O efeito mindfulness na predisposição implícita

 

Investigadora da Universidade de Oxford dá a sua visão, a partir de um ponto de vista ético e filosófico, sobre predisposição implícita e a acção da meditação mindfulness na associação automática.

Por Hannah Maslen | Alessandro Gottardo (ilustração)
in Practical Ethics/Mindmatters Magazine Nº 1

Ao afectar todas as formas de interacção interpessoal, as predisposições implícitas são comportamentos ou associações não conscientes com influência ao nível do nosso entendimento, acção e decisão. A predisposição implícita pode ser revelada através de testes de associação implícita (TAI), os quais medem o grau de associação a um determinado estímulo, como no caso de palavras com carga negativa ou positiva versus traços fisionómicos de pessoas brancas ou negras.

Por exemplo, as pessoas de raça branca são melhores a categorizar palavras positivas em relação a rostos que representam brancos e palavras negativas aos que representam negros. Muitas vezes, no entanto, esta predisposição implícita não corresponde à posição explícita da pessoa em relação a uma minoria racial ou demográfica: mesmo o mais fervoroso defensor (branco e jovem) do igualitarismo pode apresentar predisposição implícita em relação a rostos representando negros ou idosos.

Os investigadores Adam Lueke e Bryan Gibson, do Departamento de Psicologia da Universidade Central de Michigan, no seu estudo “Mindfulness Meditation Reduces Implicit Age and Race Bias. The Role of Reduced Automaticity of Responding”, publicado na revista científica Social Psychological & Personality Science, procuraram investigar possíveis efeitos da meditação mindfulness sobre as associações implícitas. O mindfulness, segundo apresentaram, “foca o indivíduo no momento presente e encoraja os seus praticantes a observarem, sem julgamentos, pensamentos e emoções enquanto eventos mentais e não como sendo parte de si mesmo. Isto permite ao indivíduo compreender e reflectir nesses mesmos eventos como momentos transitórios separados de si, inibindo a tendência natural de avaliação e reacção automática.” Os dois investigadores procuraram, principalmente, isolar o efeito mindfulness na ‘activação automática’ – “a probabilidade de uma associação ou avaliação ser automaticamente activada quando um objeto de estímulo é identificado”, distinto do efeito de ‘superação da tendência’ – “a possibilidade de uma associação inicialmente activada poder ser ultrapassada e substituída por uma resposta adequada” -, entre outros parâmetros. Esta diferença sugere que as suposições de Lueke e Gibson referiam-se especificamente ao poder que o mindfulness pode ter na prevenção ou eliminação da própria associação automática, e não sobre qualquer poder que essa meditação pudesse conferir ao indivíduo no sentido de controlo sobre a influência comportamental na associação automática.

Nesta investigação, Lueke e Gibson usaram uma amostra constituída por jovens de raça branca, divididos aleatoriamente em dois grupos: o experimental e o de controlo. O grupo experimental recebeu uma gravação de dez minutos sobre mindfulness, a qual os instruía a “tomarem uma atenção consciente às sensações do corpo (batimento cardíaco e respiração) e a aceitarem plenamente as sensações e pensamentos, sem condicionalismos, resistências ou julgamentos.” Ao grupo de controlo foi-lhe dado ouvir uma gravação de um debate sobre história natural. Os participantes de ambos os grupos completaram testes TAI sobre raça (branco/negro) e idade (jovem/idoso).

Os resultados mostraram que o grupo experimental apresentou menores níveis de predisposição implícita – tanto nas questões de raça como nas de idade. Realce ainda para um facto extremamente importante: enquanto o modelo analítico revelava uma diferença significativa entre os dois grupos em relação à “activação automática”, não se verificou qualquer diferença significativa quanto à “superação de tendência”. Isto sugere, segundo os autores, que o mindfulness, mais do que ajudar no controlo da activação de associações, pode prevenir que a própria associação automática seja activada.

A redução deste tipo de predisposição implícita é indiscutivelmente um factor positivo. No entanto, a forma precisa em como ela é alcançada poderá ser filosoficamente relevante. Os autores reconhecem que o seu estudo não torna transparente o mecanismo inerente à redução do efeito de predisposição, sendo que os seus pressupostos são baseados no seu entendimento sobre o alcance do mindfulness, particularmente em relação aos seus efeitos sobre a consciência da pessoa:

“O iniciante que se submete à meditação breve é transportado para um estado de consciência plena de sensações e pensamentos e respectiva aceitação, sem julgamentos. No entanto, o seu efeito deverá dissipar-se (…). Ao contrário, o praticante experiente não só está envolvido com a meditação de forma mais continuada, o que permite que a consciência sem julgamentos seja experienciada mais vezes, como, através dessa consistência, cria um novo estado padrão de ser – uma consciência que permite uma maior expectativa sobre si mesmo e respectivas experiências do dia-a-dia. Desta forma, uma experiência mindful mais profunda pode ser cultivada, ampliando a área de consciência plena ao alcance da pessoa. Este tipo de consciência alargada e consistente tem efeitos poderosos sobre as atitudes implícitas e consequentes comportamentos”.

No entanto, não é totalmente claro o que é que é entendido aqui por “consciência plena”. Será a suposição de que a pessoa mindful se torna mais ciente das suas atitudes implícitas? Porém, esta leitura estaria em choque com as descobertas dos autores no sentido do mindfulness prevenir a activação de associações automáticas, particularmente nos casos onde a consciência de uma determinada característica cognitiva exige, no mínimo, algum tipo de manifestação. Para complicar ainda mais a questão, a referência à “aceitação sem julgamento” de sensações e pensamentos parece casar mal com a ideia de meditação enquanto mediador de supressão de associações preconceituosas.

Jules Holroyd, investigadora do Departamento de Filosofia da Universidade de Nottingham, escreveu recentemente sobre a relação entre predisposição implícita, consciência e culpa moral. O seu trabalho Implicit bias, awareness and imperfect cognitions sugere que muito pode decorrer da natureza da consciência precipitada pelo mindfulness (se é que existe, de facto, um tipo de consciência que ‘faz o trabalho’ de reduzir a predisposição implícita no estudo). A investigadora apresenta três tipos distintos de consciência relacionadas com predisposição implícita:

– Consciência introspectiva sobre o processo cognitivo (predisposição) pessoal;
– Consciência inferida (probabilidade de manifestação) da tendência pessoal em relação aos dados empíricos do fenómeno;
– Consciência empírica dos efeitos de predisposição implícita no comportamento da pessoa (ex.: consciência de prestar um tratamento diferente em relação a um ‘out-group’).

Jules Holroyd examina até que ponto a falta de consciência plena é culpada relativamente à predisposição implícita e, fundamentalmente, aos comportamentos discriminatórios que ela precipita.

A cientista argumenta que, por razões diferentes, no que diz respeito à predisposição implícita, nem a consciência introspectiva nem a inferida são uma condição para responsabilização moral. A consciência introspectiva não é normalmente possível e conhecimentos sobre investigação na área da psicologia é algo que não podemos esperar que a maior parte das pessoas possua ou venha a adquirir. Assim sendo, não se trata, pois, das pessoas deverem ser inferencial ou introspectivamente cientes da sua predisposição implícita. No entanto, defende Jules Holroyd, seguindo esta linha, falhas de consciência não servem para desculpar aquele que manifesta tendências discriminatórias. Pelo contrário, a autora afirma que uma falta de consciência empírica sobre os efeitos da predisposição implícita pode, nalguns casos e em condições particulares, ser pessoalmente condenável (por exemplo, não dar importância a determinados comportamentos negativamente diferentes em relação a outra pessoa ou quando nos auto-iludimos no sentido de que não manifestamos qualquer comportamento discriminatório).

A partir desta peça, podemos começar a perceber porque é que o tipo de consciência gerado pelo mindfulness pode ser moralmente relevante, assim como empírica e conceptualmente interessante. Se a consciência referida por Lueke e Gibson for particularmente semelhante ou relacionada com o tipo de consciência introspectiva destacada por Jules Holroyd, tal pode implicar com uma das suas suposições: “os processos implícitos, não nos parecem ser, no geral, ‘funcionalmente transparentes’ no sentido de que não é possível obter uma consciência introspectiva sobre como funcionam.” Se fosse possível ter consciência introspectiva sobre associações implícitas então as nossas falhas de consciência no que a tal diz respeito poderiam, nalgumas circunstâncias, ser condenáveis.

Pessoalmente, não sei muito sobre mindfulness, embora oiça entusiásticos relatos por parte dos seus praticantes. A minha intuição é que Lueke e Gibson não sugerem que a prática da meditação mindfulness torne o funcionamento das predisposições implícitas transparentes, até porque o mais provável seria que um efeito desse tipo reduzisse os resultados dos TAI através do mecanismo de ‘superação de tendências’, pelo qual o controlo é exercido pela influência de associações comportamentais. Pelo contrário, a sua sugestão é que a consciência que é facilitada pelo mindfulness reduz os valores do TAI pela desactivação dos preconceitos automáticos. Portanto, pergunto-me a mim mesma que papel (se algum) desempenha aqui a atenção consciente.

Uma possível explicação em relação às suas descobertas é que o mindfulness sirva para acalmar e preparar o praticante de forma a que essas emoções – e consequentes respostas emocionais positivas e negativas – sejam limitadas. Emoções contidas poderão levar eventualmente a um processamento mais neutral dos estímulos. Consequentemente, uma outra leitura da análise de Lueke e Gibson é que a consciência que eles referem deva ser entendida, não como uma consciência (de pensamentos ou associações) mas, antes, como um estado de espírito de calma, o qual modifica o estilo do agente do processo cognitivo.

Por esta leitura, a consciência está menos ligada ao conhecimento e à crença e mais ao atingir de um determinado estado mental.

Seja qual for a interpretação mais correta, este estudo sugere a necessidade de os psicólogos investigarem mais sobre os mecanismos envolvidos na redução da predisposição implícita e, principalmente, até que ponto isso afeta a sua transferência para situações ecologicamente validadas.

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