento com a nossa mente, ensina a distinguir o pensamento útil daquele inútil ou mesmo prejudicial. É uma abordagem que evidência a transitoriedade das emoções”.
No caso de uma mulher infértil, pensamentos como “eu nunca vou ser mãe” impossibilitam a pessoa de perspetivar corretamente a situação. “Podemos ter uma relação com o pensamento que acarreta estados mais negativos e dolorosos. O programa quer ajudar as mulheres a tornarem-se mais realistas”, diz Ana Galhardo, uma das investigadoras envolvidas. “Muitas vezes as pessoas estão altamente centradas neste problema [infertilidade] e acabam por descurar algumas dimensões na sua vida”. É uma questão de clarificação de valores, garante a também psicóloga clínica e docente no Instituto Superior Miguel Torga.
O mindfulness é um técnica milenar que tem origem na tradição budista, mas nem por isso é religiosa ou esotérica. Ao contrário do que muitos possam pensar, não tem como objetivo alcançar um estado de espírito especial. Neste caso, a sua vertente prática traduziu-se em exercícios que foram realizados ao longo das sessões, através de um guião estruturado. É exemplo o bodyscan, que implica percorrer várias partes do corpo para perceber as sensações presentes e ausentes, o que ajuda a desenvolver consciência corporal. Em suma, são exercícios que ajudam a trazer a pessoa para o momento atual. “Sabemos que a mente humana divaga, que vai tanto para o passado como para o futuro. Às vezes estamos pouco tempo no presente”, explica Galhardo.
Voltando ao estudo, os respetivos maridos ou companheiros foram convidados a assistir às respetivas sessões, até porque a infertilidade é vista como algo inerente ao casal e não exclusivo à mulher. No entanto, a investigação focou-se no sexo feminino por causa da extensa literatura que aborda a infertilidade, segundo a qual as companheiras são o elemento mais sobrecarregado do casal. Ana Galhardo não consegue dar dados reais de quantas mulheres sofrem da doença em Portugal, mas acha que estes não devem andar muito longe da realidade vivida noutros países europeus. Razão pela qual diz ser possível que uma em cada seis ou dez possa padecer da doença.
Depois de os dados estarem tratados e publicados, a ideia é avançar com o programa em duas vertentes — tanto clínica, uma nova edição realiza-se em outubro, como orientada para a investigação. A ferramenta de intervenção psicológica, desenvolvida pela equipa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da UC, é tida como pioneira e, garantem os membros envolvidos, está a gerar interesse junto da comunidade científica internacional. Na calha estão parcerias com uma universidade holandesa, um hospital belga e uma clínica de fertilidade da Noruega.

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