Nem tudo o que reluz é ouro

Roman Krznaric, filósofo e sociólogo britânico, escreve para a TIME sobre as suas reservas à chamada “revolução mindfulness”, cita Matthieu Ricard e acusa o mindfulness secular de estar a alterar o ideal de carpe diem.
Respire. Esteja ciente do momento presente. Viva aqui e agora. Tudo termos já bastante familiares à generalidade das pessoas, já que vivemos em plena revolução mindfulness. Os cursos de atenção plena têm-se espalhado por todo o mundo, com centenas de milhar de pessoas a frequentarem aulas de MBSR (redução de stress baseado em mindfulness) e de outras técnicas de meditação, em centros, empresas, escolas, hospitais e estabelecimentos prisionais. Além disso, uma multiplicidade de estudos vêm sugerindo que estamos perante uma quase milagrosa cura para tudo, desde a ansiedade à depressão, passando pelas doenças coronárias.

No entanto, um crescente número de vozes críticas tem vindo a colocar o mindfulness sob radar. Afinal, pode ser que ele não seja a panaceia para o bem-estar da humanidade que muitos foram levados a acreditar.

Uma dessas vozes é, surpreendentemente, a do monge budista francês Matthieu Ricard, um nome de primeira grandeza no mundo sobre mindfulness. Tive a ocasião de lhe perguntar recentemente qual era a sua opinião sobre as versões seculares de mindfulness, actualmente tão populares, como o MBSR e o MBCT (terapia cognitiva baseada em mindfulness), as quais são normalmente apresentadas como “meditação budista sem budismo”. Uma vez que se tratava de alguém com quatro décadas de meditação nas encostas escarpadas dos Himalaias – e com a reputação de ser “o homem mais feliz do mundo” – estava absolutamente convencido de estar perante um grande defensor destas técnicas. A sua resposta deixou-me, por isso, espantado.

“Há muita gente a falar de mindfulness, mas o termo está a ser tomado de uma forma demasiado literal, restritivo a ‘ser mindful’. Ora a verdade é que podemos ter um sniper ou um psicopata muito mindful. Um sniper tem que estar totalmente focado, sem nunca se distrair, muito calmo, trazendo continuamente a sua atenção para o momento presente; e sem julgamentos – mata sem qualquer julgamento. Isto é perfeitamente possível!”, disse.

Esta história foi-me contada num tom meio a sério, meio a brincar. Mas é um facto que os cursos de mindfulness têm-se tornado cada vez mais presentes no treino militar (onde, aí sim, os snipers são de verdade), ao mesmo tempo que têm invadido o mundo empresarial com um “McMindfulness” para ajudar a “destressar” operadores da bolsa a manterem-se calmos e focados no meio da turbulência dos mercados e das grandes transacções financeiras. É corrente encontrar o fundador do MBSR, Jon Kabat-Zinn, a dirigir sessões matinais de mindfulness para CEO no Fórum Económico Mundial, em Davos.

A questão, segundo Matthieu Ricard, é que este movimento oferece, basicamente, um mindfulness expurgado da sua componente moral. É uma atenção plena ao “eu, eu, eu”, que até pode fazer a pessoa sentir-se bem, mas que não é, necessariamente, bom. Ao contrário, o monge francês acredita que as tradições ancestrais budistas oferecem o tão necessário enquadramento ético que agregam conceitos como a compaixão, a empatia e o cuidado amoroso. Embora os cursos seculares pudessem facilmente incluir esta perspectiva mais ampla de valores, a maior parte não o faz (estão demasiado ocupados a “empacotar” um mindfulness dirigido a esta era hiperindividualista).

Mas o mau uso generalizado do mindfulness é ainda mais profundo, acabando por alterar o ideal ancestral de carpe diem (colha o dia/aproveite o momento) o qual remete para um poema escrito no ano 23 a.C. pelo poeta romano Horácio: “Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento foge de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.” Baseando-se nesta mensagem, o significado primeiro de carpe diem foi, durante séculos, o de aproveitar as oportunidades passageiras que se apresentam na vida, sejam elas uma mudança de carreira ou o resgatar de um casamento.

E, no entanto, a minha investigação baseada em milhares de fontes (desde blogs a discursos políticos) mostra que 20% das pessoas associam hoje a ideia de carpe diem a estar ciente aqui e agora; o que não corresponde minimamente em termos históricos. Uma expressão com mais de 2000 anos está a perder o ser verdadeiro significado.

Além disso, o mindfulness tem dominado de tal forma a cultura que acaba por afastar outras formas de estar presente ao momento. O foco na respiração é seguramente uma forma para se chegar a esse estado, mas existem pelo menos outras três alternativas igualmente válidas para o ser humano entrar no ‘agora’. São elas:

Fluência – acontece quando se está de tal forma envolvido numa actividade que todo o sentido de tempo desaparece, permanecendo-se completamente no tempo presente. Acontece frequentemente quando está envolvido um desafio físico ou creativo (ou os dois em simultâneo, como no caso de um jogo muito intenso de futebol) e é muito diferente da respiração calma mindful.

Exuberância – quando se experimenta uma alegria tão transbordante/entusiasmo pela vida que torna impossível não se viver no momento. Segundo dados da Dra. Kay Redfield Jamison, entre 6% a 10% da população partilha este traço de personalidade.

Êxtase – um termo com origem na palavra grega ekstasis, significa sair de si. Há imensas situações na vida comum onde isso pode acontecer, e que vão desde o sexo à dança. Parte da mágica associada às experiências extáticas deve-se ao facto da pessoa entrar, inconscientemente, num estado de ciência plena do momento presente.

E, então, devemos por isso abandonar o mindfulness? De maneira nenhuma. Só não devemos permitir que ele monopolize todas as nossas formas de presença ao aqui e agora. Devemos, pois, cultivar fluência, exuberância e êxtase como formas igualmente gratificantes de aproveitar o momento presente. E, ao mesmo tempo, seria sensato admitir que o mindfulness está longe de ser algo moralmente inócuo. ●

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