Compaixão consciente

Por Bhikkhu Bodhi*
in Buddhist Global Relief | Inverno de 2015  Ver artigo original
A inspiração e os ideais por detrás da organização Buddhist Global Relief é uma qualidade à qual chamo compaixão consciente. A compaixão consciente difere daquela que se contenta em observar passivamente o sofrimento alheio enquanto envia desejos piedosos de felicidade. Ela associa intenções altruístas com cometimento com a ação deliberada e prolongada, um ativismo guiado por uma visão moral e por um ideal de um mundo com mais justiça, harmonia e paz.
A compaixão consciente emana do reconhecimento de que num mundo interdependente o destino de cada um de nós está ligado ao destino do coletivo. Através da compaixão sentimos o sofrimento do outro como se fosse o nosso; através da consciência cada um está disposto a tomar responsabilidade pessoal pelo bem estar do outro e a agir no sentido de melhorar as suas condições de vida. A compaixão consciente atende aos mais fracos e desamparados: aos pobres, aos oprimidos e aos mais vulneráveis, os quais são, normalmente, os mais indefesos. Há que os resgatar em face da guerra, da violência, da pobreza e da opressão. Mais, há que combater as causas responsáveis por estas injustiças e afirmar o direito de todos os povos a uma vida materialmente segura, em paz e em liberdade.
Vejo a compaixão consciente como resultado do encontro – do fluir conjunto – de dois valores subordinados que se complementam e se fortalecem mutuamente. Um é o compromisso com a justiça; o outro é o amor, uma preocupação sincera com o bem-estar do outro. O sentido de justiça assenta na premissa de que todo o ser humano é intrinsecamente valioso, que possui uma inviolável dignidade que deve ser respeitada por todos e pelas instituições que são a expressão da nossa vontade coletiva. Decorre ainda deste princípio que todas as pessoas têm igualmente direito a alguns direitos inalienáveis decorrentes do simples facto da sua humanidade. Sejam brancos, pretos ou castanhos, sejam homens ou mulheres, seja na América, na Europa, na Ásia, na África ou em qualquer outro lugar, cada pessoa é dotada de um valor intrínseco que não pode ser diminuído, comprometido ou negado.
Aceitar a justiça enquanto ideal orientador significa estar pronto a fazer frente às injustiças, fazer oposição às políticas, programas e forças sociais que ameaçam privar populações dos seus direitos e da segurança que deveriam usufruir em razão da sua natureza humana. O compromisso com a justiça motiva a vontade para resistir aos perpetradores das injustiças, independentemente do seu poder, riqueza e influência. Resiste-se, tendo em conta que, a longo prazo e no seu sentido mais profundo, o triunfo da justiça é para benefício de todos.
Mas o compromisso com a justiça também pede ações construtivas, apostas positivas, por menores que sejam, capazes de contribuir à construção de um mundo melhor. Para efetivar justiça neste sentido, duas coisas são necessárias: assegurar o acesso das pessoas aos mínimos materiais requeridos a uma vida digna, designadamente: alimentação, água potável, habitação, saneamento básico e meio ambiente saudável; e, ainda, criar as condições de segurança a nível económico e de proteção aos mais vulneráveis contra a violência e a opressão social.
Contudo, o primeiro requisito, aquele que é mais urgente, é garantir a alimentação das pessoas. Muitos dos projetos em que a Buddhist Global Relief está envolvida garante ajuda alimentar a vítimas de má nutrição e fome crónica. Fazêmo-lo através do apoio a diversos programas que oferecem diretamente comida aos que têm fome, que proporcionam aos mais pobres formas de saírem da miséria e, também, na ajuda a pequenos agricultores no sentido de obterem os recursos necessários a um melhor desenvolvimento dos seus cultivos, de forma harmoniosa com o seu meio ambiente.
Embora o primeiro imperativo de justiça seja garantir a segurança e a saúde das pessoas, o segundo é possibilitar o seu desenvolvimento, ou seja, a obtenção de uma vida plena. Para que as pessoas possam desabrochar, elas devem ser livres de perseguir as suas aspirações, de realizar o seu potencial, de aproveitar as suas capacidades e talentos pessoais. Garantir alimentação e outros bens de segurança física é a primeira etapa deste processo. Quando alguém é obrigado a se debater diariamente contra a fome e a pobreza, o seu desenvolvimento e potencial pessoal é abafado e deixado inexplorado.
No entanto, providenciar os meios de bem-estar físico não é suficiente para o desabrochar da pessoa humana. A chave para ajudar as pessoas a realizarem o seu mais elementar potencial é a educação. A educação é capaz de escavar o potencial enterrado profundamente na mente que, de outra forma, permaneceria escondido; espalha luz nos recantos mais sombrios, alimenta sementes que ainda não germinaram; abre as portas a uma vida mais completa, a uma vida mais rica em significado e propósitos e dá-nos os meios capazes de beneficiarem a nossa comunidade, o nosso país e o mundo.
É por esta razão que a Buddhist Global Relief apoia programas que levam a educação a crianças pobres, particularmente às raparigas. Em muitos países a educação é ainda hoje tratada como um privilégio e não como um direito universal, e um privilégio dado aos rapazes em detrimento das raparigas. E, no entanto, a nossa convicção é que as raparigas possuem tanto potencial para desenvolver uma vida com significado quanto os rapazes, que a sua contribuição para a sociedade pode ser igualmente valiosa e, consequentemente, merecem a mesma oportunidade de acesso à educação do que os rapazes.
Um dos exemplos de como promovemos a educação para raparigas é o programa GATE no Camboja. GATE são as iniciais para “Girls Acess To Education” (acesso de raparigas à educação). O programa fornece ajuda alimentar em arroz às famílias de crianças pobres em condições que lhes permitam que as suas filhas permaneçam na escola. Quase todas as raparigas que começaram com o programa GATE no ensino secundário completaram o respectivo ciclo; dessas, neste momento cerca de cem, continuaram até ao nível superior. Trata-se de raparigas dos estratos mais carentes do Camboja, um país extremamente pobre que tem sido devastado ao longo de décadas de guerra civil. Sem o mecenato providenciado pelo GATE, estas raparigas teriam sido forçadas a deixar os estudos para trabalhar para ajudar no sustento das respectivas famílias. Uma alta percentagem delas poderia mesmo ter acabado em bordeis, presas a uma vida de sofrimento. Mas, agora, através do mecenato que providenciamos através do nosso parceiro, a Lotus Outreach, estas raparigas estão matriculadas em faculdades, estudando para serem professoras, médicas, enfermeiras, contabilistas, engenheiras e decisoras políticas. Esperamos, com confiança, que elas se venham a tornar nas futuras lideranças e agentes de mudança nas respectivas comunidades.
O segundo factor para a compaixão consciente é o amor. O amor suaviza os tons carregados do chamamento por justiça e reforça a premência de agir a partir do coração. A palavra “amor” tem muitas matizes, desde um significado mais ligeiro até ao mais profundo; aquele a que me refiro é mais profundo, uma preocupação sobre o bem-estar do outro que vem do coração, um desejo continuado pela sua segurança e felicidade. Este tipo de amor estende-se idealmente por todos os seres humanos, mesmo por aqueles que nos são desconhecidos, baseado no reconhecimento da nossa humanidade comum. Verte do entendimento de que toda a pessoa é o centro de uma experiência subjetiva, uma estrela orientadora de todo um mundo, um particular momento decisivo do universo. Proteger cada pessoa é, consequentemente, proteger o mundo.
As características salientadas do amor podem ser resumidas na palavra “solidariedade”, esse sentimento de unidade com o outro. O sentido de solidariedade está enraizado no sentimento de que cada ser humano partilha connosco a mesma natureza essencial: de que toda a pessoa deseja viver e não morrer; ser feliz e livre do sofrimento, de perseguir os seus ideais e alcançar as suas aspirações. Quando desenvolvemos o amor baseado no sentido de solidariedade, o nosso empenho está em estender a todos o mesmo tipo de preocupação que mostramos em relação à nossa mãe, pai, filho ou filha: protegê-los do mal, livrá-los do sofrimento, conseguir as condições necessárias a que vivam felizes e em paz.
Quando o compromisso com a justiça é acompanhado e aglutinado ao espírito de amor, o que daí resulta é compaixão consciente: uma compaixão decorrente do contrato com as altas exigências de justiça e pelo desejo ardente de desenvolvimento e realização plena do outro. Desde o início, este tem sido o ideal inspirador da Buddhist Global Relief. E tencionamos mantê-lo como vanguarda orientadora durante muitos mais anos.
Tradução de Raul C. Gonçalves
*Ven. Bhikkhu Bodhi, monge budista theravada natural de Nova Iorque, EUA, fundou em 2008 a Buddhist Global Relief, uma organização sem fins lucrativos de combate à fome e de assistência à educação em países que sofrem de pobreza crónica e desnutrição.

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