O “eu” não é constante, está sempre a mudar

Evan Thompson, da Universidade da Colúmbia Britânica, decidiu testar a crença budista de anatta. Segundo o investigador, não só não existe nenhum “eu imutável” como parece não ser esta a única área onde a neurociência e o budismo convergem.

Por Olivia Goldhill/Quartz | Eutah Mizushima (foto)
Publicado na Mindmatters magazine No.1 
Embora você não se recorde da sua vida quando era bebé, é muito provável que acredite que a sua individualidade de então – o seu ser essencial – era intrinsecamente a mesma de hoje.

No entanto, os budistas defendem que isso não passa de uma ilusão – uma filosofia que está cada vez mais a ser corroborada por estudos científicos.

“Os budistas argumentam que nada é constante, tudo muda ao longo do tempo, que o nosso fluxo de consciência está em permanente mudança”, afirmou Evan Thompson, professor de filosofia na Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá. “Na perspectiva da neurociência, o cérebro e o corpo estão num fluxo constante. Não há nada que corresponda ao sentido de que exista um “eu” imutável.”

Embora a neurociência e o budismo tenham chegado a esta conclusão de forma independente, alguns investigadores começaram, recentemente, a referir esta religião oriental nos seus estudos, acabando por aceitar teorias formuladas, pela primeira vez, por monges budistas há milhares de anos.

Um trabalho sobre neurociência, publicado em Julho na revista Trends in Cognitive Science, liga a crença budista de que o nosso “eu” está em permanente mudança a áreas físicas do cérebro. Há elementos científicos de que “o autoprocessamento no cérebro não está localizado numa determinada região ou rede, antes se estende a uma ampla gama de flutuações de processos neurais que não parecem ser especificamente seus”, escrevem os autores.

Evan Thompson, cujo trabalho inclui estudos de ciência cognitiva, fenomenologia e filosofia budista, diz que esta não é a única área em que a neurociência e o budismo convergem. Alguns neurocientistas, por exemplo, acreditam agora que as faculdades cognitivas não são fixas, antes podem ser treinadas através da meditação; e que pode haver sustentação científica para a crença budista de que a consciência se prolonga ao estado de sono profundo.

“Na perspectiva geral da neurociência, o sono profundo é um estado de ‘apagão’ onde a consciência desaparece”, diz Evan Thompson. “Na filosofia hindu, alguns teóricos defendem a existência de uma consciência subtil que continua presente no sono sem sonhos, existindo apenas uma falta de capacidade para consolidar isso numa memória continuada.”

Estudos sobre padrões de sono de meditadores sugerem que este possa ser, de facto, o caso. Um estudo publicado em 2013 descobriu que a meditação pode ter um efeito sobre os padrões da actividade eléctrica do cérebro durante o sono, indicando esses dados que pode haver capacidade para “processar informação e manter algum nível de consciência, mesmo durante um estado onde, normalmente, estas funções cognitivas são altamente limitadas”, segundo os investigadores.

Porém, nem a neurociência nem o budismo têm uma resposta definitiva sobre como, exatamente, a consciência se relaciona com o cérebro. E os dois campos divergem sobre certos aspectos do tema. Os budistas acreditam que há alguma forma de consciência que não é dependente do corpo físico, enquanto os neurocientistas (e Evan Thompson) discordam.

O investigador, no entanto, concorda com os budistas de que o “eu”, de facto, existe. “Na neurociência, deparamo-nos muitas vezes com pessoas que afirmam que o ‘eu’ é uma ilusão criada pelo cérebro. A minha opinião é que o cérebro e o corpo trabalham em conjunto no contexto do nosso ambiente físico para criar um sentido do ‘eu’. E é um erro dizer que só porque se trata uma construção, isso seja uma ilusão”.

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