Alarme accionado: 60% dos primatas ameaçados de extinção

Já não é novidade, mas a situação tem vindo a agravar-se. Muitos primatas correm o risco de desaparecer e um grupo de cientistas fez mais um alerta e sublinhou o papel social e cultural destes animais
Por Teresa Serafim | Varshesh Joshi (foto)
in Público – 23 de janeiro de 2017
Biologicamente, os grandes símios são muito semelhantes aos seres humanos. Mas nem essa semelhança tem sido suficiente para salvaguardar a biodiversidade dos primatas. Das 504 espécies de primatas existentes, cerca de 60% estão ameaçadas de extinção e 75% delas tem tido reduções na sua população. A situação agravou-se desde 1996. Agora, um grupo de cientistas publicou um artigo na última edição da revista Science Advances, onde menciona quais são os factores de risco, salienta a importância dos primatas e da adopção de medidas para que esta situação seja revertida.
Quando se refere que os primatas estão ameaçados, falamos de símios, macacos, társios, lémures ou de lóris. Considerando todos estes primatas, a equipa elaborou um relatório tendo dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês), ou as pressões causadas pela economia global e regional, como o tráfico ilegal de espécies e a caça excessiva.
Os dados neste relatório são alarmantes e as ameaças ocorrem sobretudo em quatro regiões: 87% das espécies em Madagáscar estão em risco, 73% na Ásia, 37% em África e 36% na região tropical desde a América Central até à América do Sul. Verificou-se também que dois terços das espécies ameaçadas se encontram em quatro países: Brasil, Madagáscar, Indonésia e República Democrática do Congo. “Infelizmente, nos próximos 25 anos, a maioria destas espécies de primatas irá desaparecer, a menos que haja um plano de conservação global urgente”, afirma Paul Garber, da Universidade do Illinois, nos Estados Unidos, e co-coordenador do relatório, citado em comunicado daquela instituição.
Mas o que tem provocado tal ameaça? Vários factores têm posto em risco as populações de primatas. De acordo com o artigo na Science Advances, as espécies têm sido ameaçadas pela desflorestação, a extracção de combustíveis fósseis, o tráfico legal e ilegal de primatas, a caça excessiva ou a agricultura intensiva. “Muitas práticas agrícolas são prejudiciais e destroem os habitats de 76% de todas as espécies de primatas do planeta”, disse Paul Garber.
Também as alterações climáticas têm contribuído para esta crescente ameaça. “Apesar de provas empíricas referirem que o impacto das alterações climáticas nos primatas é insignifi cante, uma avaliação global mais recente mostra que muitos primatas sentiram as mudanças climáticas durante o século XXI, na Amazónia, na Floresta Atlântica do Brasil, na América Central e no Sudeste Asiático, considerados pontos cruciais para a vulnerabilidade dos primatas”, lê-se no artigo científico.
Uma janela para a evolução
A equipa de investigadores sublinha também como os primatas são importantes a nível social e cultural, destacando que fazem parte da riqueza cultural e biológica dos países onde se encontram agora ameaçados. Salientam também a sua importância ecológica na cadeia alimentar. E, além disso, consideram que são espécies essenciais para se perceber a história da evolução humana, a nível da linguagem, da cooperação ou da memória. “Cada vez que uma espécie desaparece, nós perdemos um fio da tapeçaria da vida, em que todos os fios estão ligados entre si”, dizia a primatóloga Jane Goodall, que estuda a vida social e familiar dos chimpanzés há mais de 40 anos, numa entrevista ao PÚBLICO em Setembro de 2016.
Este trabalho na Science Advances é igualmente um apelo para que governos, organizações e movimentos de cidadãos tomem medidas e consigam ainda remediar a situação. Como tal, os cientistas apontam várias medidas para atacar o problema: expandir as áreas protegidas, que podem providenciar “santuários da vida selvagem a longo prazo”; controlar o comércio ilegal; reduzir a intervenção humana nos habitats dos primatas; ou reintroduzir na natureza as espécies ameaçadas.
“Temos uma última oportunidade para conseguir reduzir, ou mesmo eliminar, as ameaças que os seres humanos causam nos primatas e nos seus habitats”, escrevem os autores do trabalho no comunicado. “Temos de reunir esforços para a sua conservação e aumentar a consciência global para esta situação difícil.”

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