Centenas de refugiados vivem em tendas cobertas de neve

Temperaturas negativas e nevões destroem tendas e tornam a vida no campo de refugiados de Moria, em Lesbos, cada vez mais difícil.
Por Maria João Guimarães | Mario DeRica/Reuters (foto)
in Público | 11 de janeiro de 2017
Um refugiado vê neve pela primeira vez na Grécia, mas a imagem de uma criança a brincar com bolas de neve logo dá lugar a outra mais assustadora: a das tendas do campo de refugiados, de lona leve própria para o Verão, cobertas pela neve.
As temperaturas na Grécia desceram a pique no fim-de-semana e caiu neve em vários locais com campos de refugiados em que estes moram em tendas.
Em Lesbos, Phillipa Kempson partilhou imagens do campo de Moria, onde é voluntária (e onde vigora uma proibição de filmar ou fotografar), com tendas caídas e neve por todo o lado, e comentou em declarações à estação de televisão americana CNN: “Estou espantada por ainda ninguém ter morrido”. Houve alguns casos de hipotermia mas todos acabaram por recuperar.
Havia refugiados a morar em tendas geladas, ou obrigados a mudarem-se para outras tendas do campo depois de as suas sucumbirem sob o peso da neve. Um grupo saiu mesmo do campo de Moria para tentar abrigar-se num castelo antigo em Mytline, a capital da ilha de Lesbos. Com pequenas fogueiras e tendas frágeis tentavam iludir o frio e a neve. O Alto Comissariadodas Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) disse que tinha transferido grupos mais vulneráveis para hotéis, mas apenas 120 pessoas num total de quatro mil.
As autoridades gregas dizem que há de momento mil pessoas a viver ainda em tendas nos locais com neve.
As autoridades gregas, europeias e as organizações no terreno trocam culpas: a Comissão Europeia declarou que a situação era “inaceitável”, as autoridades gregas culpam as autoridades locais, estas culpam os hotéis que se recusam a receber os refugiados, e a organização Médicos Sem Fronteiras queixa-se tanto de Bruxelas como de Atenas. “Estas famílias estão a pagar o preço do cinismo europeu e do seu acordo com a Turquia”, critica a associação no Twitter, pedindo ao Governo de Alexis Tsipras “condições de vida dignas” para os refugiados.
“Os requerentes de asilo enfrentam campos com mais pessoas do que a sua capacidade, temperaturas geladas, falta de água quente, violência e ataques de ódio”, enumerou Iverna McGowan, directora do gabinete para as instituições europeias da Amnistia internacional. “Ao mesmo tempo que temos pedido uma melhoria das condições na recepção, também dizemos que obrigar os refugiados a ficar nas ilhas só para que possam ser devolvidos à Turquia, nos termos da interpretação do acordo [Turquia-UE], é desumano.”
As transferências para a Grécia continental ou para outros países no esquema de recolocação continuam poucas e lentas. Segundo dados de Janeiro do ACNUR, apenas foram recolocadas até agora 7800 pessoas, ou seja, 12% das 66,400 vagas disponibilizadas pelos países europeus no ano passado.
“É totalmente desumano. Há pessoas presas aqui há um ano. Como é que estas pessoas hão de sobreviver?” questionou Ella Carlquist, da organização humanitária United Rescue Aid, à CNN. “O que temos aqui já não é uma situação de refugiados. São milhares de sem-abrigo sem futuro.”
Críticos dizem que esta é uma situação totalmente evitável. Não se trata de uma tempestade repentina: a descida das temperaturas já estava prevista, e dois dias antes de começar a nevar o ministro grego das Migrações, Yannis Mouzalas, garantia que não haveria refugiados a passar frio.  
E se o primeiro passo para resolver esta crise seria tirar os refugiados que ainda estão nas ilhas, a verdade é que também em Atenas ou Salónica há problemas. A capital grega está com neve e na segunda maior cidade do país as temperaturas desceram aos 10 graus negativos. A Acrópole parece mágica coberta de branco, mas há muitas pessoas a sofrer com o frio: desde refugiados a viver em abrigos em casas ocupadas a sem-abrigo vítimas da crise, passando por pessoas que mantém as suas casas mas não têm como as aquecer. Na semana passada uma mulher idosa morreu intoxicada depois de acender um braseiro em casa, no Norte do país.
Os Médicos Sem Fronteiras chamam ainda a atenção para outros locais em que refugiados estão sem habitação adequada para as temperaturas: na Sérvia, há mais de 7500 pessoas que esperam para seguir viagem e as temperaturas estão nos -4ºC. “É incrível como as pessoas estão ainda a sobreviver nestas condições”, comentou um investigador da Amnistia Internacional, Todor Gardos.
Mas nem sempre a história acaba bem: na Bulgária, dois iraquianos e uma somali foram encontrados mortos nas montanhas perto da Turquia na semana passada – tinham morrido de frio.

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