Poluição Sonora: o inimigo “silencioso”

Por Andrea Pereira
em exclusivo para Mindmatters

     Sentada, em casa, cinco horas da tarde. A paisagem sonora a que estou sujeita é possível que tenha momentos de silêncio, mas estes são imperceptíveis: o som do computador, das teclas com a acção da escrita, os carros que passam na estrada com intervalos de poucos segundos entre si, um “dling dlong” misterioso e constante, há anos por descobrir de onde vem, raras conversas banais debaixo do alpendre da janela, o som de taça tibetana que por vezes me indica que recebi uma mensagem, e os telefonemas esporádicos. É um sítio calmo, este onde estou, mas moderadamente poluído, em termos sonoros. Como cerca de 70% dos portugueses, vivo numa área urbana, e quanto maior a concentração humana, maiores os níveis de poluição e a poluição sonora obedece à regra.

    O conceito de poluição sonora prende-se mais ao facto do som ser desejável ou não, do que às variáveis volume e duração, apesar destas serem também muito importantes. No seu sentido etimológico a palavra poluir tem o sentido de manchar, sujar. No caso da poluição sonora essa mancha é audível e ao contrário das outras formas de poluição, os seus resíduos são incolores e inodoros e vão-se instalando imaterialmente, sob a forma de interferência, nos organismos dos diferentes seres vivos: sejam seres humanos, seres terrestres ou aquáticos, plantas ou aves.

    Tal como todos os outros seres vivos, o ser humano é capaz de se habituar aos sons que o rodeiam, mas é impressionante o facto de serem precisos ultrapassar os 55 decibéis para que o som comece a ser nocivo para a saúde (dados da Organização Mundial de Saúde), tendo em conta que diariamente estamos sujeitos a muito mais do que 55 decibéis. De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente e com dados de 2016, 60% dos portugueses são vítimas de barulho excessivo e se aumentarmos a escala para a dimensão do planeta falamos de 10% da população com este problema.

    Há uma relação íntima entre o som e a fisiologia humana. Os sons que ouvimos são transformados em impulsos eléctricos enviados para o cérebro, afectando o sistema nervoso central e todas as funções por ele regidas. Assim, o som tem efeitos inequívocos ao nível fisiológico, emocional e comportamental. A poluição sonora é assim uma corrupção subtil do nosso sistema regulador. Os efeitos nefastos do ruído na saúde começam todos pela sua capacidade de incomodar. No entanto, como lidamos com o som a um nível inconsciente e temos capacidade adaptativa, não nos apercebemos da quantidade elevada de barulho a que estamos sujeitos. Tendo a referência dos 55 dB ou até dos 65 dB em que o ruído é já considerado incomodativo, vejamos quantos destes sons são para nós são banais: um restaurante com movimento (pode alcançar os 70 dB),  um secador de cabelo (90 dB); um camião e uma buzina de automóvel (100 dB), tráfego automóvel (70 dB), metropolitano (90 dB), camião do lixo (100 dB).

     A paisagem sonora urbana é constantemente invadida por sons incomodativos, que não se conseguem controlar. A maior fonte é o tráfego automóvel e a esta juntam-se os restantes meios de transporte, indústrias, bares, restaurantes, obras, ruídos domésticos e tecnologias. Apesar de não ser a que mais nos preocupa, esta forma de poluição mata mais do que a poluição atmosférica, de acordo com a OMS. Exposições sonoras a partir dos 65 dB são já geradoras de problemas de stress e consequentemente problemas cardíacos e hormonais. Acima dos 85 dB é a própria audição que começa a ficar comprometida e acima dos 130 dB prevê-se já um quadro de dor.

    Ao nível fisiológico, a exposição à poluição sonora gera diferentes complicações, desde distúrbios no sistema no sistema endócrino, libertanto as chamadas hormonas do stress como o cortisol e a adrenalina; distúrbios cardiovasculares e respiratórios, distúrbios gastrointestinais e auditivos. Ao nível psicológico os efeitos da exposição a sons incómodos com frequência elevada  são: a interferência no sono, o cansaço, dificuldades de atenção e concentração, stress e distúrbios comportamentais. Há também estudos que relacionam a exposição prolongada à poluição sonora,  à demência.

    Não são só ritmos humanos que são afetados pela poluição sonora, esta  é uma das grandes destruidoras dos sistemas ecológicos. Tal como os seres humanos a tendência da fauna animal é afastar-se dos sons desagradáveis e aproximar-se dos agradáveis. Ao provocar a fuga dos animais dos seus habitats naturais, o ruído excessivo desregula os locais de reprodução e caça/alimentação. Não é só devido à fuga das espécies do seu habitat que o problema da alimentação se coloca, a dificuldade surge também na rotina de caça do animal em que este precisa de uma boa audição e não encontra as condições ideais para a ter. No meio aquático os problemas derivados do excesso de barulho são ainda mais graves, pois na água o som propaga-se mais rápido do que no ar, deixando assim os animais marinhos à mercê do problema da poluição sonora, que afeta a própria forma de comunicação de muitas das “estrelas” do oceano, como os cetáceos (baleias, golfinhos) que estão dotados de sonar, e que dependem deste sistema de eco-localização para se alimentar e se orientar. Desconfia-se que o barulho das embarcações possa ser responsável pelos casos de desvio de rotas destes animais e a razão pela qual muitos deles vão parar aos areais das praias.

    Também as plantas são afetadas pelas ondas dos sons poluidores. A polinização das plantas é dependente de diferentes aves e insetos que se afastam dos locais de maior poluição. Por outro lado, uma experiência realizada nos EUA com as plantas do género Coleus, mostrou que  quando estas foram submetidas continuamente a ruído, em alguns casos, verificou-se uma redução de 47% no seu crescimento, devido à perda de água resultante da exposição sonora excessiva.

     O que fazer? O problema da poluição sonora é central na gestão urbana e as formas de redução do som nos espaço públicos passa pela colocação de barreiras de som nas vias rodoviárias com maior densidade, assim como pela construção de pavimentos próprios para a redução do som. Também os pneus podem provocar menos ruído e nesse caso a escolha já passa pelo cidadão, pela opção de escolher os pneus que são menos passíveis de criar ruído. Optar pelos transportes públicos é outra forma de reduzir a poluição sonora pelo facto de se diminuir a circulação rodoviária.

    As árvores são uma forma de cultivar o silêncio. Estudos demonstram que a sua plantação em linhas rectas provoca uma anulação do som. Além deste fenómeno físico de barreira, está também demonstrado que as pessoas que sofrem com a poluição sonora e que têm espaços verdes perto de si sentem-se menos prejudicadas pelo ruído. Por outro lado, os espaços verdes atraem paisagens sonoras agradáveis que têm também um efeito regenerador para o organismo.

     Outra forma de lidarmos com a poluição sonora é conhecê-la. Hoje em dia existem aplicações nos telemóveis com medidores de decibéis. Se soubermos a quanto ruído estamos expostos, podemos evitar as zonas mais afectadas e procurar estar em locais mais silenciosos.

     Finalmente, e porque a poluição sonora começa pelo elemento incomodativo, a prática da atenção plena (mindfulness) pode ajudar no treino da menor reactividade aos aspectos desagradáveis do som. A mesma prática meditativa pode habituar a mente ao silêncio e consequentemente levar a optar pelos locais silenciosos, ganhando novos hábitos de silêncio como não ter sempre a televisão ou o rádio ligados, deixando as diferentes tecnologias em off. ●


Sobre a autora: Estou interessada no desenvolvimento humano nas suas várias vertentes. Tenho um gosto particular em explorar a vastidão interna e a natureza essencial daquilo que nos une a tudo e todos. Em termos profissionais depois de vários anos na rádio enquanto locutora e repórter dediquei-me à comunicação na área do ambiente e agricultura biológica na Associação Portuguesa da Agricultura Biológica, em simultâneo sou instrutora de Hatha Yoga. 

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