Silêncio por favor!

Jordi Matas Delmases (texto)
Kristina Flour/Unsplash (foto)

    Vivemos tempos que reclamam uma profunda reflexão social e política. É preciso repensar o funcionamento da nossa democracia política, inventar novos objectivos sociais, redefinir a nossa escala de valores e renovar comportamentos individuais e colectivos. Para isso, é imprescindível sair da actual tirania comunicacional do imediatismo e da precipitação no quotidiano e partir em busca da introspecção capaz de recuperar o sentido da política e da acção social. Mais do que nunca, é preciso recuperar o silêncio.

    E são muitas as suas virtudes. O  silêncio não  apenas facilita a reflexão, como é indispensável à observação activa, requisitos fundamentais para enfrentar dificuldades, conflitos e contextos sensíveis. É um bom aliado da aprendizagem, da educação, do civismo, do autocontrolo e da empatia; e é um excelente antídoto contra a obsessão, a confusão, a imprudência, a irracionalidade e o improviso. O silêncio é o gérmen do pensamento, dos projectos e decisões individuais e colectivos; e, embora possa parecer contraditório, possui também uma grande capacidade de comunicação, sendo um poderoso instrumento de protesto. O silêncio é respeitador, oferecendo o espaço de meditação e serenidade necessários à acção discreta, sensata e lúcida. E, no entanto, ele já foi mais valorizado do que é hoje.

    Neste mundo dominado pela incontinência verbal, pelo charlatanismo mediático, pela politiquice e pela tagarelice, o silêncio causa incómodo e inquietação, sendo visto como algo negativo. Desprezamos o silêncio e tomamo-lo como sinónimo de fraqueza, ignorância, marginalidade, isolamento ou diferença. Na política, o palavreado sobrepõe-se à concisão ou ao silêncio reflexivo, prescindindo-se da máxima shakespeariana de que “é melhor ser rei do teu silêncio que escravo das tuas palavras”. Nos debates vence a verborreia, a gritaria, o atropelo do interlocutor e a provocação verbal, apesar do aviso deixado por Mark Twain de que “é melhor manter a boca fechada e parecer estúpido do que abri-la e dissipar a dúvida”. No ensino, premeia-se mais a participação e o desembaraço do que a reflexão, enquanto que na vida social a popularidade vai para os palradores, linguarudos, palpitadores e praticantes obstinados da verbe fácil e vazia, pese embora o provérbio que diz que “os rios mais profundos são sempre os mais silenciosos”.

Há que reivindicar o silêncio, tal como fez John Cage em 1952 com a sua obra 4’33, uma das composições mais controversas e transcendentes do século passado. Com o intérprete frente ao seu instrumento durante 4’33 minutos sem tocar uma única nota, Cage chamava a atenção sobre a necessidade de silêncio e a importância da capacidade de escutar (no caso, os ruídos que vão acontecendo no auditório, matizando o silêncio, mostrando a diferença entre o silêncio abstracto e o silêncio real, revelando a percepção e interpretação subjectiva do silêncio, numa protagonização do acaso). A obra de Cage reclama experienciar o silêncio, interpretá-lo com liberdade e disposição em conhecer o indeterminado, interpelando-nos, também, sobre a responsabilidade de saber escutar os sons emergentes do silêncio, de aguçar os sentidos e de nos darmos conta de uma envolvência que, sem silêncio, passa despercebida, tal como acontece hoje em relação a alguns grupos sociais marginalizados. Trata-se de um firme compromisso político em pouco mais de quatro minutos.

    É urgente uma política mais silenciosa, pois o silêncio em política permite assentar as bases do conhecimento, do raciocínio, da consciência e da capacidade para mitigar o ruído que impede escutar aqueles que sofrem de uma injustiça sistémica e que, sem êxito, exigem igualdade e mudança de modelo social. Os parlamentos não devem ser nem câmaras surdas nem recintos de má-língua. Para debater e fazer acordos há que promover atitudes mais reflexivas. Sobram os discursos sem substância, que acabaram por banalizar conceitos como democracia, liberdade e justiça, palavras que já possuíram um profundo significado político e social. A política deve ser menos impulsiva e mais tranquila, menos veemente e mais respeitadora, menos apaixonada e mais equânime, menos visceral e mais cerebral, menos grosseira e mais educada. Menos ruidosa e mais silenciosa. Mais silêncio, por favor. ●


* Jordi Matas Dalmases é professor catedrático de Ciências Políticas na Universitat de Barcelona.
* Artigo publicado originalmente no El País.

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